Na semana passada, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública pedindo o cancelamento das outorgas de radiodifusão concedidas à Jovem Pan. Tudo a ver com o alinhamento político à direita a que a emissora se propôs desde o início do governo de Jair Bolsonaro (PL) e que foi se aprofundando com o decorrer de seu mandato.

Em tempo: jornalistas e mesmo a própria empresa, por meio de um editorial, podem se posicionar politicamente. O mito da isenção jornalística se aplica necessariamente a fatos, não a opiniões.

O problema da histórica Jovem Pan, quase octogenária (foi fundada em 1944), nos últimos anos tem menos a ver com “a que lado se posicionar” do que “de que forma se posicionar”. É que a emissora passou a abrigar negacionistas que puxaram uma campanha de desinformação cada vez mais intensa.

Transformando a liberdade de expressão em dogma, a emissora deixou rolar por anos uma confusão entre fatos e opiniões. Do começo ao fim de sua grade diária, a defesa de questões já cientificamente rejeitados, como o tratamento precoce, e o ataque sem fundamento às urnas eletrônicas fizeram parte da rotina dos programas da Jovem Pan. Eram vistos como “debates”.

Instalou-se, nos estúdios da TV e da rádio, aquilo que o jornalista Reinaldo Azevedo passou a chamar de “fake opinion”: é quando algo tido como fato passa a ser trabalhado como se fosse uma opinião ou uma possibilidade a mais. E, assim, fizeram debates sobre a eficácia de vacinas e das urnas eletrônicas. Da mesma forma, seus “debatedores” defenderam a liberdade de pessoas pedirem golpe militar, rasgando em plena telinha o cerne dos princípios constitucionais.

Alguém colocar isso em seu canal no YouTube ou em um post no Instagram é uma coisa – embora uma coisa grave. Uma concessão pública fazer isso para milhões de pessoas é outra bem diferente. E gravíssima. A Jovem Pan deve ser punida por tratar tão mal algo tão nobre como é a liberdade de expressão.