Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Moda “react” traz à cena o “debate forçado” entre candidatos

Nova mania nas plataformas de vídeos traz uma linguagem adequada para o eleitorado jovem e pode mudar estratégias de campanha

Ciro Gomes reage à participação de Sergio Moro no podcast “Flow” | Foto: Reprodução

Esqueça aquele modelo de debates em que o favorito nas pesquisas eleitorais se preserva de desgastes e se dá ao luxo de não comparecer.

Os novos tempos fazem o debate acontecer, independentemente do querer de uma das partes. Isso se deve principalmente à nova mania nas redes sociais: o react, modalidade de vídeos em que alguém – geralmente o dono do canal – comenta outros vídeos sobre determinados temas.

Entre os mais famosos nesse novo subgênero midiático estão Felipe Neto e Casimiro Miguel, que chegam a ter, em suas lives, centenas de milhares de internautas conectados. Casimiro, em 24 de janeiro, bateu o recorde da plataforma Twitch, ao fazer um react sobre a pré-estreia do documentário Neymar: o Caos Perfeito, produção da Netflix, com mais de 540 mil internautas assistindo simultaneamente.

A live foi no mesmo horário de outro evento atrativo, mas que acabou derrotado na audiência: a dupla Igor e Monark, do podcast Flow, recebia no YouTube o pré-candidato a presidente Sergio Moro (Podemos), em uma das apostas do ex-juiz para fazer deslanchar sua candidatura.

Por conta da concorrência, o encontro não rendeu o esperado para Moro no dia e deu muita dor de cabeça para ele dias depois: é que seu principal rival na disputa pela liderança da terceira via – termo nada a ver com convergências ideológicas, mas apenas com o nome que poderá tirar um eventual segundo turno da dupla Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) usou o conteúdo do podcast como “escada” para refutar as posições do entrevistado por mais de 20 minutos. Melhor: sem ter de sofrer a réplica de seu alvo.

Ciro Gomes (PDT) foi o autor do react, naquela que foi certamente a estratégia mais acertada de sua pré-campanha até o momento. O pedetista já havia desafiado várias vezes o ex-ministro da Justiça para um tête-à-tête: em programas virtuais de entrevistas, como o My News, e também em seu perfil no Twitter. Também ao My News, Moro respondeu, à época, sobre o debate proposto pelo rival:

“O Ciro, primeiro, precisa largar essa postura ofensiva e agressiva para dialogar. Se for entrar em diálogo com alguém que começa ofendendo, como ele tem feito, daí não é debate, não agrega em nada.”

Com o react, Ciro expôs o adversário, carimbando-o com a pecha de despreparado. Se isso vai lhe render algo eleitoralmente, é difícil dizer por enquanto: ambos patinam abaixo de 10% nas intenções de voto de praticamente todas as pesquisas, ou empatados ou com Moro um pouco à frente.

A questão é que, na disputa pelo eleitorado jovem, Ciro ganhou, no mínimo, muito mais visibilidade do que o adversário. De fato, Moro ainda se mostra pouco à vontade para debater, não apenas com outros pré-candidatos, mas com qualquer mesa de sabatinadores.

O horário eleitoral, tão disputado pelos partidos e seus nomes para as eleições majoritárias, ainda faz muita diferença. Mas a eleição de 2018 mostrou que ele é cada vez menos fundamental para a vitória de uma candidatura. A repercussão nas redes sociais e a penetração na capilaridade dos aplicativos de conversação, principalmente o WhatsApp, promete fazer toda a diferença.

Nesse sentido, ter um vídeo no modo react bem editado pode ser uma boa oportunidade de viralizar. É uma das poucas apostas que Ciro, Moro, João Doria (PSDB) e outros menos cotados têm, para colocar à mesa e reverter o quadro de polarização que existe no atual momento.

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