Euler de França Belém
Euler de França Belém

Modernistas foram “cancelados” pela Semana de Arte Moderna e pela crítica

Pesquisadores sugerem que se fale em múltiplos modernismos. Por que não mencionar João Simões Lopes Neto, Tyrteu Rocha e Theodoro José da Silva Braga?

Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa: modernistas?| Fotos: Reproduções

A Semana de Arte Moderna “gerou” os principais escritores do país? É provável que não. Antes dela, havia um “modernista”, digamos assim, em ação, e muito diferente dos demais prosadores de seu tempo. Trata-se de Machado de Assis, que, de alguma maneira, reinventou a literatura brasileira com um romance, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e mais duas obras coadjuvantes de fôlego — “Quincas Borba” e “Dom Casmurro”.

Depois de 1922, surgiram dois autores que renovaram a linguagem como poucos, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Carlos Drummond de Andrade: poeta de Minas Gerais | Foto: Reprodução

Há quem postule que o criador de “Vidas Secas” é antimodernista. Talvez não seja. O mais provável é que, dono de um percurso próprio, não quis aderir às modas. Mas seu estilo seco e conciso, avesso à choradeira “social” do realismo socialista (de um Jorge Amado, por exemplo), é inteiramente moderno.

O autor de “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas” atualiza a literatura brasileira, o dito regionalismo, aproximando-a das “invenções” de James Joyce e de William Faulkner. De alguma maneira, com sua literatura que inclui as prosas do irlandês e do americano, sem desconsiderar a tradição literária, como o alemão Goethe, Guimarães Rosa “colocou” o Brasil no século 20. Há acadêmicos, como Willi Bolle, que chegam a indicar que deve ser colocado — por conectar o sertão (o arcaico que não morre, está sempre presente) aos, digamos, tempos modernos por meio de uma linguagem inventiva — entre os pensadores do Brasil moderno.

João Cabral de Melo Neto: um renovador | Foto: Walter Firmo/AE

Vale salientar que Graciliano Ramos era nordestino, de Quebrangulo, em Alagoas, e Guimarães Rosa era mineiro, de Cordisburgo. Não eram nem paulistas nem cariocas. É possível acrescentar que Clarice Lispector, ucraniana que morou no Nordeste, é outra escritora renovadora — hoje “idolatrada”, o que às vezes turva o debate mais sério sobre sua obra notável.

Na poesia, a mais notável revolução foi perpetrada pelo mineiro Carlos Drummond de Andrade e pelo pernambucano João Cabral de Melo Neto. Ambos são filhos do modernismo de 1922. Mas são rebentos rebeldes, no sentido de que avançaram em relação à poesia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade (dos bardos da Semana de Arte Moderna o preferido dos poetas concretos), Menotti del Picchia e Raul Bopp, entre outros. Drummond de Andrade e João Cabral, que se atraíram e se estranharam, deixaram os velhos mestres para trás.

O cancelamento modernista

Augusto Meyer: “apagamento” | Foto: Reprodução

Mas há um outro debate, e dos mais saudáveis. A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, “apagou” ou “cancelou” outros modernismos no país. O viés paulistocêntrico encobre outras “evoluções”. Nota-se, na imprensa e em livros, que o jornalista e pesquisador Ruy Castro tenta substituir o paulistocentrismo pelo cariocacentrismo. Mas pelo menos valoriza autores propositadamente “esquecidos”.

Um dos críticos do paulistocrentrismo é o gaúcho Luís Augusto Fischer, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O poeta e crítico Mário de Andrade, o “deus” da Semana de Arte Moderna — Oswald de Andrade é o “vice-deus” (incensado pelos concretistas, tende a tomar o lugar do “outro” Andrade) —, postulou que Augusto Meyer é “um dos maiores líricos do Brasil contemporâneo”, colocando-o ao lado de Manuel Bandeira e Drummond de Andrade. Pois, se Meyer é isto tudo, por que foi “retirado” do cânone literário modernista? A reportagem “Simbolistas, regionalistas e apocalípticos: nem só de São Paulo vivia o modernismo brasileiro” (“O Globo”, edição de 5 de fevereiro), de Ruan de Sousa Gabriel, ressalta que a poesia de Meyer “está há décadas fora de catálogo”.

