O romance conta a história do menino Carlinhos, no engenho de seu avô. O livro contém uma magia que mesmeriza o leitor, independentemente de sua idade

Li o romance “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, possivelmente em 1969, aos 8 anos, quando estava com o braço quebrado (queda de um pé de manga Bourbon) e engessado. O livro havia sido publicado em 1932, era um balzaquiano de 37 anos. Pensava na releitura há anos. Mas, como a obra havia me dado um prazer imenso na meninice, sempre relutava. Acreditava que o livro era muito bom pelo prisma da leitura da infância. E só. Finalmente, derrotando a dúvida, reli, em abril — o mês despedaçado pela Covid-663 mil —, o texto de 141 páginas, publicado, de maneira digna, pela Editora José Olympio, com artigos de Ivan Cavalcanti Proença, Marcos de Castro, Rachel de Queiroz e Benjamin Abdala Jr. A história de Carlinhos permanece de pé — tão bela quanto bem escrita. O romance é encantador.

Clarisse, a mãe de Carlinhos, é assassinada pelo marido, que é internado num hospício. O menino é levado para o engenho do avô e praticamente é adotado pela tia Maria Menina, irmã de Clarisse. No engenho, o garoto redescobre o mundo.

Aos poucos, vai percebendo que o mundo é maior do que o engenho ao manter contato com pessoas de outras cidades, como Recife, e de outros engenhos (um homem brabo ameaçara seu avô). No engenho, Carlinhos descobre as delícias da sexualidade aos 12 anos.

Zé Lins conta a história de um avô benevolente, não cruel com os negros (teve filhas, porém, com as ex-escravas), ao contrário de outros donos de engenhos. Mas a vida dos negros não era nada fácil, nem mesmo no engenho Santa Rosa. Sem fazer discurso, mais mostrando do que demonstrando, Zé Lins radiografa a vida dura dos negros, contando histórias terríveis.

José Lins do Rego: escritor | Foto: Reprodução

A Velha Totonha, grande contadora de histórias, aparece no livro, deliciando Carlinhos com sua imaginação poderosa e além-Nordeste. De resto, devo sugerir que a leitura de 1969 foi a melhor, porque a vida de Carlinhos — caçadas de passarinhos, histórias fantásticas (na infância, Cláudio, um homem negro, nos contava histórias arrepiantes que ouvira em algum lugar e condensava para nós — Eliane, Eliana, Raul Filho, Érika e eu), banhos em banguês, ribeirões e rios, pescarias (corrós, piaus, margaridas, traíras, bagres-mandis) — era, de alguma forma, parecida com a minha, exceto pelo fato de eu ter pai e mãe.

(O romance pode ser enriquecido pela leitura de “Meus Verdes Anos — Memórias”, de Zé Lins.)