Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Pascale Casanova, crítica francesa que valorizou a literatura brasileira

No livro “A República Mundial das Letras”, examina a literatura de Machado de Assis, Mário de Andrade e Guimarães Rosa

A crítica literária francesa Pascale Casanova morreu no sábado, 29, aos 59 anos. Ela é autora do livro “A República Mundial das Letras” (Estação Liberdade, 436 páginas, tradução de Marina Appenzeller), no qual comenta a literatura de Machado de Assis, Mário de Andrade e Guimarães Rosa. Era uma das poucas críticas mundiais que não ficavam circunscritas ao exame da literatura de um único país ou de uma região.

O Institute for World Literature da Universidade Harvard informa que Pascale Casanova estava se tratando de uma doença grave havia dez anos. Mas não mencionou qual era o problema de saúde.

Pascale Casanova sugere, na síntese da “Folha de S. Paulo”, que o “‘nacionalismo literário’ era uma forma de literaturas dominadas lutarem contra a dominação no espaço internacional literário”. No livro citado, frisa o jornal, “a autora descreve o surgimento e desenvolvimento de um espaço literário internacional e autônomo, em oposição à instrumentalização da literatura para a construção de identidades internacionais. Nesse espaço, há relações de poder desiguais entre as diferentes culturas, dependendo de seu ‘capital literário’ — que pode ser medido a partir do número de obras que entraram para o cânone literário mundial. As culturas mais antigas e mais bem estabelecidas, portanto, levam vantagens nessa medida: a francesa, a inglesa, a alemã e a russa”.

A “Folha” relata que, “em seu último trabalho, ‘La Langue mondiale — et domination” (144 págs., Le Seuil, “A Língua Mundial — Tradução e Dominação”), de 2015, Pascale analisa o papel da tradução como uma arma contra a dominação e como uma forma de acumulação simbólica de capital. Antes de se dedicar inteiramente à academia, Pascale foi uma das críticas literárias mais ativas da mídia francesa”.

Trecho de seu livro “A República Mundial das Letras”

“O espaço literário internacional foi criado no século 16, ao mesmo tempo em que se inventava a literatura como ensejo de luta, e ele não cessou de se ampliar e estender desde então: constituíram-se referências, reconhecimentos e, por aí mesmo, rivalidades no momento da emergência e da construção dos Estados europeus. A princípio encerrada em conjuntos regionais herméticos uns aos outros., a literatura tornou-se um desafio comum. A Itália do Renascimento, confiante em sua herança latina, foi a primeira potência literária reconhecida; em seguida a França, no momento da emergência da Plêiade, fez surgir o primeiro esboço literário transnacional, contestando ao mesmo tempo o avanço italiano e a hegemonia latina; a Espanha, a Inglaterra e depois o conjunto dos países europeus, a partir de ‘bens’ e tradições literárias diferentes, entraram aos poucos na competição. Os movimentos nacionalistas que surgiram na Europa Central no decorrer do século 19 favoreceram a manifestação de novas reivindicações ao direito de existência literária. A América do Norte e a América Latina também entraram aos poucos na disputa no decorrer do século 19; enfim, com a descolonização, todos os países até então excluídos da ideia mesma de literatura própria (na África, na Índia, na Ásia…) reivindicaram o acesso à legitimidade e à existência literárias” (páginas 25 e 26).

Mário de Andrade, autor de “Macunaíma” e “Pauliceia Desvairada”

Brasileiros citados no livro

Guimarães Rosa é mencionado, ao lado de William Faulkner, como autor de uma revolução literária. Pascale Casanova menciona Mia Couto: “Os poetas de Moçambique trabalham principalmente para transformar o português. Os poetas mais importantes para nós, moçambicanos, são os brasileiros, porque nos autorizaram, de certa forma, a violentar a língua. São pessoas como Carlos Drummond, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e muitos outros que conseguiram renovar o português”.

Capa de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa | Fotos: Reprodução

Outros brasileiros citados: Castro Alves, José de Alencar, Machado de Assis (sua grandeza é reconhecida), Alberto de Oliveira, Paulo Prado (crítico), Mário de Andrade (um dos mais examinados), Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Antonio Candido (crítico), Murilo Mendes, Joaquim Nabuco, Walnice Nogueira Galvão (crítica), Telê Porto Ancona Lopez (crítica)

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