“Procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra [Baleia]. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos.” — Graciliano Ramos

Em 2009, numa tarde calorenta, fomos ao Canil Elizabeth, no Setor Pedro Ludovico, pois queríamos, eu e Candice, olhar filhotes de Schnauzer. Os donos, um homem e uma mulher, nos mostraram alguns filhotes, um deles um belo espécimen preto. Em seguida, chegaram um prata e uma sal e pimenta. O macho era sossegado e a fêmea, espoleta. Decidimos ficar com os dois.

Na nossa casa, desde o primeiro dia, reinou o matriarcado. Frida, esperta e ágil, corria e vasculhava todos os cantos. Agitada, logo mordeu meu nariz, que sangrou levemente. Eu dizia: “Ela tem o olhar de louco”. Na verdade, não tinha. Ela tinha o olhar de bicho esperto, atento às nuances do ambiente e da vida.

Sartoris permaneceu sossegado, com o andar um pouco torto, como se estivesse prestes a cair. Parecia imitar a Frida, seguindo-a, mas ainda meio trôpego.

Frida brincando (e dominando) o gatinho Bola Sete | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Três ou quatro dias depois, Frida começou a subir a escada da casa. Subia uns degraus e voltava. Até que passou a subir e se dirigia, lépida, aos quartos. Aproveitava e fazia xixi pelo caminho; afinal, ninguém é de ferro. A pequerrucha parecia cansada com o esforço? Qual nada! Continuava espoletando.

Adiante, não me lembro se antes, pulou e subiu no sofá. De lá, do alto, ficava nos olhando. De repente, pulava no chão, quase se esborrachando. Em seguida, saía correndo. Sartoris, sempre mais lento porém atento, foi observando as traquinagens da hermana e acabou aprendendo, com certo custo, a subir as escadas e, depois, a empoleirar-se no sofá.

A descoberta do quintal, com grama para escavar ou comer, foi um acontecimento. Ela logo aprendeu a fazer xixi e cocô no quintal

Frida era (e continuou) menor do que Sartoris, porém, por ser mais ativa e corajosa, logo assumiu a chefia da casa. Ante qualquer movimento externo, latia a valer, mostrando-se alerta e, sobretudo, nos avisando de que algo “estranho” estava acontecendo. Invariavelmente, estava. Era o guarda entregando correspondência, o funcionário da Celg-Enel verificando o relógio ou o “homem da dengue” avisando que precisava investigar o quintal.

Candice e Frida: companheiras de leitura | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Frida ficava brava e lutava para evitar a entrada dos “estranhos”, como se estivesse protegendo a si e a seus amigos — talvez, com sua inteligência e esperteza, nos considerasse como seus pais ou irmãos.

O fato é que Frida dava notícia de todos os movimentos internos e externos. Era uma chefinha que, quando via pessoas que conhecia ou não conhecia, se tornava uma chefona braba e corajosa. Latia a valer e, se possível, mordia os pés daqueles que, de algum modo, considerava indesejáveis ou perigosos. Vez ou outra, ela olhava para Sartoris, como se estivesse a verificar se a acompanharia nas estripulias. Ele quase sempre a seguia, com sua calma habitual, e raramente latia.

Entretanto, manso ao extremo, Sartoris mal se movia ou, então, corria para o colo do chegante, pedindo carinho. Frida, desconfiada ao extremo, evitava o contato das pessoas. Tinha um carinho especial por Candice, sobretudo por Candice, por mim e pela Eliane, nossa funcionária. A nós, vistos como pares, permitia carinhos, que passássemos as mãos no seu pelo lustroso ou que a pegássemos no colo. Não gostava, porém, de ser apertada.

João Fidelis, Euler de França Belém e Frida | Foto: Candice Marques de Lima

Quando chegou o momento dos passeios pelo condomínio, bastava a gente pegar a guia e Frida começava a latir, numa festa sem fim. Adorava andar pelas ruas do condomínio, com uma leveza de bailarina. Ao voltar, bebia água e já esperava pela comida.

Passear de carro era uma das diversões prediletas de Frida. Apreciava ficar no colo de Candice, mas, por causa das leis de trânsito, tinha de “viajar” no meu colo. Latia durante o percurso, observava pessoas e outros cachorros. Fazia uma festa infinita.

Quando estávamos chegando em casa, Frida ficava em pé, na porta do automóvel, e latia sem parar. É como se anunciasse: “Estou chegando!”

Quando eu e Candice chegávamos do trabalho, era uma festa só: Frida latia sem parar. Só parava quando a gente fazia carinho em sua cabeça ou a pegava no colo. Estava sempre alegre. Nunca deixou de nos cumprimentar, de maneira efusiva, como se fôssemos Ulisses chegando de uma viagem longa.

Frida e o gato Miguilim: ela era a chefe | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Com o tempo, Frida e Sartoris começaram a dormir no nosso quarto. Os dois tinham camas, mas apreciavam dormir na nossa cama. Mais tarde, Sartoris passou a dormir debaixo da cama. Frida preferia dormir ao lado de Candice ou aos meus pés. Várias noites, tive de dormir com os pés encolhidos, para não incomodá-la.

Desde filhote, Frida era glutona. Comia tudo: ração, bolacha (adorava; a gente dizia que era caviar de cachorro), laranja (adorava), bolo, banana, mamão, maçã, pera, abacate, pipoca — o que aparecesse. Depois, seguindo orientação da veterinária, passou a comer comida caseira, especial, e chegou a emagrecer.

