Nobel de Economia Richard Thaler oxigena a ciência com novas teses comportamentais

Não agimos somente conforme a consciência racional ou de acordo com ditames morais, a ação humana é gerada em grande medida pelo que chamamos de vontade irracional

Richard Thaler | Foto: reprodução

Everaldo Leite
Especial para o Jornal Opção

Recebo em minha casa uma correspondência do banco onde tenho conta e dentro do envelope há um cartão de crédito que nunca solicitei e uma carta do gerente de relacionamento, explicando sobre os benefícios de um “produto” desse tipo, revelando ainda que ele traz um determinado limite que já se encontra disponível para eu utilizar. Na última linha da carta diz que em caso de recusa devo entrar em contato para requerer o cancelamento. Essa é uma situação hipotética, mas tem tudo a ver com algumas perguntas que hoje são feitas pela especialidade comportamental das Ciências Econômicas. Por que a propensão seria maior de eu aceitar o cartão do que cancelá-lo? Por que a possibilidade de aceitar um cartão de crédito por esse meio seria maior do que a probabilidade de eu solicitar esse mesmo cartão? E por que, agora em posse de um cartão de crédito, a minha tendência é a de gastar mais em uma compra no supermercado do que se estivesse com dinheiro vivo? A minha fonte de recursos não mudou, mas alguma atividade mental abriu caminho para a ideia de que posso gastar mais e de maneira menos racional.

O modo como as pessoas lidam com o dinheiro tem gerado diversas teorias no campo das finanças comportamentais, animando economistas, estudantes, psicólogos, empresários e elaboradores de políticas públicas. Não por acaso o Nobel de Economia deste ano foi oferecido ao economista norte-americano Richard H. Thaler, pela sua contribuição nesse domínio. Em linhas gerais ele explica que essa “atividade mental” que citei acima deve ser um procedimento muito comum entre os consumidores, que não recusariam o empurrão (o chamado “nudge”) do cartão de crédito e o utilizariam como um recurso não orçamentário, isto é, praticamente como uma receita extra que só precisaria constar numa contabilidade mental paralela, a “mental accounting”. Comprar sem pensar, com base em algum desconto, mesmo quando não há necessidade, mesmo quando não se questiona o quanto de satisfação real aquela aquisição irá representar, isto é o que está em jogo no âmbito comportamental e que foge completamente da teoria racionalista ensinada na academia. O que Thaler propõe hoje é uma reavaliação acerca do uso de entendimentos clássicos sobre o processo de decisão do consumidor, abandonando um pouco a (muitas vezes) incongruente visão utilitarista, em favor de uma busca científica dos mecanismos inconscientes que estão envolvidos na decisão.

De fato, as perspectivas comportamentais no pensamento econômico são muito mais antigas do que os nossos contemporâneos supõem. Adam Smith, no século 18, ao descrever o interesse dos empresários enfatizando o egoísmo como alavanca para suas ações estava definindo uma conduta moral para um tipo humano específico. Pela razão smithiana uma atuação mais altruísta do empresário em seus negócios o levaria à falência sem dúvida, enquanto que o egoísmo beneficiaria toda a sociedade. No início do século 19 Thomas Robert Malthus alertava que a reprodução humana estava muito acelerada e iria logo superar a produção necessária de alimentos, matando muitos de fome. Malthus se equivocou, evidentemente, mas seu alerta pode ter influenciado o interesse de muitos em desenvolver técnicas e tecnologias que depois aumentaram significativamente a produtividade no campo. Karl Marx, na segunda metade do século dezenove, de um ponto de vista mais ideológico que científico, pinçou duas questões comportamentais que influenciaram movimentos históricos no século vinte, a da alienação do trabalhador e a da luta de classes. Também, nesse caso, pode-se afirmar que, desde então, muitas transformações positivas foram realizadas no mundo do trabalho para melhorar tais efeitos do capitalismo.

Obviamente, aquelas visões de mundo não são mais alvo do campo comportamental da economia, se um dia o foram. Há muito abandonamos a velha perspectiva da produção (smithiana, malthusiana e marxiana), de simples contratação de fatores, em função de uma perspectiva de mercado, em função do conhecimento sobre o encontro entre oferta e demanda. Durante o século 20 o valor trabalho deixa então de ter importância para os economistas e entra em voga o valor utilidade, que faz do mundo dos negócios algo mais acessível e antecipável que o mundo grosseiro da produção. Por essa nova perspectiva, não há necessidade de outras informações, no âmbito do mercado os preços e a quantidade de mercadorias fornecem o retrato necessário da produção, que, por sua vez, deixou de estar centralizada numa fábrica para se tornar uma cadeia produtiva bem distribuída por diversos territórios. Isso tornou a produção internacional mais flexível e possibilitou que na teoria do consumidor fosse desenvolvida novas hipóteses que agora, ao menos na esfera comportamental, começam a aperfeiçoar o livro-texto frio com humanos quentes de carne e osso.

