As capas mais bonitas dos discos brasileiros foram feitas por Elifas Andreato. Um de seus cartazes foi elogiado pelo dramaturgo Arthur Miller

Elifas Andreato: um gigante do design brasileiro | Foto: Reprodução

Sabe Pelé e Di Cavalcanti? Pois Elifas Andreato era o Pelé e o Di Cavalcanti do design gráfico e da ilustração do Brasil. Era? Sim, ele morreu na terça-feira, 29, aos 76 anos. Depois de um infarto, o grande criador de capas de discos — que são verdadeiros quadros — havia sido internado num hospital. Ele nasceu em Rolândia, no Paraná, em 22 de janeiro de 1946, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Elias Andreato comunicou a morte de Elifas Andreato usando “um desenho do irmão que retrata a bandeira do Brasil dentro de uma lágrima”. Disse Elias: “Adeus meu irmão amado. Meu irmão mais velho, desde pequenino, rabiscava seus sonhos e ia mudando o nosso destino. Tudo o que ele tocava com as suas mãos virava coisa colorida, até a dor que ele sentia era motivo de tinta que sorria. Sua travessura era zombar da pobreza e de toda a tristeza que ele via. Se o quarto era apertado, ele criava castelos longínquos. Se a fome era tamanha, ele pintava frutos madurinhos” (leia o texto completo abaixo).

Depois de trabalhar numa fábrica de fósforo, em São Paulo, Elifas Andreato passou a pintar murais e a fazer caricaturas. Depois de estagiar numa agência de publicidade, foi contratado pela Editora Abril, onde, em 1970, organizou a parte gráfica dos fascículos “História da Música Popular Brasileira” (discos de Noel Rosa, Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues, Lamartine Babo), que fez um sucesso extraordinário. As capas, muito bem elaboradas, chamaram a atenção do público e dos artistas. Estes passaram a convocá-lo para fazer as capas de seus discos. Consta que as capas eram tão boas quanto as músicas.

Elias Andreato confeccionou mais de 300 capas de discos. Entre os que foram agraciados com sua arte estão Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Elis Regina, Martinho da Silva, Paulinho da Viola, Toquinho, Vinicius de Morais, entre outros.

Criador inquieto e versátil, Elias Andreato não fez apenas capas de discos. Ele também fez capas para livros, como “A Legião Estrangeira”, de Clarice Lispector, a ucraciana-brasileira. E trabalhou para a revista “Argumento”.

O “Estadão” assinala que Elias Andreato elaborou cartazes, que, a rigor, são quadros, para o teatro. Os cartazes de “Calabar”, de Chico Buarque e Ruy Guerra” e “A Morte do Caixeiro Viajante” (de Arthur Miller), dirigida por Flávio Rangel, são belíssimos. O jornal paulista relata que o próprio dramaturgo americano Arthur Miller, que foi casado com a atriz Marilyn Monroe, apreciou o cartaz. Ele é o autor do cenário do musical “Morte e Vida Severina”, que vai estrear, no Tuca, em 16 de abril.

O livro “Traços e Cores” é uma coletânea com mil criações de Elifas Andreato (ele criou 5 mil artes).

Elias Andreato: o artista brasileiro que ganhou um elogio de Arthur Miller | Foto: Reprodução
Texto do irmão Elias Andreato

Meu irmão mais velho, desde pequenino, rabiscava seus sonhos e ia mudando o nosso destino.

Tudo o que ele tocava com as suas mãos, virava coisa colorida, até a dor que ele sentia era motivo de tinta que sorria.

Sua travessura era zombar da pobreza e de toda a tristeza que ele via.

Se o quarto era apertado, ele criava castelos longínquos.

Se a fome era tamanha, ele pintava frutos madurinhos.

E eu que também era pequenino, ficava ao seu lado, tentando entender o que ele tinha de especial, dado pelos deuses, que habitavam o nosso pequeno quintal.

Um dia… Que eu estava distraído ao pé da cama, tentando pensar numa prece, para pedir que ele fosse feliz, um anjo pousou no terreiro e me disse que o meu irmão mais velho, tinha sido escolhido, para colorir o mundo cinza em que vivíamos.

Eu me lembro de que fiquei mudo, como convém aos mortais, diante de qualquer aparição divina… Fiquei ali olhando para o céu, completamente agradecido, por ser seu irmão, e me senti protegido, por toda a beleza e foi assim que entendi o papel do artista que ele era.

O meu irmão criador de tantas maravilhas era também um anjo desenhador, que veio a este mundo para colorir nossas vidas e pintar nossos sonhos de amor.

Voltei ao pé da cama e estou até hoje, de joelhos, rezando para os deuses protegerem meu irmão, para que a sua criação sirva de inspiração para os homens pensarem na beleza!

E quando os homens forem amigos dos homens, vou saber que o meu irmão não sonhou em vão.

Que o país que ele imaginou, possa ser colorido para todos!

Que a política do seu traço, seja homenageada SEMPRE!

Meu irmão, você retratou o que o nosso povo tem de mais belo:

A DIGNIDADE!

Irmão meu amado, você coloriu meu coração.

Elias