Euler de França Belém
Euler de França Belém

Netflix não é responsável sozinha por queda de audiência das tevês abertas

A Internet e a facilidade de comunicação via celulares, que se tornaram computadores, acabaram com as audiências absolutas. A Globo jamais voltará a ser a mesma, assim como nós

O historiador e cientista político Mark Lilla, autor do livro “A Mente Naufragada”, disse, numa entrevista ao jornal “Zero Hora”, que “estamos vivendo um tempo de mudança, mas a questão é a velocidade da mudança. Nas sociedades tradicionais, as instituições mudam, mas mudam lentamente. Mas há um momento em que a vida institucional passa a ser mais curta do que o tempo de vida humana. As sociedades criam ordem. Não somos feitos, enquanto criaturas, para uma sociedade que gera desordem”. No momento, “temos instabilidade causada pela onipresença do mundo inteiro pela internet, é profundamente desestabilizador para o tipo de criatura que somos. É compreensível que algumas pessoas queiram dizer: ‘Devagar, devagar’”.

Mark Lilla está escrevendo um livro, que terá o título de “Ignorância e Bênção”. “É sobre a ideia de que quanto menos sabemos, mais felizes somos. Um pensamento ocidental tradicional é baseado na ideia socrática de que conhecimento é igual a virtude e igual a felicidade. Mas a tradição mais popular diz que não. Diz que não devemos tentar aprender muito porque isso nos fará infelizes. Que quando éramos mais simples, vivíamos de um jeito mais feliz.” Não sei se o professor de Columbia menciona John Gray, mas o que diz ecoa as ideias do livro “Cachorros de Palha — Reflexões Sobre Humanos e Outros Animais” (Record, 255 páginas, tradução de Maria Lucia de Oliveira). “Outros animais não precisam de um propósito na vida. Uma contradição em si mesmo, o animal humano não pode passar sem um. Será que não podemos pensar o propósito da vida como sendo simplesmente ver?” — é como o filósofo britânico termina o livro.

John Gray enfatiza que “é impossível exercer controles sobre a tecnologia. Os poderes mundiais podem jurar que a engenharia genética terá apenas usos benéficos, mas pode ser apenas uma questão de tempo tê-la usada para a guerra. (…) O poder conferido à ‘humanidade’ pelas novas tecnologias será usado para cometer crimes atrozes contra ela”. Adiante, o filósofo insiste: “A tecnologia não é algo que possa ser controlado pela humanidade. Uma vez que uma tecnologia entre na vida humana — seja ela o fogo, a roda, o automóvel, o rádio, a televisão ou a Internet —, a vida é transformada por ela de maneiras que nunca podemos compreender inteiramente. (…) O progresso técnico deixa apenas um problema a resolver: a fraqueza moral da natureza humana. Infelizmente, esse problema é insolúvel”.

No momento, assiste-se, na Imprensa e nas redes sociais, discussões férteis e intermináveis sobre a baixa audiência da TV Globo. Nota-se, aqui e ali, uma torcida pela queda da rede da família Marinho. Porque o tombo do gigante é um espetáculo mais vistoso do que o tombo de seres pequenos. Projetos bem-sucedidos, com uma estrutura que parece indestrutível, são mais odiados, inclusive por jornalistas, que projetos fracassáveis e, portanto, não longevos.

A própria Globo lida mal com sua queda de audiência. No lugar de entender que ninguém terá mais audiências quase absolutas — exceto quando se transmite fatos explosivos, como a história de João de Deus, uma personagem dupla que chamaria a atenção tanto de Dostoiévski, mais, quanto de Tolstói, menos —, a maior rede do país parece desesperada e transmite, talvez pela primeira vez na sua história, depois de ter se tornado hegemônica, insegurança interna e externa. O que se comenta, antes mesmo da queda, é que a Globo está em queda livre. Não está. Ainda não está. Mas jamais voltará a ter audiências quase unidimensionais.

