Morte de Walter Benjamin: uma trágica novela policial entre a Espanha e a França

O imprescindível filósofo alemão se matou, há 80 anos, ou realmente aconteceu alguma outra coisa?

Halley Margon,

de Barcelona

Walter Benjamin: filósofo múltiplo | Foto: Reprodução

Ao suicídio do fugitivo W. B.

Bertolt Brecht

Ouço que levantaste a mão contra ti mesmo

Te antecipando ao carniceiro.

Oito anos desterrado, observando a ascensão do inimigo

Por fim, coagido a uma fronteira intransponível

Uma transponível, diz-se, ultrapassaste.

 

Reinos desabam. Os chefes de quadrilha

Avançam como homens de Estado. Não

Se vê mais os povos sob os armamentos.

 

Assim o futuro jaz na escuridão, e as forças do bem

Estão fracas. Tudo isso tu vias

Ao destruíres o torturável corpo.

(Poema de 1941. Retirado do livro “Poesia”, de Bertolt Brecht, 583 páginas, Editora Perspectiva, tradução de André Vallias)

No domingo, 27, faz 80 anos que o filósofo alemão Walter Bendix Schönflies Benjamin — ou apenas Walter Benjamin — se matou, em 1940.

Mais três décadas e teremos alcançado a metade deste século onde a leitura e o pensamento, pelo menos na forma como o entendia Benjamin, será quando muito apenas um resquício do passado ao qual alguns poucos, muito poucos, se remontarão com melancolia. Não, nem os livros, nem a leitura ou o pensamento terão desaparecido, mas estarão restritos àquilo que interessar à indústria e tiver alguma aplicabilidade técnica, for imediatamente útil e afeito aos sistemas econômicos e ou monetários. O que passar disso, bom, talvez venha a interessar a populações pouco maiores que as daquela vila nos Pirineus onde Benjamin, após uma exaustiva caminhada através da montanha, pensou poder passar a noite de 26 de setembro de 1940, antes de prosseguir rumo ao refúgio seguro nos Estados Unidos.

Benjamin foi um dos mais corajosos e originais pensadores do século 20, capaz desvendar a anulação da história e o aviltamento da humanidade que se produzia por detrás do mito do progresso técnico. Um personagem pelo menos fascinante. Judeu e marxista, cujas tradições incorpora e transcende para escrever os textos que encantou e alimentou uma multiplicidade de outros pensadores. Percorreu uma desafiadora enciclopédia de temas que vai do barroco alemão, Paris e Baudelaire, Kafka, o haxixe, o conceito de História, ao famoso estudo sobre a obra de arte na época da reprodutibilidade técnica, além daquele escrito magistral de mais de mil caudalosas páginas (“Passagens”, escrito durante treze anos, entre 1927 e 1940), que segundo o editor das suas obras, Rolf  Tiedemann, se concluído, teria “sido nada menos que uma filosofia material da história do século 19” — num sentido mais geral, uma verdadeira usina de epifanias.

Seria um pecado classificá-lo apenas como filósofo. Seus amigos mais próximos ou colegas da Escola de Frankfurt, como Adorno ou Hokheimer, são filósofos ou sociólogos. Benjamin é outra coisa, pertence a outra espécime. Quase todos se remeteram à sua obra. Michel Lowy, outro judeu e marxista, além de trotskista, escreveu em “Redenção e Utopia — O Judaísmo Libertário na Europa Central” (Perspectiva, 256 páginas, tradução de Paulo Neves) um texto cujo título não poderia ser mais feliz, “Distante de todas as correntes e no cruzamento dos caminhos”.

Todo mundo minimamente interessado em compreender o mundo moderno lê ou leu Benjamin. A verdade é que se qualquer um tentar se aproximar da modernidade e do mundo que a antecedeu sem ter passado por pelo menos algumas das suas iluminações seguramente vai deixar de perceber partes essenciais desse universo — e, o mais importante, daquele que quase à velocidade da luz vai ocupando o seu lugar. Porque a verdade é que poucos pensadores são tão essenciais neste século tão dramaticamente crucial para os rumos da humanidade quanto esse berlinense nascido na última década do século 19, em 1892.

Uma fuga através dos Pirineus

Após sete anos de exílio na França, e numa tentativa desesperada de escapar dos nazistas, que desde junho haviam ocupado o país, Benjamin deixa Paris no começo do outono e cruza clandestinamente os Pirineus para alcançar a península Ibérica. Sua intenção era atravessar a Espanha e embarcar no porto de Lisboa com destino a Nova York. Havia deixado a capital francesa com um visto português obtido pelo Instituto de Pesquisas Sociais (Escola de Frankfurt) que lhe permitia o trânsito através da Espanha e a entrada e a permanência nos Estados Unidos.

Na manhã de um 27 de setembro como o de hoje, em 1940, o dr. Ramón Vila Moreno, da pequeníssima Portbou, a 3,1 quilômetros do posto de fronteira entre a França e a Espanha, assina o atestado de óbito de um homem de 48 anos de idade que na noite anterior havia se hospedado no Hotel de Francia. Era uma quinta-feira, e o dr. Vila tinha compromissos na vizinha Figueres, a pouco mais de 30 quilômetros de distância, a cidade natal de Salvador Dali. Quando nasceu o dia, chamaram o dr. Vila que não titubeou em atestar a causa da morte do desconhecido como “hemorragia cerebral”.

