Morte da vereadora Marielle Franco traz ao palco os flanelinhas do luto

Quem usa tragédias para fazer check-in na Esquina da Empatia sem estar verdadeiramente pesaroso com o fato tem pedregulhos na alma

Foto: Divulgação / Facebook

Marcelo Franco

Como era previsível, a morte da vereadora Marielle Franco trouxe-nos os costumeiros fiscais do luto alheio. É preciso se indignar — ou, ao contrário, indignar-se somente com sua morte seria “seletivo”. São os flanelinhas do luto: em vez de “Esterça!”, berram “Deixe cair uma lágrima no olho esquerdo”, “Suspire fundo”, “Escreve textão do tipo ‘Precisamos falar sobre a vereadora morta’”.

Pois acho realmente uma bobagem sem tamanho essas acusações de “indignação seletiva”. De cara, porque fazer check-in na Esquina da Empatia não é “indignar-se”, é apenas bater no peito e berrar “vejam como sou bom”.

Chorar esse tipo de morte muitas vezes é o reverso macabro de postar fotos de bichinhos fofos nas redes sociais: tudo é propaganda. E há outros sentimentos envolvidos; existe quem comemore a morte de “alguém do lado de lá”, existe também quem se empolgue com a morte de “alguém do lado de cá”, pois a criação de mártires serve a evidentes fins políticos (nada disso, registre-se, é exclusivo da direita ou da esquerda: quando morreu o filho do Geraldo Alckmin, os comentários foram do tipo “já vai tarde” e “aqui se faz, aqui se paga”).

Houve mesmo gente que declarou ter chorado noite afora — e disso duvido muito: a vereadora não era exatamente conhecida no Brasil todo, e poucos parecem conhecer suas ideias (eu não a conhecia e, sem cabotinismo, não me considero especialmente mal informado).

Mas é, sim, uma morte emblemática: ela era jovem, política, ativista. É uma tragédia. E justamente por isso é algo emblemático da nossa degradação, morte que deve ser portanto lamentada, analisada, dissecada, punida.

Não somos todos, porém, obrigados a ir além das lamentações, não há dever de luto obrigatório por ela ou pelos absurdos 60.000 mortos anuais.

Em psicologia, aliás, há o que se chama “fadiga da compaixão”: ninguém vive em estado de indignação permanente, berrando contra qualquer ato de corrupção noticiado; do mesmo modo, não vivemos em busca de tragédias para as lamentar todas. A gente sempre lê, por exemplo, trezentos mil posts cobrando tristeza compulsória por atentados que mataram 200 ou 300 pessoas na África. A mensagem subjacente, claro, é de que nos importamos mais com europeus do que com africanos.

Entendam: sim, nos importamos, mas não por valorar vidas de modo desigual e sim por pura proximidade afetiva e histórica, mais profunda no mundo ocidental com a Europa e os Estados Unidos, por motivos óbvios, assim como lamentamos mais a morte de um amigo próximo do que a de um primo distante — fala mais alto a ligação afetiva do que o parentesco. É provável também que sejamos mais próximos afetivamente de africanos que, sei lá, de naturais daquelas ilhas do Pacífico cujos nomes nem sequer lembramos. And so on.

Sim, vidas humanas têm o mesmo valor, ninguém nega isso, mas naturalmente sentimos mais as tragédias “próximas”. E há certa “proximidade” na morte de uma jovem ativista, evidentemente; sofremos essa morte inútil e estranha.

Por outro lado, eu jamais conseguiria imaginar essa turma — à direita e à esquerda, tanto faz — que posta nos boxes de comentários das redes sociais coisas do tipo “tomara que o câncer volte”, “se o filho do governador morreu, bem feito”, “não morreu ainda?”, entre outras pérolas de gente que parece ter sido educada em refinados colégios internos na Suíça, a chorar desbragadamente as dezenas de tragédias diárias.

Creio, contudo, que quem usa tragédias para, repito, fazer check-in na Esquina da Empatia sem estar verdadeiramente pesaroso com o fato é que tem pedregulhos na alma.

Por fim e ao cabo, os parentes de vítimas que não tiveram tanta mídia devem mesmo se indignar (eles, não eu); já a guerra ideológica “meus mortos são melhores do que os seus”, porém, é sinal de que aqueles que anunciam diariamente o fim dos tempos têm sua parcela de razão — que tipo de gente entra em disputas assim? Além disso, é fato — para mim e grande parcela da população — que o pensamento da vereadora morta e do seu partido ajuda a manter a barbárie nossa cotidiana. Há uma luta deles contra a Polícia como instituição, não só contra os maus policiais (ela já disse que tanques — armas — deveriam ser substituídos por canetas, o que é uma besteira gigantesca); há uma pregação geral de que crimes têm apenas causas sociais; há a transformação do meu — do nosso — medo em “racismo” e “rejeição do outro”. É isto. Ou não é isto, sei lá.

Uma resposta para “Morte da vereadora Marielle Franco traz ao palco os flanelinhas do luto”

  1. Avatar Nelson Castro disse:

    Excelentíssimo artigo! Parabéns!

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