Euler de França Belém
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Niall Ferguson diz que pensamento mágico “trava” combate à pandemia da Covid-19

O professor de Stanford afirma que, além do comportamento ilógico de muitos — contra a vacina —, a burocracia estatal não tem sido eficiente

No ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, o historiador Niall Ferguson, professor de Stanford, discutiu sobre o que tem impedido um combate mais eficaz à pandemia da Covid-19. O pesquisador é autor do livro “Catástrofes — Uma História dos Desastres: Das Guerras às Pandemia e o Nosso Fracasso em Aprender com Eles” (Crítica, 544 páginas, tradução de Pepe Rissatti). A “Folha de S. Paulo” publicou uma síntese de seu pensamento na reportagem “Pensamento mágico e burocracia falha minaram combate à pandemia, diz Niall Ferguson”.

Para o pesquisador, o que “impediu uma reação mais eficaz” — para evitar a morte de quase 5 milhões de pessoas — tem a ver com “uma trágica combinação de desconfiança geral com os imunizantes e burocracia falha” (síntese de sua ideia feita pela “Folha”). Ferguson sugere que o pensamento mágico — a realidade apreendida por correlações sem lógica — levou à percepção de que as vacinas poderiam não ser eficazes (embora, ao longo da história, a partir de determinada época, as pessoas, no mundo inteiro, tenham se acostumado a se vacinar, por exemplo, contra a poliomielite). Ao mesmo tempo — e não apenas por causa do presidente Jair Bolsonaro (o pensamento mágico o transcende) —, várias pessoas se apegaram a medicamentos miraculosos e inadequados para o combate ao coronavírus, como a Cloroquina e a Ivermectina. Tal dupla se tornou, por assim dizer, quase “amuletos”.

Niall Ferguson, professor de Stanford | Foto: Reprodução

Ferguson afirma que há, no mundo contemporâneo, uma espécie de “pensamento mágico online”. “Você pode ter a elite científica mais sofisticada do mundo, com professores, pesquisadores e médicos conduzindo trabalhos em várias disciplinas, da virologia à ciência de redes”, porém, “se a população permanece cientificamente analfabeta e suscetível ao pensamento mágico e a teorias da conspiração, então todos os seus avanços científicos vão fracassar diante da aceitação pública.” Isto explica, em parte, a recusa em se tomar vacina — tanto no Brasil (menos) e nos Estados Unidos (mais). No Brasil, Bolsonaro, um caubói de Marlboro, se recusa a tomar vacina — numa pose de machão de faroeste americano ou italiano. É provável que se trate do presidente mais mal-informado da história do país. No caso dele, o que parece ideologia — e em parte é —, é muito mais ignorância.

A ineficiência do Estado é outro problema. O Estado “é extremamente bom em produzir planos de 36 páginas para se preparar para desastres como a pandemia, mas não lida bem com crises reais”, assinala Ferguson.

Ao contrário de outros críticos, Ferguson postula que “a responsabilidade seria menos de líderes populistas que não souberam conduzir a gestão da pandemia — como Bolsonaro ou Donald Trump, nos Estados Unidos — e mais de tomadores de decisão em escalas intermediárias. ‘O erro humano é sempre presente em todo desastre’”. No caso brasileiro, talvez o mestre esteja equivocado. Porque os escalões médios estavam, desde o início, empenhados em propor e cobrar a vacina, o uso de máscaras e, até, o isolamento social. Na verdade, quem menos se empenhou foi Bolsonaro — um populista-nacionalista de direita (não tem um grama de liberalismo) —, que, de alguma maneira, travou o governo. Os escalões intermediários — e até ministros — tiveram de enfrentar a resistência do presidente para comprar vacinas. O fato de Marcelo Queiroga ter exigido o uso de máscaras no Ministério da Saúde não agradou os mictórios do ódio do bolsonarismo.

Os quase 5 milhões de mortos — 607 mil no Brasil (na Guerra do Paraguai, no século 19, morreram 50 mil brasileiros) — são uma tragédia internacional. Mas Ferguson ressalva que num inverno no Reino Unidos, entre 1950 e 1951, houve um alto índice de mortalidade. “Por que ninguém mais se lembra disso hoje em dia? É possível que que um esquecimento como esse aconteça com a Covid?”, indaga o pesquisador.

Ferguson frisa que “é preciso que as restrições para a contenção do vírus, como o uso de máscara, testes constantes e distanciamento social, só sejam impostas enquanto são de fato necessárias, sob o risco de nos acostumarmos a essa nova realidade. ‘Sou um grande defensor de medidas emergenciais apenas para emergência, e é importante reconhecer quando elas estão acabando’”.

O historiador britânico sugere que o mundo está excessivamente preocupado com as mudanças climáticas, mas elas “têm consequências mais lentas do que problemas capazes de zerar impactos urgentes, como uma guerra entre China e EUA” (a frase entre aspas traduz o pensamento de Ferguson, mas é da “Folha”). Ele acredita que grandes ataques cibernéticos podem resultar de um conflito entre chineses e americanos. O apagão recente do Facebook e do Instagram chegou a prejudicar a economia, embora tenha sido breve. “Imagine se toda a internet caísse não só por seis horas, mas por seis dias. Um grande ciberataque é muito provável.”

Crítico dos ambientalistas radicais, Ferguson assinala que “queremos falar de mudanças climáticas porque está na moda. Mas 2020 nos lembrou que há desastres que ocorrem muito mais rapidamente”. A “Folha” faz um reparo adequado: “Cientistas apontam que as mudanças climáticas já têm impactos reais. Pesquisa publicada em maio na revista ‘Nature’ mostrou que 37% das mortes por consequência do calor de 1991 a 2018 foram causadas pelo aquecimento global. E estudo da Organização Meteorológica Mundial apontou que, em cinco décadas — de 1970 a 2019 —, 2 milhões de pessoas morreram devido a eventos climáticos extremos”.

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