Não se sabe a causa exata da morte, mas diz-se que foi de causas naturais. O ator é o Charon de “John Wick”, o elegante concierge do Hotel Continental

Aposta-se que tu, cinéfilo antenado, não tem tanto apreço pela franquia “John Wick”. É assim mesmo: poucos têm. Mas o fato é que muitos a assistem — inclusive, quem sabe, tu. Pois “John Wick 5” será um filme menor e, até, triste. Sabe por quê?

Lance Reddick, Charon, com Kean Reaves, John Wick | Foto: Divulgação

Porque em “John Wick 5”, que ainda nem foi filmado, mas certamente será, você não verá o ótimo ator Lance Reddick, o Charon da película, concierge do Hotel Continental. Não, ele não é um mero “porteiro” ou “gerente”. Ao lado do chefão, é um dos charmes do hotel e do filme — com sua elegância e discrição. Ele torna o hotel, espécie de “spar” de assassinos profissionais, um local “refinado” (“chique”, melhor). Fala pouco, quase nada pergunta, mas sabe de tudo e está sempre pronto a ajudar, sobretudo o guerreiro John Wick, o Ulisses da porrada e do tiro.

Bem, você não verá Lance Reddick em “John Wick 5” — o que vai tirar um pouco o charme, se charme há, da fita — porque o ator morreu na sexta-feira, 17, aos 60 anos. As publicações internacionais dizem que morreu de causas naturais, possivelmente de infarto.

Lance Reddick emprestou seu talento, que havia, à série “The Wire”, da HBO, e, claro, à franquia “John Wick”.

Uma breve confissão de um não-cinéfilo

Vi todos os filmes da franquia e, por decoro, não deveria confessar. Porém, em nome da verdade, devo dizer: aprecio a desgraceira toda da película, e nem mesmo sei o motivo — se Freud não explica, Lacan, sua teoria, o fará —, porque não há nenhuma arte, apesar do apuro técnico das cenas.

Lance Reddick e Keanu Reeves | Foto: Reprodução

Não deixarei de ver “John Wick 4”, que começa a ser exibido no dia 23 deste mês. Há alguma coisa de “Shane” — vulgo “Os Brutos Também Amam” (nem sei se o personagem central do filme é tão bruto assim) — nos filmes da franquia? É provável que não. Mas eu imagino que sim, quiçá para justificar o fato de ter interesse num filme de violência e escassos história e conteúdo cinematográficos.

“John Wick”, diria Graham Greene, que aprecio, é, nada mais nada menos, do que entretenimento. Mas é bem-feito, acho, e John Wick, interpretado por Keanu Reeves — que não é um ator ruim —, é, de alguma maneira, um indivíduo tão duro e astuto quanto o Ulisses da “Odisseia” de Homero. Por que estou gastando meu “latim” para falar de um filme que não ficará na história, como os de John Ford, Howard Hawks, Ingmar Bergman, William Wyler, Jean-Luc Godard, entre outros? Por nada. Eu só queria mesmo falar de Lance Reddick, um ator de qualidade e de raro charme. Só isso.

Há sempre espaço no nosso cérebro para uma besteirinha catártica, não é mesmo?

Lance Reddick era músico e estudou em Rochester e Yale

Li no “Abc”, jornal da Espanha, que a paixão de Lance Reddick era a música. Na Universidade de Rochester, estudou composição de música erudita e, depois, estudou na Escola de Drama de Yale. Em 2007, o artista lançou o álbum “Contemplations & Remembrances”.