Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Não só Sergio Moro foi desmoralizado na ONU: grande parte da mídia também

Decisão favorável a Lula e contra Sergio Moro deveria servir para “mea culpa” mais profundo da imprensa hegemônica

William Bonner na apresentação do “Jornal Nacional” com a imagem, ao fundo, de cédulas jogando de canos: marca da parceria da Lava Jato com o jornalismo | Foto: Reprodução

A imagem dos dutos jorrando dinheiro atrás dos apresentadores do Jornal Nacional a cada fato novo sobre a Operação Lava Jato nunca foi esquecida pelos petistas e seus aliados.

Para quem, como eles, sofreram a grande parte dos ataques desferidos pela investigação, ela é a representação maior do compromisso não assinado que a Rede Globo fez com procuradores, delegados e outros investigadores de um dos maiores escândalos já descobertos de desvio de dinheiro público, a que se deu o nome popular de “petrolão”, pelo fato de o rombo se concentrar em desvios da maior estatal brasileira.

A Globo, pelo protagonismo que tem, ficou mais marcada, mas todos os grandes veículos de comunicação do País naquele momento inicial, em 2014, foram seduzidos pela Lava Jato como uma grande novidade. E fazia sentido. Afinal, era a primeira vez em que gente poderosa – e exercendo o poder – estava sentindo o gosto da prisão e de outras privações. Não tinha como não acompanhar de muito perto tudo aquilo de que parecia despontar um novo Brasil, livre de corrupção, compadrio e de outros despautérios no setor público.

A operação, especialmente em seu início, teve altíssima aceitação da opinião pública. Ao mesmo tempo que sua aprovação estava nos céus, a dos políticos caía no fundo do poço, notadamente dos que tinham ligação com o PT. No começo, portanto, a grande imprensa saudou a Lava Jato como um grande evento, com gente destemida e com senso de justiça à frente.

Os métodos utilizados, entretanto, eram controversos: prisões temporárias que extrapolavam normas do Código de Processo Penal e delações premiadas que eram usadas como provas e não como caminho para chegar até elas. E, envolvidos pela magia de um conto de Gotham City, aceitavam que Batman fizesse como quisesse seus procedimentos.

A imprensa stablishment calou-se para essas questiúnculas do Estado democrático de direito. Nos grandes veículos, cabem nos dedos de uma mão (e sobram) os jornalistas que denunciaram abusos da operação.

Um político em especial foi especialmente detratado: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada, o Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu que o petista teve violados seus direitos políticos, a garantia a um julgamento imparcial e sua privacidade pela Operação Lava Jato.

A decisão do comitê não tem efeito prático – ou seja, não possibilita qualquer tipo de indenização para Lula nem punição para quem o investigou, julgou e condenou –, mas responde positivamente a uma representação apresentada por seus advogados. Tampouco a decisão tem o poder de inocentar o ex-presidente: como foi explicitado, o que a defesa queria era que fosse averiguado, por uma instância não sujeita aos humores nacionais, que não houve um julgamento justo. E foi o que conseguiram.

Politicamente, talvez, possa ser mais um ponto ganho na corrida eleitoral, embora pareça, a priori, mero detalhe. Na verdade, mais do que quem ganhe, tem quem perca: o ex-juiz e hoje político Sergio Moro é, com certeza o maior derrotado.

Capas da “Veja” com Sergio Moro: revista foi uma das que exaltou o ex-juiz como um herói lutando pela justiça | Foto: Reprodução

Mas, junto com Moro, quem deu suporte à Lava Jato também deveria se aprofundar na autocrítica – algo que comentaristas políticos sempre exigem do PT. Lula sempre teve muito menos defensores a postos do que críticos de prontidão na grande mídia. Em relação à investigação, havia no ar uma condenação prévia que foi observada exalando nos telejornais, sem muito controle, por exemplo, quando de sua desnecessária condução coercitiva até o posto da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas, no início de março de 2016.

Ou quando trechos de áudios de conversas grampeadas, “pinçados” para vazamento, o tinham como personagem. Foi um desses áudios que o impediram de se tornar ministro de Dilma Rousseff (PT), por uma decisão bastante contestável do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) – algo convenientemente esquecido por quem quer ligar a Corte ao PT nos dias atuais.

A Lava Jato e sua condução midiática incitaram, em última instância, um descontrolável ódio à política que teve a eleição de Jair Bolsonaro como uma consequência fatal – principalmente levando-se em conta a trombada de frente com uma pandemia conduzida de modo totalmente irresponsável pelo Executivo. Mas, ao longo de todo o processo, o desgaste às instituições também é outra ferida ainda em carne viva.

Sergio Moro nunca pedirá desculpas, seria o mesmo que, mais do que uma autocondenação, se intitular como farsa. Já a imprensa, como um todo, não precisa seguir o exemplo: uma autocrítica, que tanto cobra do PT – com assertividade, diga-se – também seria bem-vinda.

Se não for agora, isso será cobrado no futuro. Quem dera não se esperem décadas, como foi o caso da própria Globo em relação à autocrítica sobre o apoio ao golpe de 1964, ao qual chamou, por 20 anos, de “revolução”.

2 respostas para “Não só Sergio Moro foi desmoralizado na ONU: grande parte da mídia também”

  1. Avatar Pierre disse:

    Não existe nenhum juiz que tenha anulado as sentenças do presidiário licenciado pelos amigos do STF ,e os 15 bilhões de reais que foram devolvidos ?os depoimentos dos chefoes não foram desmentidos !qual é a sua ? Tu também tem bandido de estimação?esquerda ou direita é Lorota! No Brasil só existem dois partidos é um roubando e o outro querendo roubar.

  2. Avatar José do Carmo Siqueira disse:

    Análise fundamental que você faz, Jornalista-Editor ELDER DIAS. Tem gente que precisa aprender a ler, interpretar, refletir e reconhecer o quanto essa operação, verdadeira Lawfare, foi conduzida contra o Presidente LULA e seu resultado foi destruir a indústria brasileira. A mentira tem pernas curtas, já diz a sabedoria popular. A verdade venceu. Vamos reconstruir e transformar o Brasil para os/as brasileiros/as.

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