Euler de França Belém
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Morre o psicanalista Contardo Calligaris

Aos 72 anos, ele estava internado no Hospital Albert Einstein para se tratar de um câncer

Contardo Calligaris: psicnalista italiano radicado no Brasil | Foto: Reprodução

O psicanalista italiano Contardo Calligaris morreu na terça-feira, 30, aos 72 anos. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para tratamento de um câncer.

Contardo Calligaris escrevia na “Folha de S. Paulo”, num português de primeira linha — como se fosse um discípulo de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Apesar da formação intelectual rigorosa, escrevia sem jargões, e com o máximo de clareza. Sabia escrever para jornal — o que é raro em acadêmicos. Seus livros, mesmo de caráter um pouco mais técnico, também primam pela clareza e objetividade.

No domingo, 28, ante os boatos que havia falecido, a família e amigos tiveram de desmenti-los. Mas agora é oficial: o grande psicanalista e intelectual público morreu mesmo. Sua última frase, colhida pelo filho, Max Calligaris, foi: “Espero estar à altura”.

O encanto com o Brasil

Nascido em Milão, na Itália, Contardo Calligaris estudou na Suíça e na França. Foi aluno dos filósofos Roland Barthes e Michel Foucault. Como integrante da Escola Freudiana de Paris, frequentou seminários do psicanalista Jacques Lacan (espécie de Freud da França). O francês se tornou uma de suas referências basilares.

Em Paris, Contardo Calligaris se tornou doutor em Psicologia Clínica. Deixou a cidade em 1989, quando se mudou para o Brasil. Em 1986, esteve no país de Renato Mezan e Joel Birman para lançar o livro “Hipótese Sobre o Fantasma”. O encanto com o país da malemolência — que ele estou a fundo num de seus livros (“Hello, Brasil! E Outros Ensaios: Psicanálise da Estranha Civilização Brasileira”) — pode ter começado aí.

Altamente preparado e homem do mundo, Contardo Calligaris deu aulas nos Estados Unidos. Mas acabou optando por morar, em definitivo, no Brasil.

Intelectual público que fará falta

Na “Folha de S. Paulo”, onde começou a escrever em 1999, ao receber convite de Otavio Frias Filho — que também morreu de câncer —, Contardo Calligaris se tornou um dos colunistas mais lidos e comentados. Criou, em 22 anos, uma legião de leitores e, até, fãs. Não porque dissesse o que as pessoas queriam ouvir, e sim porque escrevia o que elas precisavam ler, não para segui-lo, mas para refletir. Era, por assim dizer, um intelectual heterodoxo e nada dogmático.

Ousado, dono de uma cultura formidável, Contardo Calligaris também escreveu livros de ficção — “Conto de Amor” e “A Mulher de Vermelho e Branco”. O protagonista dos dois livros é Carlo Antonini, um psicanalista. Ficção não era sua praia, mas os livros são bem formulados e dotados de uma arquitetura lógica. E os temas, o tratamento psicanalítico e as agruras humanas, o autor conhecia muito bem.

Contardo Calligaris, psicanalista: um intelectual público que fará falta | Foto: Reprodução

Carlo Antonini, alter ego de Contardo Calligaris — o que não significa que “é” o psicanalista —, conquistou o público na série “Psi”, dirigida por Max Calligaris, exibida em quatro temporadas. Sobre o personagem, disse à “Folha de S. Paulo”: “Ele tem vários lados parecidos comigo. Mas não sei se é comigo ou com qualquer um que realmente tenha um tipo de experiência clínica, que seja um cara que não tem muitas emoções, que dificilmente acha surpreendente qualquer coisa que seja, que tem um olhar para o mundo que não é, mas poderia facilmente ser cínico. É quase um olhar de compaixão e empatia, mas ao mesmo tempo sem sentimentalismo”.

Há algum tempo, Contardo Calligaris esteve em Goiânia para um debate no Cine Lumiére, no shopping Bougainville. Respondeu todas as perguntas com uma paciência infinita.

Contardo Calligaris era um intelectual público dos mais luminosos. Fará falta.

Citado na biografia de Jacques Lacan

Contato Calligaris é citado no livro “Jacques Lacan — Esboço de uma Vida, História de um Sistema de Pensamento” (Companhia das Letras, 538 páginas, tradução de Paulo Neves), da psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco.

A citação ao mais brasileiro dos italianos está na página 419.

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