Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Claude Lanzmann, diretor de “Shoah” e amante de Simone de Beauvoir

O francês foi secretário de Sartre, dirigiu o talvez mais amplo documentário sobre o Holocausto e criticou duramente Oscar Niemeyer

Claude Lanzmann morre aos 92 anos, em Paris

Claude Lanzmann não era Sartre (foi seu secretário), não era Camus, não era Aron, não era Ponty, não era Beauvoir e tampouco Godard. Mas era uma personalidade que, tipicamente francesa, provocava polêmica. Tornou-se mais conhecido devido ao documentário “Shoah”. O filme sobre Holocausto tem mais de nove horas de duração. Nos últimos anos, especialmente depois da publicação de suas memórias (“A Lebre da Patagônia”), voltou à baila, menos pela qualidade “literária”, e sim pela revelação de seu caso com Simone de Beauvoir (ele era 17 anos mais novo), a escritora e companheira do filósofo Jean-Paul Sartre. Na quinta-feira, 7, ele morreu em Paris, aos 92 anos.

Claude Lanzmann, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir: companheiros de geração

O porta-voz da Editora Gallimard relata que Claude Lanzmann estava doente, sobretudo fragilizado pela velhice—que, no dizer de Philip Roth, é um massacre.

Yale, um das mais importantes universidades dos Estados Unidos, adquiriu as 112 cartas de amor enviadas por Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann. Ele disse que as missivas retratam um “amor louco”.

Opinião de Claude Lanzmann sobre Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro criticado pelo documentarista e escritor francês Claude Lanzmann

Leia dois trechos de uma entrevista de Claude Lanzmann a Leneide Duarte-Plon, publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24 de fevereiro de 2011.

Folha — Com que estado de espírito vai conhecer o Brasil ? Claude Lanzmann – Já conheço o Rio, onde fui em 1985 ou 1986 para o festival de cinema organizado por um francês, Jean Gabriel Albicocco [na ocasião, Lanzmann exibiu “Shoah”].

Todo mundo ficava hospedado no mesmo hotel e um acordo tinha sido feito com a favela vizinha para que não houvesse violência. O hotel era um prédio tipo torre, de Niemeyer, que é um criminoso. Ele ainda está vivo? Tem 103 anos? É um criminoso. Um arranha-céu circular é totalmente idiota, um absurdo.

Folha — Por que o sr. diz que Niemeyer é criminoso?

Nesse arranha-céu onde o festival se desenrolava, esperávamos 45 minutos de fila para descer ou subir. Esse é o crime do arquiteto. O círculo serve para quê? As pessoas fazem os prisioneiros andarem em círculos nas prisões cortando assim qualquer projeto, qualquer futuro, é isso o círculo. Os arquitetos que constroem prédios circulares são idiotas. Não tenho nenhum respeito por Oscar Niemeyer. Ele construiu Brasília também? Pior para Brasília.

Folha — O que tem contra ele?

Não se constrói em círculo. Mas era a primeira vez que eu via o Atlântico Sul. Havia ondas enormes. Depois, dormi na praia e fui assaltado por um menino que correu e eu não consegui agarrar. No pouco tempo que passei no Rio, vi mulheres terem os colares arrancados do pescoço. O Rio é uma cidade que me pareceu extremamente perigosa. O meu filme, “Shoah”, foi legendado às pressas e teve problema de tradução, os brasileiros fazem tudo na última hora.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.