Euler de França Belém
Euler de França Belém

Não se deve proibir a leitura de livros, como Macunaíma, devido a preconceitos contra a homossexualidade

Numa escola de Manaus, alunos evangélicos se organizam para vetar a leitura de “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Casa Grande & Senzala”, alegando que abordam a homossexualidade

Mário de Andrade capa do livro Macunaima-mario-de-andrade-14019-MLB3938610976_032013-F

 

Por que os Estados Unidos fizeram a bomba atômica antes da Alemanha e da União Soviética? Porque seus cientistas, trabalhando num país democrático, tinham acesso a informações amplas, detalhadas. Cientistas de vários países trabalhando juntos, agregando pesquisas e conhecimentos, anteciparam-se aos cientistas das ditaduras nazista e comunista. Os soviéticos roubaram os segredos atômicos dos americanos, mas chegaram relativamente tarde. A lição que se extrai é que o conhecimento, para se firmar e ser ampliado, precisa ser livre. Trabalhando sob pressão de uma ditadura — que excomungava cientistas que avaliavam que não havia uma ciência socialista, e sim apenas uma ciência universal, sem adjetivos e penduricalhos —, cientistas às vezes chegam tarde, quando chegam, a descobertas por vezes úteis para a Humanidade.

Gilberto Freyre capa de Casa Grande e Senzala f189a54816ad7d6e30577e74492c0c30627

Por intermédio de um post do poeta, crítico literário e tradutor Cláudio Willer — que tornou Lautréamont (mais) conhecido no Brasil —, tomo conhecimento de que estudantes evangélicos de Manaus se recusam a ler o romance “Macunaíma”, do poeta e prosador paulista Mário de Andrade, e o tratado “Casa Grande & Senzala”, do sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre. São duas obras incontornáveis para quem quer conhecer o Brasil do ponto de vista cultural, histórico e sociológico. “Macunaíma” é uma das obras basilares do modernismo brasileiro.

Pesquisador infatigável, Mário de Andrade é um dos precursores da Língua Brasileira — da Língua Portuguesa “inventada” pelos brasileiros. A obra é, também, uma redescoberta do Brasil — agora pelas mãos dos brasileiros, e não mais dos estrangeiros, como os portugueses. Ao mesmo tempo, conta uma história divertida. “Macunaíma” é quase um “Dom Quixote” dos trópicos. O romance é tão brasileiro quanto universal.

Mário de Andrade 2mario1

“Casa Grande & Senzala” é um retrato sobre o Brasil movediço e complexo. Fica-se sabendo, lendo o livro de Gilberto Freyre (foto abaixo), porque somos o que somos e como nos tornamos o que somos. Ele estuda a especificidade brasileira em vários sentidos. Por que racialmente, apesar dos problemas — que nunca são inteiramente resolvidos, nem com leis —, somos mais tolerantes? O livro, como nenhum outro, não contém a explicação definitiva, mas apresenta caminhos para o entendimento da complexidade da formação do “brasileiro”.

Por que estudantes evangélicos de Manaus, capital do Amazonas, se recusam ler as duas obras-primas? Eles alegam que os livros falam sobre “homossexualismo”. A homossexualidade não é, a rigor, o tema básico de “Macunaíma” e de “Casa Grande & Senzala”. Porém, e se fosse? Não teria importância alguma. Não há temas tabus para a literatura, para a sociologia, para a psicologia e para a história. Todos os temas são “humanos” e merecem registro. Vamos deixar de ler as obras de Walt Whitman, Oscar Wilde, Marcel Proust, André Gide, Mário de Andrade, Reinaldo Arenas, Lezama Lima, Caio Fernando Abreu por que eram homossexuais? Vamos deixar de ler a obra de James Joyce porque bebia muito? De maneira nenhuma se pode deixar de ler a obra de escritores por que são homossexuais ou alcoólatras ou por que suas obras mencionam homossexuais ou alcoólatras. Os temas, como a homossexualidade, também não devem afugentar leitores. A vida é de uma riqueza extraordinária e não devemos limitá-la devido a preconceitos, por vezes pueris, mas que ganham força devido a força das religiões.

Gilberto Freyre 1 ay9j48ohtrym35apud50z8gq9

O texto que está sendo divulgado no Facebook (http://www.pavablog.com/2012/11/12/em-manaus-alunos-evangelicos-se-recusam-a-ler-obras-como-macunaima-e-casa-grande-senzala-dizendo-que-os-livros-falam-sobre-homossexualismo/) registra: “O protesto de um grupo de 13 alunos evangélicos do ensino médio da escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima — na avenida Noel Nutels, Cidade Nova, Zona Norte —, que se recusaram a fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira — gerou polêmica entre os grupos representativos étnicos culturais do Amazonas. Os estudantes se negaram a defender o projeto interdisciplinar sobre a ‘Preservação da Identidade Étnico-Cultural brasileira’ por entenderem que o trabalho faz apologia ao ‘satanismo e ao homossexualismo’, proposta que contraria as crenças deles”.

Segundo o site, “por conta própria e orientados pelos pastores e pais, eles fizeram um projeto sobre as missões evangélicas na África, o que não foi aceito pela escola. Por conta disso, os alunos acamparam na frente da escola, protestando contra o trabalho sobre cultura afro-brasileira, atitude que foi considerada um ato de intolerância étnica e religiosa. ‘Eles também se recusaram a ler obras como ‘O Guarany’, ‘Macunaíma’, ‘Casa Grande & Senzala’, dizendo que os livros falavam sobre homossexualismo’, disse o professor Raimundo Cardoso”.

Os alunos avaliam que o “problema” deve ser visto pelo ângulo religioso. “O que tem de errado no projeto são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo, que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia”, sublinhou uma estudante.

Representantes do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, da Ordem dos Advogados do Brasil-Seção do Amazonas e do Ministério Público visitaram a escola para debater a questão. “Para a representante do movimento de entidades de direitos humanos e do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, Rosaly Pinheiro, a problemática ocorrida na escola reflete uma realidade de racismo e intolerância à diversidade. ‘Nós temos dados de que 39% dos gestores e alunos das escolas são homofóbicos. Essa não pode ser encarada como uma oportunidade para se destacar um fato ruim, mas sim uma oportunidade de se discutir, de uma forma mais ampla, essas questões com os alunos’.”

A promotora Carmem Arruda frisou que a “crise” pode ser útil para “esclarecer a comunidade”. “É uma chance de discutir a diversidade e uma oportunidade de construirmos uma conscientização junto não apenas aos alunos, mas sim às famílias que serão fazem refletidas junto a comunidade”, pondera a representante do MP.

Carla Santiago, representante do Fórum pela Diversidade da OAB/AM, disse, relata o site, “que o episódio não era para ser encarado como um ato que fere os direitos de negros, homossexuais, mas sim um momento de conscientizar os alunos sobre a etnodiversidade”.

O site informa que a escola mantém a posição “de cobrar o trabalho original passado aos alunos pelo professor de História”.

Leia mais sobre Mário de Andrade no link:

Inglês compara Mário de Andrade com T. S. Eliot e “Pauliceia Desvairada” com “A Terra Devastada

 

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Capixabão

Gente burra, retardada, fanáticos miseráveis.

Jhon

Esses evanjegues querem controlar a mente dos fracos pscicologicamente.