Não acredite que não tenha gente que acredita que Bolsonaro evitou a 3ª Guerra Mundial

20 fevereiro 2022 às 00h00

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A viagem de Jair Bolsonaro à Rússia gerou memes em série nas redes sociais, mas há muito mais do que humor em jogo nessa história
Este texto vai usar a viagem presidencial à Rússia e seus perrengues nas redes sociais para falar sobre a falta de noção, não do bolsonarismo, mas sobre a bolha bolsonarista por parte de quem está fora dela.
Começa com uma questão de lógica básica: por que alguém que não só acreditou como também compartilhou que o PT tinha um estoque de kit gay nas escolas e distribuía mamadeiras com bico em formato de pênis para crianças deixaria de avalizar que Jair Bolsonaro (PL) realmente evitou a 3ª Guerra Mundial?
O que não faz sentido é pensar o contrário. No modus operandi, o princípio que maneja essa bolha bolsonarista é semelhante, para não dizer idêntico, ao aplicado pela máquina de guerra ideológica que a equipe de Donald Trump controlava sob a batuta de Steve Bannon, o cérebro das estratégias da extrema-direita em nível mundial.
Bolsonaro viajando para a Rússia e, com isso, salvando a humanidade de um conflito entre superpotências nucleares é uma piada, um meme, para 70% da população brasileira. São aqueles que, segundo as pesquisas, realmente não acreditam no que fala ou faz o presidente da República.
Mas, e os cerca de 30% restantes? Esses ou ficam hesitantes ou, pior, levam a sério esse enunciado. E, para essa fatia de compatriotas, não vai adiantar você ou qualquer outra pessoa avisar que o presidente brasileiro ainda estava dentro do avião, na rota para Moscou, mas nem mesmo em território russo, quando, em meio a toda aquela tensão na Ucrânia, Vladimir Putin aliviou e anunciou um princípio de retirada das tropas da fronteira.
O que vale é que, na terça-feira, 15, o Twitter amanheceu com a jocosa hashtag #BolsonaroEvitouAGuerra. E, tropeçando em piadas de todos os tipos – como a imagem do “mito” carregando Putin de garupa na moto, no lugar de Luciano Hang, o Veio da Havan, naquela fatídica foto-meme –, há também coisa séria a ser observada.

Naquele dia 15, uma postagem particularmente agitou as redes: era o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – pré-candidato a uma vaga no Senado ou na Câmara – publicando uma imagem de um aperto de mãos entre os dois presidentes, com os dizeres “Putin sinaliza recuo na Ucrânia, presidente Bolsonaro evita a 3ª Guerra Mundial”. Detalhe importante: na foto estava a logo da CNN, um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo.
Brincadeira? Não só: bolsonaristas uniram o útil ao agradável, com muito método direcionado. Afinal, o humor é uma ótima estratégia para variados fins, inclusive o marketing político.
Em seu canal no YouTube, o jornalista e chargista Maurício Ricardo tocou no assunto fazendo referência ao que ficou conhecido como “melodrama de Kwai”, um tipo de publicação no aplicativo que é concorrente do Tik Tok, com dancinhas e vídeos curtos. O “melodrama” consiste em jogar nas redes vídeos com um enredo exageradamente comovente, atores com interpretações toscas e uma música tocante ao fundo.
A história é tão melodramática, propositalmente, que o efeito que causa na maioria que lhe assiste é o riso e não a comoção. Uma onda importada da China mas que já faz muito sucesso no Brasil. O vídeo abaixo, apesar de ser do Tik Tok, é um exemplo já clássico desse melodrama, aliás citado pelo youtuber em seu vídeo-comentário:
https://twitter.com/pedrocertezas/status/1483508068168126467
“Sabe por que isso deu certo na China e está dando certo no Brasil? Porque a camada mais esclarecida da população ri, mas um monte de gente mais ingênua acha a mensagem linda, chora, não enxerga o absurdo da situação. É uma exploração até arrogante da ignorância alheia”, diz Maurício, que ficou mais conhecido por ter colaborado durante 12 anos com suas charges animadas para o Big Brother Brasil.
O problema da massa crítica brasileira é achar que o País se resume a ela mesma. Não, muito longe disso. A estética tosca das mensagens que são compartilhadas aos milhões nas diversas redes e nos aplicativos de conversação dialoga com a simplicidade das pessoas que as recebem, a maioria delas treinadas na fé ardorosa e convivendo com outras pessoas semelhantes a elas. Não precisam de uma arte elaborada, nem de racionalizar o que recebem como informação: simplesmente querem acreditar. E, querendo, acreditam que Bolsonaro é mesmo um messias.
O texto falou de um episódio-limite, envolvendo o insólito de alguém que, para essas pessoas do bolsonarismo profundo, evitou uma guerra simplesmente por empreender uma viagem à região do conflito. Partindo de algo assim como régua demarcatória, fica mais fácil compreender por que tantos ainda desacreditam da vacina crendo na cloroquina.