Anderson Alcântara

O futebol mundial surgiu na minha vida quando eu era um guri de dez anos. 1990. Copa do Mundo na Itália. Lembro-me bem da coleção de figurinhas com as bandeiras dos países participantes do Mundial que vinham no interior dos pacotes de bolacha Mabel. Recordo-me de ter concluído a coleção, equilibrando dois amores que eu carregaria para o resto da vida: futebol e geografia. Aprendi ao mesmo tempo que a Argentina era bicampeã do mundo e tinha a bandeira em branco e azul celeste, na horizontal, com um sol imponente ao centro. A Itália não era apenas a esquadra azurra tricampeã da Copa e anfitriã do certame da época. Apareceu no meu mapa mental nas cores verde, branca e vermelha, com três blocos de igual tamanho, com fronteiras na vertical, à moda da bandeira da França (azul, branca e vermelha) e com uma semelhança brutal com a mexicana.

Creio que foi nessa mesma época, talvez meses antes ou meses depois, que o sabão em pó Omo lançou suas caixas com informações sobre todas as copas. Na frente continham as informações preciosas que toda dona de casa deveria saber, sobre as vantagens do referido produto e seu poder de curar todas as sujeiras do mundo que se lançassem sobre um tecido. No verso estava o meu tesouro: um painel que me dizia que a Copa do Mundo de 1954 foi realizada na Suíça, vencida pela Alemanha Ocidental, com a Hungria ficando em segundo lugar. Está certo que o sabão em pó não me falou nada sobre magia, sobre capricho dos deuses do futebol. Essa informação tive muitos anos depois, já adulto, ao assistir o maravilhoso filme “O Milagre de Berna”. Na obra é evocada a epopeia da seleção germânica ao fazer o impossível se tornar carne.

A Hungria era um monstro intransponível, inexpugnável, com sua legião de combatentes, liderada por Puskas, o Pelé da época. A Hungria não se contentava em não massacrar todos os seus opositores. Não era um time humilde e solidário. Só para ilustrar a carnificina húngara, informo que ela bateu a Coréia do Sul por 9 a 0 e a própria Alemanha Ocidental por 8 a 3 na fase classificatória. Final em Berna. Hungria e Alemanha Ocidental. A Hungria faz a parte que lhe cabe: abre 2 a 0 sem demonstrar qualquer apreço pelos rivais. Mas aí vem o milagre que o sabão de pó me omitiu. Não se sabe como ainda, nenhum santo reivindicou esse milagre ainda, mas a Alemanha vira o jogo para 3 a 2 e sagra-se campeã. Dez anos após ser pulverizada na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha vence um conflito sem derrubar nenhum homem ao chão. Sem disparar um tiro. Sem enterrar nenhum soldado.

Voltemos à minha meninice e à Copa de 90. Não tínhamos televisão em casa, fato determinante para a Copa do Mundo se resumir a três jogos para mim: Brasil 2 a 1 Suécia, na primeira fase; Brasil 0 a 1 Argentina, na funesta despedida da nossa seleção em plena fase de oitavas-de-final e, a grande final, Alemanha 1 a 0 Argentina. O primeiro jogo não teve nenhum brilho para mim. Vi Careca marcar duas vezes e tornar-se meu primeiro e breve herói.

Veio a fase de oitavas-de-final. Reunimos na casa de um vizinho. Eu ao lado do meu pai, que era até então meu comentarista de futebol favorito, meu guru. Tudo que ele falava tinha o peso de um sermão religioso para mim. Ele havia alertado que a Argentina era perigosa e que o Maradona era um demônio. Uma previsão que se confirmara, como descobri 90 minutos depois. Foi nessa tarde que aprendi que o futebol faz sofrer, causa úlcera na alma, enluta toda uma nação como se milhões perdessem ao mesmo tempo um parente querido. Claro que eu não entendia de tática, de técnica, de catimba, de feitiço. Eu era apenas um menino maravilhado diante de uma televisão vendo um jogo de futebol. Mas ao meu lado estavam homens crescidos, trabalhadores, todos levando muito a sério aquela partida. Era questão de vida ou morte. Era mais importante nossa defesa marcar o Maradona do que o presidente Fernando Collor driblar a inflação.

