Euler de França Belém
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Morre Ronaldo Junqueira, ex-editor do Correio Braziliense e fundador do Jornal da Comunidade

O pesquisador Jarbas Marques ressalta o espírito empreendedor e a capacidade de ser solidário do jornalista

Ronaldo Junqueira: jornalista | Foto: Reprodução

Brasília e Ronaldo Martins Junqueira eram como irmãs — tal a identidade entre a cidade do trio Juscelino Kubitschek, Lucio Costa e Oscar Niemeyer e o jornalista. O homem que dedicou sua vida ao jornalismo — portanto, a divulgar a capital e seus moradores — morreu na segunda-feira, 9, aos 72 anos, na UTI do Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília. Tinha hidrocefalia, problemas na próstata e teve infecção generalizada. O corpo será enterrado na quinta-feira, 12, no Cemitério Campo da Esperança. Dois filhos, Luiz Felipe Junqueira e Bernardo Junqueira, moram no Canadá — por isso o sepultamento na quinta. O jornalista deixa mais dois filhos — Vitória Junqueira e o caçula Felipe Junqueira.

Goiano de Buriti Alegre, Ronaldo Junqueira foi diretor de redação do “Correio Braziliense”, trabalhou no “Jornal do Brasil” (com Carlos Castelo Branco) nas revistas “Quatro Rodas” e “Status” e fundou o “Jornal da Comunidade”, que, distribuído gratuitamente (precursor dos tempos da internet), fez sucesso em Brasília. Ele foi chefe da comunicação do Ministério do Interior, na década de 1970. A Múlti, criada pelo jornalista, foi uma das maiores empresas de lobby do país. Era amigo do banqueiro Mario Garnero.

Ronaldo Junqueira: um empreendedor | Foto: Reprodução

Filho da professora Virgínia Martins Junqueira e de Beltrão Martins, Ronaldo Junqueira foi presidente do grêmio estudantil do colégio Elefante Branco, em 1965. “Aos 15 anos, foi interrogado por um torturador, o major Leopoldino”, conta o jornalista e historiador Jarbas Silva Marques. “Ele escapou de ser preso por duas vezes, em 1965 e 1966. Foi perseguido pela ditadura. O general Sylvio Frota, que foi ministro do Exército no governo do presidente Ernesto Geisel, o arrolou numa lista de ‘77 comunistas’.” O pesquisador conheceu Ronaldo Junqueira em 1963, numa reunião conjunta da UNE e da Ubes. “Era uma reunião da Secretaria de Comunicação e Divulgação (Secodi). Ele era inteligente e tinha mais conhecimento do que a maioria. Lia muito e já tinha uma biblioteca ampla e de qualidade. Ele falava inglês fluentemente, pois havia estudado na Cultura Inglesa.”

Jarbas Marques frisa que, além da competência profissional e da capacidade de criar produtos jornalísticas, “a principal marca de Ronaldo era a capacidade de ser solidário sempre. Quando eu estava preso, ele me enviava livros, o que ajudou a manter a minha sanidade [Jarbas Marques foi barbaramente torturado]. Ao sair da prisão, Ronaldo me dava livros, discos e remédios. Ele me confortou num dos momentos mais difíceis de minha vida”.

Jarbas Silva Marques, historiador e jornalista: “O general Sylvio Frota listou Ronaldo Junqueira como comunista” | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Num encontro de 50 jornalistas veteranos de Brasília, com a presença de Luiz Joca, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, “todos elogiaram Ronaldo. Falaram de sua capacidade de ser solidário e do respeito que tinha, como chefe de redação do ‘Correio Braziliense’, pelas lutas sindicais”, sublinha Jarbas Marques.

Ronaldo Junqueira era, segundo Jarbas Marques, “um jornalista culto e, sobretudo, muito bem informado”. O pesquisador frisa que ele era um “grande empreendedor”. “Ronaldo comprou o jornal ‘Brasília-DF’, de Oliveira Bastos, e depois fundou o ‘Jornal da Comunidade’, que foi um sucesso editorial.”

Nos últimos quatro anos, relata Jarbas Marques, Ronaldo Junqueira “estava muito doente, com hidrocefalia. Mesmo assim, internado numa casa geriátrica, estava lúcido e conversava sobre vários assuntos, com sua precisão e curiosidade habituais. Ele estava pobre, não tinha mais nada, mas mantinha sua dignidade e altivez. Posso defini-lo como um homem bom”.

Por onde passou, Ronaldo Junqueira deixou uma história positiva, sobretudo por sua criatividade e disposição para trabalhar. “Ele fez reportagens no exterior e conhecia bem o Brasil”, assinala Jarbas Marques. “Deixa um legado positivo como homem, jornalista e empresário. Não agradou todo mundo, por certo. Mas gostava de fazer o bem.”

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