Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Jorge Bastos Moreno, o jornalista que, com seu estilo, reduzia a sisudez de O Globo

Moreno era colunista de “O Globo”, mas, acima de tudo, era um grande repórter. Dsputado pelas fontes, introduziu um pouco do “Pasquim” na sisudez do jornal da família Marinho

O jornalista e escritor Jorge Bastos Moreno morreu aos 63 anos na quarta-feira, 14, em decorrência de um edema agudo de pulmão, decorrente de complicações cardiovascular. Era colunista de “O Globo”. Ele nasceu em Cuiabá e morava no Rio de Janeiro. Trabalhou durante 35 anos em “O Globo”. Entre seus furos está o de que João Figueiredo seria o sucessor do presidente Ernesto Geisel. Um deles. E

Jorge Bastos Moreno era, acima de tudo, um repórter notável. Sua coluna de notas era fonte de informações para repórteres atentos, que poderiam, se quisessem, desdobrá-las. Ele dava furos como se estivessem rezando numa igreja das mais comportadas. Às vezes, alardeava a exclusivamente da informação, mas em geral apresentava novidades como se estivesse falando de coisas amenas e, até, antigas. Mas repórteres corriam para verificar o que estava publicando porque sabiam que ele era, fundamentalmente, o rei dos bastidores. Sua coluna era um maná de informações — portanto, uma fonte — para repórteres.

Por que Jorge Bastos Moreno era o rei dos bastidores? Porque tinha excelentes fontes, que cultivava ao longo dos anos. Há jornalistas que só cultivam quem está no poder. Ele cultivava todos, os que estavam no poder e os que haviam deixado o poder. Às vezes, os que estão fora do poder dão mais informações de qualidade, porque, no lugar de esconder, querem ressaltar o que está acontecendo. Uma curiosidade: Jorge Bastos Moreno era irônico com os políticos, mas era amado por todos, ou pelo menos por quase todos. Sobretudo, todos o liam, e com amplo interesse, para ficarem informados e, por vezes, para se divertirem com sua verve que talvez tenha origem tanto em Oswald de Andrade quanto em “O Pasquim”.

Na ditadura e no processo de redemocratização, a grande fonte de informação de Jorge Bastos Moreno era Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas. Os dois se davam muito bem e, por isso, o Doutor Ulysses passava-lhe informações exclusivas. Depois, o jornalista conquistou outra fonte de alta qualidade, Teotônio Vilela. Consta que Ulysses Guimarães teria ficado enciumado, pois avaliara, errado, que Teotônio Vilela estava lhe roubando o repórter que, embora atendendo-o, publicava só informações verdadeiras. Jorge Bastos Moreno era um jornalista do primeiro time. Um repórter, em suma.

Mas há um aspecto do jornalismo de Jorge Bastos Moreno que difere do jornalismo insosso — “altamente objetivo” (sem adjetivos e advérbios — o que resseca a cor, a liberdade e a vivacidade da Língua Portuguesa, que não funciona só com substantivos e verbos, como acreditam jornalistas acadêmicos) — que se faz hoje no Brasil. Trata-se do estilo e o estilo, como se sabe, é o homem, faz o homem, sugeriu um francês. Pois bem: Jorge Bastos Moreno tinha estilo. Ele escrevia com graça, com a fluência dos prosadores de primeira linha, como Machado de Assis. Era irônico, malicioso, mas não maldoso.

Pode-se dizer que Jorge Bastos Moreno inventou uma espécie de “Pasquim” no sisudo “O Globo”.

 

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