João Simões Lopes Neto: por que pré-modernista? | Foto: Reprodução

Luís Augusto Fischer sublinha que “o escanteio de Meyer é obra da historiografia paulistocêntrica que mitificou a Semana de 22 e contribuiu para a crença de que no Sul houve, no máximo, um ‘modernismo fraco’” (o trecho entre aspas é uma síntese do pensamento do professor gaúcho feita pelo “Globo”). Meyer, no registro de Ruan de Sousa, já notara que o gaúcho João Simões Lopes Neto (1865-1916) havia associado a dicção moderna a temas populares — antecipando-se aos paulistas. Porém, assim como Lima Barreto (que disse: “de vez em quando” São Paulo “nos manda umas novidades velhas de quarenta anos”) e João do Rio, é relegado ao rótulo de “pré-modernista”.

No livro “Literatura Gaúcha — História, Formação e Atualidade”, Luís Augusto Fischer, citado pelo “Globo”, assinala “que, nos anos 1920, os poetas do Rio Grande do Sul estavam afastados do parnasianismo, inimigo número um dos paulistas, havia pelo menos uma década. A região era farta de poetas simbolistas, muitos dos quais abraçaram o modernismo, como Felipe d’Oliveira e Ernani Fornari” (1899-1964).

Ernani Fornari: poeta

“Macunaíma”, de Mário de Andrade, e o “Manifesto Antropofágico” saíram em 1928, provocando estardalhaço. Pois, no mesmo ano, Ernani Fornari lança o livro “Trem da Serra”. Luís Augusto Fischer considera que sua ausência do cânone modernista é “injustificável”. “O Globo” relata que a obra “retrata uma viagem de trem de Porto Alegre à serra gaúcha. Cada poema é uma estação”. No seu livro, o mestre da UFRGS sublinha que “as cenas são registradas com a consciência de que a janela do trem é como uma fotografia, ou um fotograma de filme. Quer mais moderno?”

Trecho da poética de Fornari: “Do meu cinema ambulante,/ Fico olhando para a ‘tela’ Pathé-Baby da vidraça,/ Onde a paisagem dispara, assustada, para trás”.

Tyrteu Rocha Vianna

Os poetas Athos Damasceno Ferreira, Teodomiro Tostes e Tyrteu Rocha Vianna, fora de catálogo, também “incorporaram à poesia a linguagem coloquial e temas como a urbanização e a vida rural”.

“Quando eu apresento esses poetas no curso de Letras, os alunos ficam fascinados. Tínhamos que ler Fornari e Tyrteu no colégio, junto com Oswald de Andrade e Mário de Andrade, que, aliás, é um poeta secundário, elementar”, afirma Luís Augusto Fischer.

[Por que poetas como Heleno Godoy (goiano) — que já teve a poesia examinada pelo crítico e teórico Luiz Costa Lima —, Yêda Schmaltz (goiana-pernambucana, falecida) e Valdivino Braz (goiano) não entram no cânone brasileiro? Os três, que dialogaram com a poesia moderna — Godoy é doutor em literatura pela USP, com uma tese sobre escritores irlandeses —, são esquecidos dos livros sobre literatura publicadas no país (como a clássica história de Alfredo Bosi). Leo Lynce é modernista? Vale examinar sua poesia. O prosador Edival Lourenço — assim como, antes dele, Bernardo Élis — precisa ser examinado com rigor e distanciamento pela crítica nacional. Trata-se de um romancista notável, que também escreve poesia de qualidade; no entanto, é solenemente olvidado fora de Goiás — onde críticos, quase todos amigos, não esmiuçam a fundo sua literatura. Como se sabe, nenhum autor avança recebendo apenas elogios. Doutor em história, Ademir Luiz escreve uma prosa de primeira linha, às vezes com recaídas derivadas de certo exibicionismo literário. Porém, o que parece “relaxo” e “excesso” (falta de síntese) em sua prosa, moderníssima, é “estilo” — imbricamento entre conteúdo e forma. Luís Augusto Fischer, o excelente crítico, conhece as publicações de Leo Lynce, Hugo de Carvalho Ramos (mais conhecido, é claro) Heleno Godoy, Yêda Schmaltz, Valdivino Braz, Edival Lourenço, Pio Vargas e Ademir Luiz? Possivelmente, não. Não está na hora de colocar ou repor no cânone o poeta Afonso Félix de Sousa? Evidentemente, os citados não são contemporâneos da Semana de Arte Moderna.]

Modernismo no Nordeste

Theodoro José da Silva Braga

A revista “Pesquisa Fapesp”, publicou um texto de Christina Queiroz, que merece repercussão. Uma das entrevistadas, Ana Magalhães, historiadora da arte, afirma: “Conceber a Semana de 1922 como marco inicial do modernismo é uma ideia que não se sustenta atualmente”. A pesquisadora sugere que, no lugar de “um” modernismo, deve se falar em “múltiplos modernismos”— “que se manifestaram por intermédio de revistas, grupos literários e eventos artísticos”.

