Euler de França Belém
Euler de França Belém

Não deixem que a Divina Comédia seja posta na fogueira!

Se após o ataque não surgir um crescimento do sentimento anti-islâmico ou um fortalecimento da extrema direita na Europa, seus ideólogos irão se reunir para rever o que aconteceu de errado…pois são estes os objetivos

Arnaldo Bastos S. Neto

Era garoto e aguardava com ansiedade a publicação de “O Pasquim”, o célebre jornal editado por Jaguar, Tarso de Castro e companhia, que comprava sempre na banca da Praça Tamandaré. Me acostumei com aquele humor debochado, ferino, sempre ridicularizando a tudo e a todos, especialmente os poderosos. Pasquim era uma pedra no sapato da ditadura mas também estampava ataques à figura de Deus ou até mesmo capas com um título garrafal onde se lia “Todo paulista é bicha” (e depois da reação desvairada publicarem outra com “Todo paulista é machão”. E fico me perguntando o quanto “O Pasquim” devia a publicações como “Charlie Hebdo” e outras, espalhadas por vários países).

Também me lembro das múltiplas polêmicas com filmes religiosos… o primeiro de que me recordo chamava-se “Jesus Cristo Superstar”, uma bobagem psicodélica encenada como uma ópera-rock. Teve um filminho chatíssimo de Jean-Luc Godard, “Je vous salue, Marie”, proibido porque retratava Maria na época contemporânea de uma forma inadmissível para a Igreja Católica. A garotada do movimento estudantil da época, com mais amor pela liberdade que a turma neostalinista que vejo hoje, prontificou-se a exibi-lo em Goiânia, mesmo sob pena de responderem a processos federais (o que de fato ocorreu). Ou ainda aquele que tentaram proibir sem sucesso no Brasil porque retratava um Jesus demasiado humano, a ponto de sonhar com uma vida normal, ao lado de Maria Madalena. Não posso dizer o quanto a minha cultura cinematográfica deve a autores como Pasolini e seu “Decameron”, um filme violento e despudorado, de enorme conteúdo anticlerical. Ou ainda as imagens de “A vida de Brian”, o filme corrosivo do grupo inglês Monty Python, cuja referência principal é óbvia demais. Recentemente li o “Gênesis”, desenhado pelo Crumb, um livro que certamente desagradou a muitos religiosos. Posso pensar em Freud, Darwin ou até mesmo Marx, autores cujas obras questionaram as bases do pensamento religioso vigente. As múltiplas recordações veem à minha cabeça e até me perco com tantas referências disponíveis.

Fico imaginando como seria a nossa cultura sem a longa linhagem de autores satíricos que se estendem no tempo, de Aristófanes até Gregório de Matos, de Ferreira Gullar até Hilda Hilst e de como tais autores nos ajudaram a nos libertar de uma vida determinada e controlada pelos clérigos e moralistas. A liberdade de que dispomos hoje nas nossas vidas pessoais e que desfrutamos, devemos a estes escritores e artistas que desafiaram os convencionalismos de suas épocas. Sem tais pessoas, sequer seria possível o divórcio ou até mesmo o direito de escolher o que ler.

Um mundo onde o anarquismo e a iconoclastia dos cartunistas assassinados em Paris estejam banidos é para mim simplesmente um mundo cinzento. Seria a vitória final da caretice e do recalque moralista sobre a arte e a liberdade. Um mundo onde sequer eu poderia rir da sátira feita pelos Simpsons sobre a “Última Ceia”… (alguém se escandalizou?) Tampouco posso imaginar que amanhã a “Divina Comédia” de Dante seja retirada das livrarias por ter colocado Maomé na parte do Inferno, dilacerado, pagando pelos “cismas que provocou”…

Que tantos aqui zombem da importância da “liberdade de expressão” não me surpreende. O Brasil é um país primitivo e atrasado, do qual me envergonho sempre, com problemas que nas sociedades mais avançadas já foram resolvidos ou equacionados há 50, 100 anos. Nossa agenda é pautada pela necessidade, pelo prato de comida, pela violência policial, pelo crime e o medo, pelos nossos complexos de inferioridade de ex-colônia. Viver em volta de tais problemas embaça a visão. Só isso para justificar alguns raciocínios que leio no Facebook.

A adesão a valores, por certo, depende da experiência biográfica de cada um e em face da precariedade dos mecanismos para determinação de quais valores devem prevalecer num contexto concreto, só posso dizer que os mesmos não são postos em primeiro plano por uma questão de “verdade”, mas tão somente em questão de “escolhas”. Com base na minha biografia pessoal, das coisas que já vivi e li e ainda por observar quais as sociedades mais prósperas e bem sucedidas, eu valorizo a liberdade de expressão como algo fundamental. Esta é a minha escolha: uma escolha contra os obscurantismos de todos os tempos. Da liberdade vem a arte, a inovação, as novas técnicas e inventos, as novas formas de viver e se relacionar. Sem liberdade, as sociedades se tornam caducas e ultrapassadas, fracassam no objetivo de proporcionar aos seus habitantes uma vida digna.

Finalmente, jamais cairei no conto da “indignação” quando o assunto é política. Motivos para nos indignarmos existem aos milhares e todas as violências e injustiças do mundo são inabarcáveis por qualquer mente humana. Nem mesmo para um “profissional da indignação” em tempo integral seria impossível manifestar seu desagrado com todas as arbitrariedades e violências do mundo. Geralmente nos indignamos com situações determinadas, com as quais temos contato. Uma seleção entre tantas situações é sempre inevitável. Nos indignamos e isso é certo, mas não é isso que move o cálculo político de organizações sofisticadas, com agendas e objetivos estratégicos a serem alcançados, como as organizações que efetuam tais ataques. O cálculo leva em conta os efeitos de radicalização de antagonismos e correspondente controle sobre suas respectivas comunidades.

Se após o ataque não surgir um crescimento do sentimento anti-islâmico ou um fortalecimento da extrema direita na Europa, certamente os ideólogos do ataque irão se reunir para rever o que aconteceu de errado… Pois os objetivos eram justamente estes. O controle sobre as comunidades que serão assoladas pela “islamofobia” reverterá em novas fontes de recursos humanos e financeiros para o prosseguimento da ação do grupo. Não tem nada de gratuito, impensado ou movido por paixões simplórias quando projetos de poder estão em jogo. Os soldadinhos tontos que executam as ações, cheios do furor que somente as semânticas carregadas de moral proporcionam, podem até agir motivados por sentimentos vulgares de “indignação”. Os líderes, de barba branquíssima, como no caso em questão, todos intelectualmente sofisticados, sentados atrás de suas mesas… não creio.

Lembro-me de uma passagem de um dos livros do Naipaul, numa visita a um clérigo xiita radical no Irã onde ficou fascinado com a biblioteca e encontrou livros como “Casais Trocados”, do escritor americano John Updike, um livro que não certamente deveria estar ali… Ou seja, nada me espantaria de ver os dirigentes de tais organizações rindo das paródias e sátiras do “Charlie” e depois reunindo seus soldadinhos de chumbo e já de forma séria determinar o ataque…

Arnaldo Bastos S. Neto é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

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