Sintonizado com Cuba, o militante da esquerda articulou atentado em Recife, em 1966, com o objetivo de matar o ministro da Guerra, Costa e Silva

O ex-padre e ex-guerrilheiro Alípio de Freitas morreu na terça-feira, 13, em Lisboa, aos 88 anos. Ele morava em Portugal e os jornais do país deram ampla repercussão ao falecimento. Ele era jornalista.

Alípio de Freitas nasceu em Bragança, em 1929, e se tornou padre da Igreja Católica em 1952. Em 1957, mudou-se para o Brasil, baseando-se em São Luís, no Maranhão. Deu aulas na universidade e vinculou-se a movimentos sociais e políticos. No Congresso Mundial da Paz, em Moscou, dialogou com líderes soviéticos e conviveu com o poeta chileno Pablo Neruda e com a revolucionária espanhola Dolores Ibárruri Gómez, La Pasionaria. A Igreja Católica pressionou-o, por suas vinculações com a esquerda comunista, e Alípio de Freitas abandonou a vida religiosa.

A se tornar crítico da ditadura, Alípio de Freitas acabou preso. O “Correio da Manhã” apresenta-o como um dos fundadores das Ligas Camponesas, ao lado de Francisco Julião. Depois de morar no México e em Cuba, retornou ao Brasil, clandestino. Ao lado da esquerda armada, organizou e executou atentados e foi preso pelo regime militar por 10 anos.

Alípio de Freitas teria sido o principal articulador do atentado a bomba de Guararapes, no Recife, em 25 de julho de 1966, por meio do qual se pretendia matar o ministro da Guerra, Costa e Silva, depois presidente da República. Mas o general não estava no aeroporto. No livro “A Ditadura Envergonhada” (Intrínseca, 464 páginas), o jornalista Elio Gaspari relata que “morreram no aeroporto um almirante da reserva e um jornalista. O guarda [que encontrou a bomba] teve a perna amputada, e o secretário de Segurança de Pernambuco perdeu quatro dedos da mão esquerda. Treze pessoas ficaram feridas, inclusive uma criança de seis anos”. Os jovens que praticaram o atentado teriam sido articulados pelo ex-padre, homem de Cuba no país. Numa entrevista, ele disse: “Morreu gente, nós lamentamos. Mas era uma guerra, tinha que haver vítimas”.

Ao ser preso, sofreu torturas. Liberado em 1979, mudou-se para Moçambique, em 1981. Mais tarde, na década de 1980, voltou para Portugal e integrou-se, como jornalista, à equipe de profissionais da RTP. Aposentou-se em 1994, aos 65 anos. Em seguida, em 2010, integrou-se ao Conselho Editorial do jornal “A Nova Democracia”.

No livro “Resistir É Preciso — Memória do Tempo da Morte Civil no Brasil” (Record, 279 páginas), Alípio de Freitas menciona o goiano Manuel Porfírio (torturadíssimo no DOI-Codi), filho de José Porfírio. Eles ficaram presos juntos. Na prisão, insistiram com o ex-padre se ele sabia do paradeiro de José Porfírio de Souza e de Aldo Arantes.

Trecho do livro: “A certa altura do interrogatório, quando eu mais rolava pelo chão do que ficava de pé, o capitão Correia Lima parou de dar-me choques elétricos e mandou que me levantasse, encostado a uma parede da sala. Disse que me retirassem um dos eletrodos de um dos pés; em seguida, ordenou-me que o ligasse no pênis. Recusei-me. O capitão Correia Lima gritou que eu tinha de ligá-lo. Calei-me, a expectativa do que iria acontecer. Então um soldado abaixou-se à minha frente e preparou-se para cumprir a ordem. Quando se aproximou, já com o eletrodo na mão, e se abaixava para ligá-lo, somei as poucas forças que tinha a todo o meu ódio e desferi-lhe um pontapé debaixo do queixo que o projetou de costas para o meio da sala. Um grito medonho partiu de todas aqueles gargantas enfurecidas: ‘Ao pau-de-arara, ao pau-de-arara com este filho da puta!'”

Alípio de Freitas deixa uma filha, a cantora brasileira Luanda Cozetti.

Alípio de Freitas foi homenageado pelo cantor português Zeca Afonso com a música “Alípio de Freitas”, do disco “Com as minhas tamanquinhas”. Letra da música:

“Baía de Guanabara/Santa Cruz na fortaleza/Está preso Alípio de Freitas/Homem de grande firmeza/Em maio de mil setenta/Numa casa clandestina/Com companheira e a filha/Caiu nas garras da CIA”.

Ouça a música: