Euler de França Belém
Euler de França Belém

No centenário de Iris Murdoch, editoras brasileiras deveriam homenageá-la com a publicação de sua obra

O crítico literário Harold Bloom incluiu a escritora nascida na Irlanda entre “os 100 autores mais criativos da história da literatura”

Iris Murdoch | Foto: Divulgação

A escritora e filósofa Iris Murdoch nasceu em Dublin (15 de julho de 1919), na Irlanda, e morreu em Oxford (8 de fevereiro de 1999), na Inglaterra. Daqui a alguns meses, portanto, completa-se o centenário da autora de “O Príncipe Negro” (seu melhor romance, na avaliação de Harold Bloom) e 19 anos de sua morte, aos 79 anos. “Iris”, de Richard Eyre e com Kate Winslet e Judi Dench, é um belo e doloroso filme sobre seus anos trágicos, pois o Alzheimer cria uma ausência espiritual, retirando o sopro energético da vida, mas “permitindo” a existência corporal, uma vida física. No Brasil, seus livros estão fora de catálogo — podem ser encontrados em sebos —, exceto “A Soberania do Bem” (Editora Unesp, 152 páginas, tradução de Julian Fuks), que pode ser adquirido nas livrarias tradicionais. A obra contém análises filosóficas. Harold Bloom (“Gênio — Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura”) e James Wood (“Como Funciona a Ficção”) são críticos penetrantes de sua literatura. O escritor e filósofo Elias Canetti escreve sobre Iris Murdoch com extrema grosseria e virulência no livro “Festa Sob Bombas — Os Anos Ingleses”. Eles foram amantes.

Ao contrário do Brasil, a Espanha não esqueceu Iris Murdoch e está lançando “La Soberanía del Bien” e os textos literários “El Mar, El Mar”, “El Príncipe Negro”, “El Sueño de Bruno”, “Bajo la Red” e “La Salvación por las Palabras”. Em português, no Portal dos Livreiros e no Estante Virtual, é possível comprar “Os Olhos da Aranha”, “O Mar, o Mar”, “O Unicórnio”, “A Moça Italiana”, “Misha, o Encantador”, “A Cabeça Decepada” (tradução de Clarice Lispector), “Corpo Ardente” e “O Sino”. A escritora publicou 26 romances.

Na edição de segunda-feira, 4, o jornal espanhol “El Mundo” publicou o texto “Iris Murdoch: el bien és frágil”, de Manuel Llorente. O pretexto é o lançamento de “A Soberania do Bem” na Espanha (o Brasil saiu na frente). São conferências dadas pela filósofa na Universidade College de Londres, entre 1962 e 1969.

Llorente transcreve trecho da entrevista de Iris Murdoch à “Paris Review” na qual resume seu método de trabalho e a intenção de seus romances: “Antes de começar a escrever a primeira frase tenho um esquema geral e muitas notas, cada capítulo está planificado. Logo, deixo que a escritura invente a si mesma. Uma ideia conduz à outra. No princípio há possibilidades infinitas, a possibilidade de escolher os tipos de pessoas e quais problemas vão ter. Sobretudo é preciso refletir sobre seus valores, sua moralidade, seus dilemas morais”. “Precisamos de uma filosofia moral que possa falar consistentemente de Freud e de Marx, na qual o conceito de amor, raras vezes mencionado hoje em dia pelos filósofos, possa ocupar um lugar central”, afirma a filósofa.

Na conferência “De Deus e do Bem”, Iris Murdoch lamenta que há um “vazio na atual filosofia moral”.

Na conferência, Iris Murdoch pergunta “como é um homem bom, como podemos ser moralmente melhores?”. A filósofa frisa que “pouco se sabe dos homens tradicionalmente considerados bons”, como “Cristo, Sócrates, alguns santos”, e sublinha que são “a simplicidade e a franqueza de sua fala que determinam que lhes consideremos bons. O bem às vezes é raro e é difícil descrevê-lo. É irrepresentável e indefinível. Todos somos mortais e estamos igualmente à mercê da necessidade e do azar [nós, brasileiros, diríamos “da sorte”]. Estes são os verdadeiros aspectos que indicam que todos os homens são irmãos” (iguais, parecidos — por certo).