Um bilhete endereçado ao amigo Theodor Adorno e o depoimento do casal de mãe e filho que acompanharam Benjamin na travessia são as únicas provas para a versão que a partir de então se tornou unanimemente aceita para a morte do escritor, o suicídio provocado por uma overdose de morfina. “Numa situação sem saída não me resta outra opção… Será num pequeno povoado onde ninguém me conhece que minha vida chegará ao fim, não me resta tempo para escrever todas as cartas que gostaria de escrever.” Num depoimento, a sra. Gurland diz que, por volta das 7 horas da manhã do dia 27, Benjamin a chamou ao quarto e disse-lhe que “tinha tomado uma grande quantidade de morfina às dez da noite anterior”.

Walter Benjamin: o intelectual alemão morreu com apenas 48 anos e deixou uma obra que reverbera cada vez com mais vigor | Foto: Reprodução

Em 2005, e após quatro anos de investigação, o francês David Mauas questionou essa versão no belo documentário “Quem Matou Walter Benjamin”. Sua tese é simples e de fato inquestionável: não existe uma única prova de que tenha sido suicídio. O que há é o depoimento da sra. Gurland e seu filho, mais nada, garante Mauas.

Em 1940, Portbou era um importante entroncamento ferroviário na Costa Brava espanhola, com uma população de 2.028 pessoas (dados do Instituto Nacional de Estatística da Espanha, INE). Em 2019, com o entroncamento desativado havia anos, a população decairá a 1.075 pessoas (fonte: INE). Devido ao debilitado estado de saúde, os fugitivos tinham atravessado a fronteira pelas vias tortuosas da montanha, durante a noite do dia 25 para 26, a passos muito lentos. Dirigiram-se ao hotel localizado exatamente na frente da importante estação de trens, construída para ser ponto de parada do trajeto que ia de Marselha a Madri. A França está ocupada pelos alemães — no Sul, submetida aos colaboracionistas de Vichy. A Espanha, governada por Francisco Franco. Benjamin “não tinha cidadania francesa e, com os nazistas no poder, não possuía mais passaporte válido alemão” — exatamente por não ter o passaporte francês precisou atravessar a fronteira clandestinamente. O que se passou a partir do momento em que se hospedaram no Hotel de Francia é bastante incerto. A única versão disponível é a da sra. Henny Gurland (depois mulher do psicólogo Erich Fromm) e de seu filho.

Já na Espanha, passado o mais difícil, teriam sido informados que “alguns dias antes fora promulgado um decreto que proibia pessoas sem nacionalidade de viajar pela Espanha”. Três polícias do regime franquista que tinham ordens de devolvê-lo à França na manhã seguinte foram colocados na porta do quarto onde Benjamin estava hospedado. De fato, as opções haviam chegado ao fim.

Na manhã seguinte, imediatamente após a assinatura do atestado de óbito pelo dr. Vila, Benjamin foi enterrado no nicho 563 da zona católica do cemitério de Portbou. Meio século depois, os governos da Catalunha e da Alemanha financiaram a construção do memorial Passajes do artista plástico israelense Dani Karavan a poucos metros da porta do cemitério.

Atração turística

De acordo com um dos moradores da bela cidadezinha, literalmente aprisionada entre o mar, o agora desativado terminal ferroviário e a montanha, cada vez mais turistas se dão conta do crime que inscreveu o pueblo na história e a cada ano é maior o número de visitantes que passem por ali à procura do memorial. Desde Barcelona são mais ou menos 200 quilômetros, depende da estrada. No meio do caminho as praias da Costa Brava. Trinta quilômetros antes, a aprazível e turística Cadaqués, onde o pintor Salvador Dalí construiu um de seus palacetes para desfrutar o verão com a toda poderosa Gala, mas frequentada também por gente de mais quilate, como Picasso, Magritte, Miró, Paul Eluard ou Max Ernst.

Por hora, aparentemente, vão os que por uma ou outra razão se sensibilizam com a tragédia que a história passada ali ilustra. Não passará muito, talvez, e chegará o dia em que se formarão filas para fotografias a título de souvenir de viagem — como as que se fazem com a tela de Da Vinci no Louvre e todas as outras.

Poema da filósofa Hannah Arendt sobre Walter Benjamin

W. B.

O crepúsculo voltará algum dia.

A noite descerá das estrelas.

Repousaremos nossos braços estendidos

Nas proximidades, nas distâncias.

Da escuridão soam suavemente

pequenas melodias arcaicas. Ouvindo,

vamos desapegar-nos,

vamos finalmente romper as fileiras.

Vozes distantes, tristezas próximas.

Essas são as vozes e esses os mortos

a quem enviamos como mensageiros

na frente, para levar-nos à sonolência.

(“W. B.” significa Walter Benjamin. Ao saber que o amigo havia se matado, ao fugir da perseguição nazista, Hannah Arendt transformou seu lamento num poema.)

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