Eis que o inferno abre suas duas portas e envia Maradona contra a nossa indefesa zaga. Ricardo Rocha, nosso melhor combatente, ficou para trás. Maradona avança. Vê Caniggia livre e passa-lhe a bola. O cabeludo artilheiro argentino dribla Taffarel, nossa última esperança de evitar a tragédia nacional. De perna esquerda empurra a bola para o fundo das redes. Gol da Argentina. Silêncio fúnebre entre os brasileiros. Até o fim do jogo, ficamos agonizando como um animal abatido, com uma ferida aberta até a hemorragia final, com o apito do árbitro. O Brasil estava fora da Copa. A espera por títulos, que já durava 20 anos, iria continuar. Não me recordo ao certo, mas houve choro e ranger de dentes diante da televisão.

Mas aqui se faz aqui se paga, devem ter dito alguns dos nossos vizinhos, quando alguns dias depois a Argentina perde o título mundial para a Alemanha. Meu pai e eu fomos assistir a grande final da Copa do Mundo em outra casa. Televisão preta e branca, como era a moda da época nos lares menos abastados. Todos ali na sala com o orgulho ferido, torcendo desesperadamente pela Alemanha. Era a chance de vingança. Menino não entende muito dessas coisas e eu, secretamente aplaudia a Argentina, amava o Maradona e suas peraltices. Quando minha preferência ficou clara fui olhado de modo diferente. Era como se eu fosse um intruso, um espião, um inimigo. Meu pai, com a autoridade que lhe cabia sobre mim para todos os assuntos, me advertiu que tínhamos que torcer pela Alemanha. Ali ficou definido que a Argentina fazia parte do eixo do mal. Era uma presa a ser abatida com requintes de crueldade. Que era imoral torcer pela Argentina. Rapidamente virei a casaca e passei a roer as unhas pela Alemanha, meu amor daquela tarde.

Quase fim do jogo. Tudo caminha para um empate dramático, decisão nos pênaltis e outros sofrimentos mais. Pênalti duvidoso para a Alemanha. Momento de tensão na sala. Momento de tensão no mundo. A Argentina havia chegado à final graças ao seu goleiro Goycochea, que assombrou o planeta ao defender vários pênaltis durante o Mundial. Uns diziam que tinha o corpo fechado. Meu pai alertou que o goleiro era o bicho, o coisa-ruim, que poderia frustrar nossa chance de vingança, a nossa tardia justiça.

A guerra havia terminado no seu formato original. A cavalaria havia sido aposentada. A artilharia havia sido aposentada. A infantaria havia sido aposentada. Ao modo do combate bíblico entre hebreus e filisteus, ali só havia dois gladiadores, Davi e Golias. Naturalmente, Brehme, o alemão, era o nosso Davi. Golias era o apavorante monstro argentino. Apenas os dois estavam escalados para determinar quem venceria a guerra. Cada um deles encarnava o sonho e a miséria de milhões.

Brehme vence Goycochea. A bola entra. Por pouco o goleiro não defende. Mas ali estava ele, vencido, fracassado, um Sansão sem cabelos, com o corpo aberto, desprotegido, impotente. Todos os alemães comemoram loucamente no campo, no chão, fazendo uma montanha humana. Meu pai estava feliz, estava com o dever de justiça cumprido. Eu, na minha compreensão de menino, também vibrei muito, havíamos vencido a guerra, o bem derrotou o mal, podíamos dormir em paz.

Alguns anos depois, com mais informações ao meu dispor, pude entender a importância daquela partida, daquele título. Em 1989, cai o Muro de Berlim, reunificando as duas Alemanhas, a Ocidental e a Oriental. Era a primeira Copa do Mundo após o fim da Segunda Guerra que os alemães jogaram sob uma só bandeira. Além disso, o povo alemão vinha de duas decepções em finais de Copa do Mundo: 1982, para a Itália e, em 1986, para a própria Argentina. Era a vingança pessoal deles também.

Mas a Copa de 90 que vi pela primeira vez me contaminou para sempre. Não a vi com os olhos de historiador ou jornalista. Nem tampouco com os olhos de um homem que tenta entender os dramas do mundo. Vi aquela Copa com os olhos de um menino, que, de repente, descobriu que o encanto e a dor podiam brotar da mesma fonte.

Anderson Alcântara é jornalista e escritor.