O que fazer? Ficar inerte não dá pé. Mas trocar pessoas de função e popularizar ainda mais o conteúdo, numa espécie de maquiagem — exibir o pior com a melhor estética, dada a alta qualidade de seus profissionais —, nada resolverá. Não sei a receita, e certamente ninguém a tem — dada a velocidade de tudo. Mas um caminho possível é explorar melhor o que se faz de bom, evitando excessos populistas — o populismo da política contaminou tudo, inclusive a Imprensa —, e insistir com as pessoas que há valores mais sólidos e que não se deve trocar qualidade por mera expectativa de mais audiência. Manter certo nível, sem sofisticar demais — não custa ressaltar que até intelectuais estão trocando os livros por séries —, é uma saída menos insegura. Com todo mundo querendo se tornar Silvio Santos, inclusive a Globo, certamente muitos telespectadores, talvez a maioria, vão fugir dos simulacros do homem do baú. Para manter a audiência em níveis suportáveis, que mantenha determinada massa de anunciantes, a Globo deve continuar sendo Globo, adaptando-se ao certo gosto do freguês, mas também criando um gosto para o freguês, sem se subordinar inteiramente ao baixo clero do gosto popular.

Manter a qualidade do produto é essencial

Culpa-se a Netflix pela baixa audiência das redes de televisão abertas. Mas sozinha a Netflix não é capaz de derrubar a audiência da Globo, da Record e do SBT. A dispersão de atenção vai muito além. Há pessoas vendo séries e filmes na Netflix, e em outros canais. Mas também há uma infinidade de indivíduos curtindo outras coisas na internet — como jogos (crianças adoram), sites de sexo, músicas no YouTube, programas de humor (o humorista Eraldo Fontiny, o da boneca Thamires, faz um sucesso danado — o que o leva ser contratado para shows em teatros) e muito mais. Há youtubers tão famosos quanto Fátima Bernardes. Mais: conseguem sobreviver, financeiramente, fora dos antigos circuitos oficiais.

A vida mudou. A banda passou sob a janela. Muita gente percebeu, mas gigantes, com suas estruturas dinossáuricas, não têm como reagir rapidamente. Ante o susto, produto do receio até de falência, a reação às vezes é desproporcional. Começa-se cortando cabeças — a Globo trocou recentemente figuras coroadas de um setor para o outro, por exemplo do jornalismo para o entretenimento —, reduzindo custos e termina-se usando inteligência de primeira linha para piorar os produtos, ou mantê-los com relativa qualidade, com o objetivo de torná-los acessíveis ao público que está sobrando, cada vez menor, para a tevê aberta. Há concorrência, não raro canibalizante, entre programas de um mesmo grupo empresarial. O “Em Pauta”, da GloboNews, às vezes expõe e comenta os fatos de maneira mais densa e, sim, acessível do que o “Jornal Nacional”, cujo sentido de urgência, do fato explosivo, não desperta mais (ao menos em larga escala) o interesse do telespectador, que é bombardeado por notícias o dia inteiro. Pouco depois das 20h30, quando o “JN” entra no ar, fica-se com a velha sensação de déjà vu.

Os interesses do homem atual, produzidos por uma oferta espantosa de todo tipo de entretenimento — informação também faz parte do mundo do espetáculo (o “Em Pauta” é um misto de jornalismo e show) —, são cada vez mais variados e múltiplos. A partir de agora, os donos da Globo, assim como seus profissionais (no geral, os melhores do mercado), têm de se contentar com audiências menores — quiçá com nichos de audiência. Os dirigentes das tevês abertas, com suas programações rígidas — o que, durante anos, colaborou para o sucesso da Globo —, demoraram para perceber que o avanço tecnológico e o tempo corrido dos indivíduos exigiam mudanças. Antes, quem havia perdido a notícia bombástica do “Jornal Nacional” não tinha chances de vê-la de novo, exceto se a rede a repetisse. Agora, pode vê-la a qualquer momento. Nunca é tarde para mudar e adaptar. O problema é que, quando os gigantes estão se adaptando, cristalizando uma posição, o mercado e o público já estão seguindo novos caminhos. Aí os custos aumentam e o público se torna ainda mais disperso e, arredio, difícil de ser conquistado.

Trata-se de uma verdadeiro armagedom? Não. Na verdade, com as audiências divididas, a sociedade tende a ficar mais democrática. Manter a qualidade do produto, insistir nisto, assim como investir na variedade de temas são caminhos possíveis para não sucumbir. O Grupo Jaime Câmara, se não se reinventar rapidamente, não dará conta de se manter no mercado por um tempo mais longo. Seu custo de manutenção tende a torná-lo inviável. Sua realidade atual tem a ver com o passado — não com o presente.

A Internet e a facilidade de comunicação via celulares, que se tornaram computadores, acabaram com as audiências absolutas. A Globo jamais voltará a ser a mesma (para sobreviver terá de se tornar menor). Assim como nós.

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