Frida apegou-se a Candice e esta apegou-se à Frida. Amor à primeira vista, fortalecido pelo tempo — inquebrantável. Seguia Candice o tempo. Era uma fiel acompanhante. Se Candice sentava-se no sofá, Frida logo subia e ficava no seu colo, onde, às vezes, dormia, sossegada, e até roncava. Se Candice subia para seu escritório ou para o quarto, Frida a acompanhava, e ficava perto o tempo inteiro. Foi a companhia de Candice por mais de 13 anos. Companheira de todas as horas.

Sartoris e João Fidelis: chefiados pela Frida, que era muito menor | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Quando a gente viajava, Frida era a que parecia ficar mais triste com a nossa ausência.

Quando o labrador João Fidelis chegou à nossa casa, há oito anos, os dois Schnauzers não o receberam muito bem. Sentiram, é provável, o seu território invadido. Sartoris, mesmo cego, tentava morder o bebê amarelo e traquinas. João certamente era incômodo para os dois donos da casa. Frida rosnava e não queria sua aproximação. Aos poucos, Sartoris aceitou João e começaram a brincar. Frida continuava desconfiada, porém, como João aceitou sua chefia, sem reagir, ficou tudo bem.

Quando a gata Filomena chegou (foi adotada, depois de achada numa rua do nosso condomínio, no meio de plantas, miando muito), Frida mais uma vez não reagiu muito bem. Certa vez, a bebê desapareceu e Frida grudou-se numa estante de madeira e não saía de lá. A gente olhava e não via nada. Mas, como o faro de Frida era infalível, decidimos afastar a estante e Filomena estava lá, escondida.

A segunda gata, Josephina Duas Caras, adotada em Brasília, João aceitou bem, pois já estava acostumada com Filomena, e Sartoris não se manifestou. Frida procurou enquadrá-la, como se dissesse: “Sou a dona do pedaço; portanto, siga minhas regras”. Por vezes, levemente irritada, Frida dava uma “corrida” nas duas gatas. Filomena, uma lady, achou tudo normal, ou mais ou menos normal, ainda que, desconfiada, tenha se mantido à parte.

Como Josephina apegou-se a Candice, Frida parece não ter aprovado a nova amizade de sua dona (ou será que Frida se sentia dona de Candice?).

Frida, Candice e João Fidelis: alegria | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Em seguida, mais dois gatinhos foram adotados, Serafim-Dito e Miguilim (bebês de rua que nos foram presenteados pela advogada Maria do Socorro). João e Sartoris não se incomodaram com os novos membros da família. Mas, arteiros e sempre correndo de um lado para outro, às vezes caçando insetos, sempre levaram bronca da Frida. Eventualmente, aceitava que se deitassem ao seu lado. Mas nem sempre concordava e colocava os dois para correr, ameaçando com mordidas (os dentes da frente já haviam caído, mas ela não deixava de ameaçar com dentadas).

Nos últimos tempos, Frida, uma idosa de 13 anos e alguns meses, ficou surda. Ela, que era a primeira a aparecer quando chamava para as refeições (depois que Sartoris comia, vasculhava seu prato), não atendia mais e era preciso ser buscada. Mesmo velhinha (teria 91 anos se fosse uma pessoa?), permanecia ágil, sempre esperando na sala a nossa chegada. Latia e subia na gente. Só se acalmava quando recebia carinho. À noite, como não dava mais conta de subir na cama, ficava em pé, escorada na cama, e pedia para a gente pegá-la. Dormia boa parte da noite com a gente, sossegada.

Frida: a matriarca | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

De repente, nossa Frida, nossa querida Frida, pegou uma virose. A veterinária Luiza Rizzini tratou-a de maneira competente, carinhosa e abnegada. Na madrugada do feriado do dia 24 de outubro, levamos ela, meio desfalecida, para o Hospital Veterinário Pluto, na Avenida 136-Jamel Cecílio. Passou a noite lá. Depois a trouxemos para casa. Porém teve de ser internada novamente, ficando aos cuidados da equipe de veterinários da clínica. Ao visitá-la, Candice conversou com sua filhinha, e até colocou música para ela. Uma vez, Frida levantou-se, certamente ainda reconhecendo Candice, mas não tinha mais energia (o que ela mais teve durante toda a sua vida).

Porém, mesmo bem cuidada, Frida morreu na noite de quarta-feira, dia 26 de outubro de 2022. Os rins e coração não deram mais conta de mantê-la vida. Faria 14 anos em junho do próximo ano. Seu irmão Sartoris, cego há vários anos, parece que está incomodado, sobretudo por não ver sua companheirinha de tantos anos. João, a ver Candice chorando, ficou ao seu lado o tempo inteiro, solidário, aparentemente.

Quando Candice trouxe o corpinho de Frida — a nossa Fridinha — para casa, João examinou o corpo inerte e deitou-se próximo, com olhos inquiridores. Sartoris, talvez sentindo seu cheiro, ficou incomodado. Ele me pareceu incomodado desde que ela foi internada. Os gatinhos permaneceram próximos, desconfiados. Sentiram, por certo, o “cheiro” da morte.

Hoje, nossa casa está triste, muito triste. Porque Frida era um ser especial, que, alegre por toda a vida, nos deu muita alegria. Perdemos a matriarca que, durante toda a sua vida, se mostrou ativa e atenta às coisas do mundo, sempre carinhosa e protetora comigo e Candice.

Quem vai nos esperar, latindo e pulando de maneira intensa, com uma espécie de carinho à for da pele? Quem, no café da manhã e nas demais refeições, vai ficar ao nosso lado pedindo um pedacinho das iguarias dos seres humanos? Quem vai exigir um pedacinho, um gomo que seja, de laranja? Resta seu companheirinho — o João Fidelis, que fará 9 anos em janeiro. Sartoris come suas refeições, sobe a escada e deita-se no quarto onde leio e trabalho. Interage muito pouco com todos nós.