De modo aqui bastante simplificado se pode dizer que a ciência econômica até poucos anos enxergava o processo de decisão do consumidor a partir de três etapas: de suas preferências, de suas restrições orçamentárias e de suas escolhas efetivas. Preferimos um Porsche a um Honda Civic, mas o rendimento não permite a compra do primeiro, daí escolhemos o segundo, certos e felizes de termos realizado a melhor escolha. Além disso, a teoria demonstra que nos contentamos mais quando atingimos o limite de nossas satisfações, quer dizer, até o momento quando chegamos à noção de que o custo de ter qualquer tantinho a mais de algo se tornou maior do que o seu benefício. Foi essa maximização das satisfações que o economista chamou de utilidade, e por isso chamamos esse tipo de teoria de pensamento utilitário. Com efeito, a ciência econômica reduziu o comportamento do consumidor a esses termos, e foi a partir daí que uma infinidade de cálculos foi formulada para compreendermos a dinâmica do mundo real ou prevermos cenários futuros. A utilidade, ademais, faz par com a maximização dos lucros, garantindo um casamento econômico equilibrado no longo prazo, sendo que a soma de todos os casamentos possíveis entre oferta e demanda, em todos os mercados, deveria nos puxar para um desejado equilíbrio geral. O problema é que isso tudo se tornou somente mais uma visão de um mundo ideal, sublime, arquétipo, onde tudo seria geométrico.

As finanças comportamentais trouxeram à baila um conhecimento objetivo das decisões irracionais e deverão transformar para sempre aquele universo microeconômico racionalista. Para os economistas do mainstream isso significará romper com as correntes de uma ciência que se tornou um fim em si mesma para ressurgir mais prudencialmente como conhecimento meio. Em 2002, ao se premiar o teórico da finança comportamental Daniel Kahneman com o Nobel de Economia, abriu-se as portas para essa transformação. Em 2013 o Nobel também consagrou um comportamentista Robert Shiller. Agora, com a premiação de Richard Thaler, espera-se ansiosamente que a nova disciplina já seja oferecida na academia. Os processos chamados irracionais de decisão para consumo e investimento são complexos e não se permitem equacionar de forma fácil, de modo a universalizar o método, mas precisam ser pesquisados pela ciência. O crítico social inglês John Ruskin, refletindo sobre o comportamento humano em relação ao consumo, acredita e afirma que “três quartos das demandas existentes no mundo são românticas; baseadas em visões, idealismos, esperanças e afeições; e a regulagem da bolsa é, em essência, a regulagem da imaginação e do coração”. Ora, supridas as exigências básicas, o que move o consumo? Para o economista Eduardo Giannetti a questão não é ingênua: “o bombardeio de estímulos publicitários a que estamos submetidos é, sem dúvida, parte da resposta, mas é difícil acreditar que ele tenha o dom de criar do nada os desejos que insufla e atiça sem cessar; se funciona, é porque encontra solo fértil e receptivo em nossa imaginação”.

Aonde imaginação e emoção se encaixam numa equação clássica? Certamente, em lugar nenhum, mas o que fazer se agora começa a desmoronar a ideia moderna de que seríamos seres autodeterminantes? Não agimos somente conforme a consciência racional ou de acordo com ditames morais, a ação humana é gerada em grande medida pelo que chamamos de vontade irracional. Ficou famosa uma publicação do neurologista Benjamin Libet, no “Journal of Consciousness Studies”, intitulada “Do we have free will?” (vide Google), que observava ser possível detectar atividade cerebral quase um segundo antes de uma decisão se tornar ação. Libet constatou que o momento em que o indivíduo conscientemente decide fazer algo ocorre sempre 0,3 segundos antes da ação, mas 0,7 segundos depois da atividade cerebral. Se a atividade cerebral ocorre antes de a decisão surgir na consciência, isto sugere que a primeira parte da decisão de agir ocorreu de maneira inconsciente, e somente depois a consciência “soube” que iria realizar uma ação. Vários testes foram feitos para verificar possíveis erros nesse experimento, mas nada foi encontrado. Não que isso exclua completamente o livre-arbítrio ou a autodeterminação, mas revela especialmente que uma ação (um ato de consumir) pode não ser tão consciente quanto defende a velha teoria econômica.

Os estudos da economia comportamental estão ainda em desenvolvimento, é óbvio, e, com o apoio da psicologia, da filosofia, da informática e da neurociência, deverão avançar no conhecimento sobre como tomamos certas decisões (em várias dimensões da vida) que depois nos parecem tão estranhas a nós mesmos. Talvez será até constrangedor constatar, a partir das pesquisas, que estivemos o tempo todo completamente equivocados sobre as premissas racionais da teoria, que a consciência é somente um filtro final de uma decisão que já aparece pronta e acabada na maioria das vezes em que vamos realizar uma ação. Os endividamentos compulsivos das pessoas seriam então julgados de forma diferente. Ou, que as decisões de um consumidor ou de um investidor só podem ser realmente compreendidas em escala individual, através do uso de algoritmos de análise comportamental, como já tentam fazer porcamente as redes sociais. O nobelista Thaler terá tempo para tamanho empreendimento científico? Talvez não, mas por sua causa haverá muitos pesquisadores, mergulhados na racionalidade, atrás das verdades sobre as decisões irracionais. Precisamos, por fim, ter uma certa compreensão objetiva se realmente “o que aflora na consciência são somente sombras esmaecidas de coisas que já sabemos”, como asseverou o filósofo John Gray em seu livro “Cachorros de Palha”.

Everaldo Leite é economista.

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Alex Santos

Excelente texto! Realmente a sociedade evoluiu bastante e a “ciência econômica” precisa acompanhar esta evolução!

Adalberto de Queiroz

Excelente.

Fabrizio Ribeiro

Gostei do texto! Um panorama interessante.