John Bayley e Iris Murdoch: o crítico e a escritora foram casados

O crítico de “El Mundo”, mencionando Harold Bloom, sugere que Iris Murdoch elegeu como modelos literários gigantes como Shakespeare, Dante, Tolstói, Jane Austen, Dickens e Henry James. Depois de chamá-la de escritora “quase-gênio”, o crítico americano assinala (página 661 de “Gênio”): “Quanto ao gênio de Murdoch não tenho a menor dúvida, embora eu não saiba qual dos seus romances será eternizado. A questão me confunde: é possível ser um grande romancista, herdeiro legítimo de Dickens, sem se ter escrito um grande romance? Prefiro crer que nós, e o tempo, ainda não soubemos avaliar talento narrativo tão fecundo. O gênio às vezes surge de forma concentrada, produzindo uma obra canônica, mas, outras vezes, emerge de modo difuso, e não chega a concretizar uma obra-prima específica”. Adiante, na mesma página, Harold Bloom assinala: “A imaginação moral era uma das forças de Murdoch, mas a construção de personagem, em última instância, era algo que lhe escapa”.

James Wood, em “Como Funciona a Ficção” (páginas 113 e 114), anota que, “em sua crítica literária e filosófica”, Iris Murdoch “sempre ressalta que a criação de personagens livres e independentes é a marca do grande romancista; no entanto, seus próprios personagens nunca têm essa liberdade”. O crítico britânico radicado nos Estados Unidos cita palavras da autora: “E logo se descobre que, por mais que a pessoa esteja ‘interessada em outras pessoas’, no sentido comum, esse interesse não lhe garante absolutamente o conhecimento necessário para criar um personagem que não seja ela mesma. É impossível, parece-me, deixar ver essa falha como uma espécie de falha espiritual”.

O professor de Harvard e crítico do “New York Times” ressalva: “Mas Murdoch é muito rigorosa consigo mesma. Existem inúmeros romancistas cujos personagens são muito parecidos entre si, ou com o romancista que os criou, e mesmo assim essas criações emanam uma vitalidade em que é difícil não perceber liberdade”.

Volto ao comentário do resenhista de “El Mundo”. Iris Murdoch “confessava que o Bardo [Shakespeare] é um modelo estupendo para um romancista, pois retrata, sem o menor esforço, dilemas morais, o bem e o mal, e as diferenças e a luta que ocorre entre eles; mostra um componente espiritual, de bondade, sacrifício, reconciliação e perdão”.

Elias Canetti, uma das paixões de Iris Murdoch

Llorente nota que Iris Murdoch teve uma vida rica, nada acomodada, com “numerosas relações íntimas com homens e mulheres na Oxford dos anos 1940 e 1950”. Manteve um longo romance com Elias Canetti, que depois a atacou de maneira estúpida — sim, por vezes, até a verdade pode ser grosseira e deselegante, ainda que seja verdade, mas, no caso, as palavras do autor do romance “Auto-de-Fé” e da obra filosófica “Massa e Poder” (gosto mesmo é da sua autobiografia em três volumes — deliciosa) talvez nem fossem verdadeiras, e sim vingativas, acertos de contas. Mulheres muito inteligentes assustam inclusive homens muito inteligentes — como o judeu búlgaro que escrevia em alemão. Mais tarde, a autora casou-se com o escritor e crítico John Bayley. Este fala de Iris Murdoch, com doçura não açucarada, em “Elegia a Iris” e “Iris e Seus Amigos”.

Iris Murdoch graduou-se, com excelência, em Filologia Clássica, História Antiga e Filosofia. Conviveu com Eduard Fraenkel, Mary Midgley, Elizaberth Anscombe e Wittgenstein. Chegou a militar no Partido Comunista, em 1939. Serviu às Nações Unidos no apoio a pessoas deslocadas pela Segunda Guerra Mundial. Recebeu influência, nessa época, de Raymond Quenau, Samuel Beckett e Jean-Paul Sartre. “Sartre — Um Racionalista Romântico”, um ensaio, é seu primeiro livro.

No prefácio de “A Soberania do Bem” (edição espanhola), Andreu Jaume aponta: “Todo o esforço de Murdoch centra-se em demonstrar que a vida moral não é só questão de vontade e ato, de decisão e consequência externa, e sim que também há um espaço invisível onde se operam mudanças que determinam a conduta e em geral a existência do ser humano”.

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