Euler de França Belém
Euler de França Belém

Mostrar a barriga de Bolsonaro cheia de pontos informa mas é “obsceno”

Para informar bem, a credibilidade de um jornal deriva exclusivamente de uma imagem?

A obscenidade de uma fotografia tem a ver, necessariamente, com sexualidade? Tudo indica que não. Dada a gravidade do fato político — o atentado contra o candidato do PSL a presidente da República, Jair Bolsonaro —, a foto dele internado num hospital com a barriga exposta, com vários pontos cirúrgicos e uma bolsa para coletar fezes, parece justificável. Os jornais, como a “Folha de S. Paulo” — que a escancarou —, podem dizer, com certa razão: trata-se de informação e, sobretudo, não foi feita por nós, e sim divulgada pelo senador Magno Malta (PR). O aliado político do político esfaqueado diz que não fez a foto, mas garante que é verdadeira.

A função de um jornal é informar bem seus leitores. A fotografia revela que Bolsonaro foi ferido gravemente e, portanto, rebate quaisquer fake news espalhadas pelas redes sociais. Mas, para informar bem, a credibilidade de um jornal deriva exclusivamente de uma imagem? O repórter pode descrever o fato e, também, entrevistar os médicos do Hospital Albert Einstein, onde está internado o presidenciável. A fotografia é, para além do informar amplamente, um “adorno”.

O que os jornais pretendem ao publicar a fotografia, decerto obscena? Causar sensação e, principalmente, ganhar audiência. Quem não publicar, afinal, fica sem o “furo” (aspas necessárias) e, portanto, fica para trás. A função de um ombudsman não é a de censor, mas sua missão talvez esteja invertida e tende a se tornar decorativa — sinal de que “somos modernos”, pois temos um procurador do eleitor — ao atuar, aparentemente, apenas a posteriori. No lugar de escrever aos domingos, apontando as falhas da semana, a ombudsman da “Folha de S. Paulo” poderia escrever mini colunas, embaixo de algumas reportagens explicitando sua posição em relação aos fatos. Seria mais produtiva.

A publicação interessa também aos apoiadores de Bolsonaro, como Magno Malta? Tudo indica que sim. Para reforçar que se trata de uma vítima — o que de fato é — da violência que também atinge outros brasileiros. Cria-se uma identificação, uma caracterização de humanidade: gente como a gente.

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