O caduceu, o suicídio e o setembro amarelo

A morte não é somente parte do tempo linear; ela habita o tempo circular no qual temos de equilibrar forças vitais e forças mortais e que, a cada instante, vida e morte lutam e pequeníssimas desistências, pequeníssimos adiamentos portam pequenos suicídios                                           

Charles Lang

O caduceu é um bastão em torno do qual se entrelaçam duas serpentes e cuja parte superior é adornada com asas. Estas duas serpentes opostas figuram forças contrárias que podem se associar, mas não se confundir. O caduceu pode ser um símbolo para a vida e morte, que se fundem e se separam.

De igual modo, um símbolo para o tempo. Uma das serpentes é o tempo linear, o tempo em que a coisa tem início, existência e o fim, em que há o presente, mas também o passado e o futuro. A outra serpente é o tempo circular, o tempo em que as coisas retornam e se repetem: o fim de semana, o final do ano, as estações.

No tempo que circula e se repete, a cada setembro os psicólogos reencontramos o setembro e o amarelo, reencontramos uma das duas grandes paredes em nossa profissão: o suicídio. Se a loucura humana explicita o sequestro da mente e visibiliza a miséria da vida psíquica, a tentativa de suicídio e o suicídio irrompe na estabilidade a liberdade perdida, a precarização e o fim da vida.

No setembro amarelo lembramos que a possibilidade de tomar a vida nas próprias mãos é um ato de liberdade humana, o último ato de liberdade humana pois, se bem-sucedido, implica na abolição de todos os atos humanos futuros. Mas também lembramos que o suicídio é uma espécie de mecanismo de segurança implantado sem nossa liberdade, a garantia de que, se a vida física ou moral se tornou insuportável, podemos sair batendo a porta, como o disse Mario Quintana. Em algumas culturas, o suicídio foi elevado à condição de saída moral e modo de preservação da honra, o que é muito mais do que uma fraqueza ou uma fuga. Noutras toda e qualquer forma de suicídio foram interditadas e proibidas pois, se há uma vida após a morte, o suicídio simplesmente não tem sentido. Liberdade humana e fuga da humanidade são duas serpentes, para lembrar o caduceu.

Na formação dos psicólogos a questão do suicídio é francamente discutida, pelo menos até o ponto em que cada professor ou aluno consegue suportá-la. Para os psicólogos, o suicídio não é somente uma questão legal, religiosa ou moral mas também uma questão vital e uma das possibilidades humanas com a qual cada ser humano teve ou terá que se defrontar algum dia. O modo predominante de enfrentamento são as fantasias de suicídio e pequenos atos cotidianos e imperceptíveis, que acompanham o correr de uma existência, seja na exposição sistemática e metódica a riscos, seja nas intoxicações, seja nos atos que negam a existência da morte — justamente os que velam o desejo de morte.

A consciência da morte e da mortalidade é conquistada por cada um antes do final da primeira década de vida. A próxima década tem como uma de suas tarefas a elaboração da responsabilidade de cada um pela sua vida e pela sua existência e, cujo resultado esperado, é a entrada na idade adulta. Assim, a adolescência tornou-se o período vital no qual nós, os ocidentais, temos que realizar um trabalho com a vida, com a morte, com a liberdade e a possibilidade de tirarmos a própria vida e desistirmos, ou superarmos os restos da infância e seguirmos adiante. Há um número considerável de adolescentes que sucumbem nesta empresa e as estatísticas mostram o crescendo de suicídios na curva que começa entre o final desta década e o final da próxima. São coisas que os psicólogos em formação vão aprendendo com a psicologia social, com a psicologia do desenvolvimento, com a psicologia da personalidade, com a psicopatologia, com a psicologia clínica. São questões que os psicólogos em formação escutam de seus pacientes nos estágios.

Pintura de Rudolf Brink

Não, o suicídio não é um tabu para os estudantes de psicologia, nem para os psicólogos. É assunto que comparece espontaneamente quando a escuta está aberta para tudo aquilo que se quiser dizer, é assunto que leva a procurar um psicólogo, quando a maioria das pessoas não quer mais ouvir ou não quer saber mais de prestar atenção. A maioria implicada sempre procura alguém para falar do assunto e, mesmo que este alguém procurado não seja um profissional, mas esteja disposto a escutar e dar atenção, a fala pode prosseguir e o ato pode ser postergado ou superado. Nos casos em que aquele que não pode ouvir tem um bom senso de indicar um outro, ou mesmo um bom profissional, o resultado é o mesmo: a fala trata, cura, a fala permite que o horror da existência possa ser investido num nível consequente, e daí o sofrimento pode ser suportado.

Mas há aqueles que os impasses da existência, sejam passados e pretéritos, superam. Estes são a minoria. Em geral eles não socializam seu desespero, não compartilham o impasse absoluto. Perdem-se sem apelo, sem palavras. Tornam-se puro ato.

Como no caduceu, há aqueles que estão no trabalho com a vida e com a morte, que tentam equilibrar as forças à sombra da garantia acolhedora de que assumir a vida é uma possibilidade e desistir da vida é a outra, que não precisamos suportar tudo todo o tempo.

Mas há outros para os quais a vida se tornou, simplesmente, impossível e a morte surge-lhes como a única e a última possibilidade.

O setembro amarelo é novamente ocasião para lembramos disso, que a morte não é somente parte do tempo linear, mas que ela habita esse tempo circular em que, a cada instante temos, que equilibrar forças vitais e forças mortais e que, a cada instante, vida e morte lutam e pequeníssimas desistências, pequeníssimos adiamentos portam pequenos suicídios.

Charles Lang é professor da Universidade Federal de Alagoas. Estudou Psicologia na Unisinos e fez doutorado em Psicologia Clínica na PUC-SP.

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