Postagem de ex-colega insinuou que jornalista, asmática crônica, havia morrido em decorrência de ter se vacinado

Maísa Lima foi uma grande jornalista. Como colega de redação no jornal O Popular durante vários anos – embora em editorias diferentes, ela já consolidada na de Cidades e eu um “foca” na de Esporte –, nunca tive dela senão gestos de gentileza e generosidade. Combinava isso com uma personalidade forte e combativa, além de um grande engajamento, profissional e pessoal, nas lutas sociais.

Natural que desenvolvesse, além da atividade de repórter, também a de assessora de sindicatos e movimentos. A Tribuna do Planalto, para onde ela havia retornado à atividade nas redações, em agosto escreveu em sua nota de despedida da colaboradora que Maísa se dizia o próprio “pinto no lixo” de volta à lida.

Na tarde da terça-feira, 9, a jornalista foi encontrada sem vida em seu apartamento. Ela morava sozinha, sofria de crise asmática crônica, passou mal e não resistiu. Tinha 52 anos e era irmã de Bia de Lima, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego). Foi velada em Goiânia e sepultada em Serranópolis, no Sudoeste goiano, terra de seus pais.

Em meio a toda a dor pela perda repentina, o luto da família e dos muitos amigos e amigas que ela deixou foi agredido por uma postagem negacionista da ex-colega Denise Duarte, que trabalhou ao lado de Maísa Lima no Grupo Jaime Câmara, inclusive na mesma editoria.

Usando uma imagem de perfil de rede social em que Maísa coloca na foto um filtro com os dizeres “jacaré vacinado” – uma brincadeira em resposta a uma fala do presidente Jair Bolsonaro sobre o risco de a pessoa virar jacaré ao tomar a vacina da Pfizer –, Denise insinuou, no Twitter, de forma irônica, que a morte da jornalista se deveu ao fato de ter se imunizado.

https://twitter.com/DeniseDuarte/status/1458176765621309440

A reação das pessoas que viram a postagem, entre perplexas, indignadas e furiosas – foi imediata. Muitos tiveram a iniciativa de denunciar o post à administração da rede social, mas nenhuma providência foi tomada.

Em sua bio no Twitter, estampando as bandeiras do Brasil, dos EUA e de Israel, Denise Duarte se diz “mãe, esposa, jornalista, cristã conservadora, pró-Israel, pró-vida. Feliz”. Seu repertório de postagens são um corolário de notas conspiratórias a respeito de basicamente tudo que os membros do alucinado QAnon propagam sobre a própria vacina, os estudos sobre o aquecimento global e as relações internacionais.

Nem é preciso entrar na questão de defender a “liberdade de expressão” para dizer o que pensa, mesmo que não haja qualquer comprovação científica e seguir tal ponto de vista impacte na vida (e na morte) de outras pessoas, sejam poucas (como ocorre em postagens assim), centenas ou milhares (de um real influenciador digital) ou milhões (feitas por um hipotético presidente da República).

A questão, no caso, é apenas de empatia, ou da falta dela: uma colega de profissão morreu sozinha, provavelmente asfixiada após mais uma crise de um problema de saúde crônico; sua família e seus amigos ficaram em choque pela partida súbita; enquanto seu corpo nem estava ainda na sala de velório, tais disparates eram arremessados nas redes sociais. Não há aí qualquer vontade de “alertar desavisados” de acordo com a própria causa, ainda que esta seja negacionista; parece muito mais um prazer em, por meio das elucubrações mais tortas, soltar nas redes um mórbido e sádico “eu avisei!”.