Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Não acredite que não tenha gente que acredita que Bolsonaro evitou a 3ª Guerra Mundial

A viagem de Jair Bolsonaro à Rússia gerou memes em série nas redes sociais, mas há muito mais do que humor em jogo nessa história

Este texto vai usar a viagem presidencial à Rússia e seus perrengues nas redes sociais para falar sobre a falta de noção, não do bolsonarismo, mas sobre a bolha bolsonarista por parte de quem está fora dela.

Começa com uma questão de lógica básica: por que alguém que não só acreditou como também compartilhou que o PT tinha um estoque de kit gay nas escolas e distribuía mamadeiras com bico em formato de pênis para crianças deixaria de avalizar que Jair Bolsonaro (PL) realmente evitou a 3ª Guerra Mundial?

O que não faz sentido é pensar o contrário. No modus operandi, o princípio que maneja essa bolha bolsonarista é semelhante, para não dizer idêntico, ao aplicado pela máquina de guerra ideológica que a equipe de Donald Trump controlava sob a batuta de Steve Bannon, o cérebro das estratégias da extrema-direita em nível mundial.

Bolsonaro viajando para a Rússia e, com isso, salvando a humanidade de um conflito entre superpotências nucleares é uma piada, um meme, para 70% da população brasileira. São aqueles que, segundo as pesquisas, realmente não acreditam no que fala ou faz o presidente da República.

Mas, e os cerca de 30% restantes? Esses ou ficam hesitantes ou, pior, levam a sério esse enunciado. E, para essa fatia de compatriotas, não vai adiantar você ou qualquer outra pessoa avisar que o presidente brasileiro ainda estava dentro do avião, na rota para Moscou, mas nem mesmo em território russo, quando, em meio a toda aquela tensão na Ucrânia, Vladimir Putin aliviou e anunciou um princípio de retirada das tropas da fronteira.

O que vale é que, na terça-feira, 15, o Twitter amanheceu com a jocosa hashtag #BolsonaroEvitouAGuerra. E, tropeçando em piadas de todos os tipos – como a imagem do “mito” carregando Putin de garupa na moto, no lugar de Luciano Hang, o Veio da Havan, naquela fatídica foto-meme –, há também coisa séria a ser observada.

Charge compartilhada por Ricardo Salles como “brincadeira” | Foto: Reprodução

Naquele dia 15, uma postagem particularmente agitou as redes: era o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – pré-candidato a uma vaga no Senado ou na Câmara – publicando uma imagem de um aperto de mãos entre os dois presidentes, com os dizeres “Putin sinaliza recuo na Ucrânia, presidente Bolsonaro evita a 3ª Guerra Mundial”. Detalhe importante: na foto estava a logo da CNN, um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo.

Brincadeira? Não só: bolsonaristas uniram o útil ao agradável, com muito método direcionado. Afinal, o humor é uma ótima estratégia para variados fins, inclusive o marketing político.

Em seu canal no YouTube, o jornalista e chargista Maurício Ricardo tocou no assunto fazendo referência ao que ficou conhecido como “melodrama de Kwai”, um tipo de publicação no aplicativo que é concorrente do Tik Tok, com dancinhas e vídeos curtos. O “melodrama” consiste em jogar nas redes vídeos com um enredo exageradamente comovente, atores com interpretações toscas e uma música tocante ao fundo.

A história é tão melodramática, propositalmente, que o efeito que causa na maioria que lhe assiste é o riso e não a comoção. Uma onda importada da China mas que já faz muito sucesso no Brasil. O vídeo abaixo, apesar de ser do Tik Tok, é um exemplo já clássico desse melodrama, aliás citado pelo youtuber em seu vídeo-comentário:

“Sabe por que isso deu certo na China e está dando certo no Brasil? Porque a camada mais esclarecida da população ri, mas um monte de gente mais ingênua acha a mensagem linda, chora, não enxerga o absurdo da situação. É uma exploração até arrogante da ignorância alheia”, diz Maurício, que ficou mais conhecido por ter colaborado durante 12 anos com suas charges animadas para o Big Brother Brasil.

O problema da massa crítica brasileira é achar que o País se resume a ela mesma. Não, muito longe disso. A estética tosca das mensagens que são compartilhadas aos milhões nas diversas redes e nos aplicativos de conversação dialoga com a simplicidade das pessoas que as recebem, a maioria delas treinadas na fé ardorosa e convivendo com outras pessoas semelhantes a elas. Não precisam de uma arte elaborada, nem de racionalizar o que recebem como informação: simplesmente querem acreditar. E, querendo, acreditam que Bolsonaro é mesmo um messias.

O texto falou de um episódio-limite, envolvendo o insólito de alguém que, para essas pessoas do bolsonarismo profundo, evitou uma guerra simplesmente por empreender uma viagem à região do conflito. Partindo de algo assim como régua demarcatória, fica mais fácil compreender por que tantos ainda desacreditam da vacina crendo na cloroquina.

Uma resposta para “Não acredite que não tenha gente que acredita que Bolsonaro evitou a 3ª Guerra Mundial”

  1. Avatar Hugo disse:

    Tem gente que acredita em gente que acredita que lula é inocente

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