Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Nem todo russo é Putin – e opinião pública e imprensa deveriam refletir sobre isso

Ao reagir à invasão da Ucrânia, países e empresas extrapolam nas medidas de retaliação e punindo pessoas que nada têm a ver com a guerra de seu líder

“Boicotem a Rússia”, diz cartaz escrito em inglês | Foto: Reprodução

Na terça-feira 8, Janaína Rueda, chef do restaurante Dona Onça, no térreo do lendário Edifício Copan, centro de São Paulo, tornou-se personagem da mídia nacional. É que ela havia decidido retirar o estrogonofe do cardápio da casa, como forma de chamar atenção para o confronto entre Rússia e Ucrânia.

Estrogonofe é um prato símbolo da culinária russa. “Mas não é um cancelamento da Rússia”, apressou-se em dizer Janaína à Folha de S.Paulo. “É mais uma forma de dizer que estamos contra quem começou isso.”

É verdade, o presidente Vladimir Putin, da Rússia, “começou isso”. Por razões que os ocidentais insistem em tentar adivinhar além do óbvio – “ele sonha recriar o império russo”, “ele quer anexar a Ucrânia”, “ele não vai parar por aí” etc. –, o mandatário prepotente, um ditador que se utiliza de urnas, infringiu as normas do Direito internacional e invadiu o país vizinho, iniciando um confronto ainda de consequências não delimitadas ao território do confronto, mas que causaram reações as mais adversas possíveis não só a ele ou a seu governo, mas ao povo russo como um todo.

É como se houvesse uma metonímia: onde se veja russo, se leia Putin. A Rede Globo, por exemplo, seguiu o que alguns conglomerados de entretenimento fizeram e suspendeu negócios com o país beligerante. Os russos vão ficar sem telenovelas globais pela primeira vez desde a década de 1970.

À ação militar ordenada por Putin na quinta-feira, 24, se seguiu uma adesão automática ao vizinho agredido: o mundo ocidental, quase de forma unânime, reagiu imediatamente pró-Ucrânia. Na impossibilidade de entrarem em um confronto aberto, o que colocaria duas superpotências nucleares em guerra – Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar comandada, de fato, pelos Estados Unidos –, os governos implementaram sanções econômicas duríssimas desde o princípio. A retirada dos bancos russos do sistema internacional de compensação, por si só, já seria algo terrível, não só para o alvo, mas, num mundo globalizado, a todos os que comercializam produtos com a economia russa.

Na mesma perspectiva, megaempresas estrangeiras entraram em modo represália: Facebook, Google, Coca-Cola, Starbucks, McDonald’s e outras gigantes resolveram fechar seus serviços aos russos. A opinião pública internacional, impulsionada pelas redes sociais, pressiona as que ainda não fizeram o mesmo, como Caterpillar e Pirelli.

No esporte, os russos foram retirados dos campeonatos internacionais de que participavam; o piloto de Fórmula 1 Nikita Mazepin foi demitido de sua equipe, a Haas, após regras rígidas impostas pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) a competidores e outros profissionais russos; da mesma forma, na Paralimpíada de Pequim, não só os atletas russos, mas também os de Belarus tiveram sua participação vetada.

Bilionários russos podem realmente ser aliados de Putin, mas não passaram a ser a partir deste momento. De igual maneira, se praticam algo que vai contra as leis dos países em que suas empresas atuam, não começaram agora. Entretanto, seus bens e valores estão sendo confiscados por conta da incursão militar na Ucrânia. Ainda que alguém ache que seus ganhos são indevidos, é uma represália justa ou, ao menos, lógica? Até porque, se sabiam que são indevidos, a coerência – e a própria lei – pedia que agissem desde então, correto?

No front desse clima de repulsa está a imprensa internacional e também a brasileira. Há uma quase unanimidade de opinião sobre qual posicionamento tomar, e é o de execração à Rússia. Não só a Putin e seu ato condenável e criminoso, mas a tudo que tenha a ver com o país. Dessa forma, não tem como não criar uma deturpação do quadro, ainda que, sim, a Ucrânia seja a vítima da história.

Não parece saudável que se confunda um povo com alguma liderança sua que porventura faça atrocidades. Foi pela massificação de desinformações sobre o islamismo depois dos ataques às torres gêmeas no 11 de Setembro que muçulmanos do planeta inteiro, de repente, se tornaram “comparsas” dos radicais jihadistas ao olhos da sociedade ocidental.

Os russos são não são Vladimir Putin. Se houvesse um plebiscito no País sobre a situação da Ucrânia, sobre se aquele país e a Rússia devessem ser um só, quem sabe, haveria uma predominância de russos a favor. Outra coisa muito diferente seria se a pergunta fosse algo como “a Rússia deve promover uma guerra contra a Ucrânia?”. A proposta seria rechaçada pelos russos, com alta probabilidade.

Da mesma forma, o povo brasileiro não pode ser tomado, em seu todo, pelos princípios bolsonaristas, como não poderia, da mesma forma, ser tratada como uma patuleia petista quando Lula e Dilma Rousseff estiveram no poder. Os poderosos passam, a nação permanece.

Em tempo: três dias depois, Janaína Rueda voltou atrás e o estrogonofe já estava de novo com no menu do Dona Onça. Ainda há esperança no meio do caos.

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