Ouvido por Christina Queiroz, o historiador Aldrin Moura de Figueiredo, professor da Universidade Federal do Pará, diz que “obras centrais do modernismo foram publicadas depois que autores como Mário de Andrade, o fluminense Ronald de Carvalho (1893-1935) e o gaúcho Raul Boff (1898-1984) visitaram a região. Em relação aos paulistas, Figueiredo considera que eles viam a Amazônia como um ‘almoxarifado de lendas, mitos e crenças’”.

Aldrin Moura diz que “a Amazônia fornecia matéria-prima, porém não obras poéticas e artistas porque se concebia a região como uma terra à margem da história, um território não civilizado que precisava ser desbravado”.

Luís da Câmara Cascudo: poeta “bloqueado” por Mário de Andrade | Foto: Reprodução

Um dos artistas “esquecidos” é Theodoro José da Silva Braga (1872-1953), de Belém. “Braga foi um dos criadores do movimento Neomarajoara, que dialogava com a arte indígena, mas não com a estética de vanguardas europeias. Nos últimos anos, por conta de releituras feitas sobre o movimento modernista no Brasil, sua obra passou a ser vista como moderna e, atualmente, está em franco processo de valorização”, anota Aldrin Moura.

Segundo Aldrin Moura, o pintor Ismael Nery (1900-1934), de Belém, “é outro artista que evidencia a importância do contexto amazônico no desenvolvimento do modernismo. ‘Em livro autobiográfico, Nery afirma que guardou uma memória olfativa da Amazônia e que isso interferia em seu pensamento artístico’”. O pesquisador avalia que o gravurista Oswaldo Goeldi (1895-1961) deve ser visto como um par da paulista Tarsila do Amaral e do fluminense Di Cavalcanti.

O pesquisador Humberto Hermenegildo de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, relata que o historiador, etnógrafo e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) deu a primeira notícia sobre a Semana de Arte Moderna, em 1924, no jornal “A Imprensa”.

Jorge Fernandes: poeta do Rio Grande do Norte | Foto: Reprodução

Câmara Cascudo foi a ponte dos intelectuais e escritores nordestinos com os paulistas. Em 1928, o potiguar recebeu Mário de Andrade em Natal. O autor de “Pauliceia Desvariada” e “Macunaíma” ficou um mês em sua casa. O escritor paulista frequentou terreiros de catimbó e tiradores de coco.

Poeta, Câmara Cascudo submeteu sua arte à avaliação do rigoroso (e tradicionalista, apesar de moderno) Mário de Andrade. O mestre paulista avaliou sua poesia negativamente. Certamente constrangido, o bardo nordestino disse que desistiu de ser poeta e jogou os manuscritos no “inferno de sua biblioteca”. Numa tese de doutorado, Dácio Tavares de Freitas Galvão recuperou os poemas.

Na década de 1920, em Natal, escritores, modernistas, se reuniam no Café Majestic, do poeta Jorge Fernandes (1887-1953). “Em certa ocasião, Manuel Bandeira participou de um evento no local, tomou cachaça com caju, subiu em um tamborete e declamou um poema. O Café Majestic materializava o desejo modernista de romper com o ambiente academicista e exaltar a cultura popular”, afirma Humberto Araújo.

Luís Augusto Fischer: crítico literário e professor universitário gaúcho amplia o leque de autores modernistas e inclui a canção como literatura | Foto: Reprodução

Em 1927, saiu o livro “Poemas de Jorge Fernandes”, “editado em formato de caderno, provavelmente inspirado no título, do mesmo ano, do ‘Primeiro Caderno do Aluno de Poesia’, de Oswald de Andrade. ‘Há um exemplar da obra de Fernandes no IEB com uma dedicatória, onde se lê: ‘Ao meu grande Mário o meu livro todo errado’”, assinala Humberto Araújo. Christina Queiroz escreveu que “Araújo identificou a existência de fatos históricos e iniciativas que precederam a Semana de Arte Moderna no Rio Grande do Norte. O Futurismo (…) foi noticiado em Natal concomitantemente ao seu aparecimento na Itália”.

Com os “novos” modernismos, identificados e explicitados, a literatura fica mais democrática e mais brasileira — e, claro, menos paulista. Pode-se falar que, graças ao trabalho de vários pesquisadores, como Luís Augusto Fischer, a literatura patropi está se tornando mais, digamos, “inclusiva”. As canções — por exemplo, de Chico Buarque e Caetano Veloso, dois mestres da Língua Portuguesa — também podem e devem ser consideradas como literatura. Antes não se aceitava, mas quem, hoje, pode discordar de que os dois, mais Gilberto Gil e Milton Nascimento, são poetas de primeira linha?

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