Euler de França Belém
Euler de França Belém

Memórias de John le Carré revelam vida de espião, método literário e relação com o cinema

O escritor de livros de espionagem diz, seguindo Graham Greene, que, ao escrever sobre a dor humana, é preciso partilhá-la

John le Carré diz, nas suas memórias, que, “quanto mais se procura por verdades absolutas, menos probabilidade haverá de encontrá-las. Se a verdadeira realidade reside em algum lugar, não é nos fatos, mas nas nuances”

O britânico John le Carré é, como o belga Geor­ge Simenon, daqueles escritores que deixam seus leitores mesmerizados e à espera de novos livros. Nada tem a ver com autores celebrados pela linguagem inventiva, como James Joyce e Guimarães Rosa, mas escreve muito bem e, a respeito do tema espionagem, está muito à frente de outros autores. Talvez porque tenha sido espião do MI5 e MI6. Suas histórias e personagens são críveis. Porque baseados em homens de carne e ossos? Não necessariamente. Trata-se de fato que o autor escreve sobre o que conhece, mas é sua imaginação poderosa, sua capacidade de fabular, de criar, a partir de seres reais, compósitos ficcionais que convencem os leitores. É provável que tenha dois tipos básicos de leitores. No primeiro grupo estão aqueles que leem seus livros considerando que são puramente ficcionais e, diria Graham Greene, entretenimento de primeira linha. No se­gundo grupo estão inclusos os que acreditam que são um retrato, por vezes preciso, da espionagem nos tempos da Guerra Fria e, com o “fim” desta, dos tempos posteriores. Talvez exista um terceiro grupo, o dos que misturam o que pensam os anteriores.

Se a obra de John le Carré é uma delícia, tanto que ganhou ada­ptações de qualidade para o cinema — “O Espião Que Saiu do Frio”, com Richard Burton, e “O Espião Que Sabia Demais”, com Gary Oldman —, sua vida, como espião e escritor, merece ser registrada. Porque deve ser tão interessante quanto seus livros, como “O Jardineiro Fiel”. Estudou em Oxford, deu aulas no Eton College, espionou para os britânicos e, claro, escreveu livros sensacionais. Aliás, escreve, pois, aos 86 anos, está vivíssimo e produtivo. Talvez para fornecer material para seus futuros biógrafos, com o objetivo de evitar distorções e acrescentar sua própria versão dos fatos, decidiu escrever “O Túnel dos Pombos — Histórias da Minha Vida” (Record, 320 páginas, tradução de Alesssan­dra Bonr­ruquer), publicado no Bra­sil este ano e, na Inglaterra, em 2016.

“O Túnel de Pombos” não é a história da vida de John le Carré, e sim histórias de sua vida, muito bem contadas, por vezes de maneira maliciosa e, sobretudo, com a típica ironia distanciada dos ingleses. O leitor não espere, portanto, histórias precisas e grandes esclarecimentos — que ficarão na conta do futuro biógrafo. “Você tem o direito de per­­guntar o que é verdade e o que é a memória de um escritor criativo naquilo que podemos delicadamente chamar de o entardecer da sua vida. Para um escritor, os fatos são o material bruto, não seu capataz, e sim seu instrumento, e seu trabalho é fazê-lo cantar. Se a verdadeira realidade reside em algum lugar, não é nos fatos, mas nas nuances. (…) Esteja certo de que em nenhum momento falseei conscientemente um evento ou uma história. Disfarcei quando necessário? Sim. Falseei? De­fi­nitivamente, não.”

Percebe-se que, às vezes, o autor relata uma história, não para esclarecê-la em definitivo — se é que se pode esclarecer alguma coisa em definitivo, o que seria eliminar as nuances dos fatos, da vida —, mas lançar alguma luz e, quiçá, divertir o leitor. Fica-se com a impressão de que faltam notas de rodapé — do autor e da editora (o leitor eventualmente precisa pesquisar em livros ou na internet). O que falta mesmo é uma biografia que escarafunche sua vida, sem dó nem piedade, uma vez que o ex-espião — os russos costumam sugerir que uma vez espião sempre espião (o escritor endossa: “Aqueles que já estiveram no interior de uma tenda do Serviço Secreto jamais a deixam realmente”) — admite que, por lealdade e votos de silêncio, não pode se abrir inteiramente

John le Carré, maior escritor britânico de livros de espionagem: “Regra número um da Guerra Fria: nada, absolutamente nada, é o que parece”

Realistas morais

Na introdução, John Le Carré — cujo nome é David John Moore Cornwell — relata que Vivian Green, seu mestre em Oxford, “inspirou, com seu exemplo, o íntimo de George Smiley”, um dos principais personagens da vasta obra do escritor.

Estudante em Berna, John le Carré aprendeu a língua de Heine e se tornou um leitor devo­tado da literatura alemã — de escritores como Thomas Mann e Hermann Hesse. “Quan­do comecei a estudar os dramas de Goethe, Lenz, Schiller, Kleist e Büchner, descobri que me identificava igualmente com sua austeridade clássica e com seus excessos neuróticos. O truque consistia em disfarçar estes naquela.” Pela fluência na língua de Rilke, espionou na Áustria e, notadamente, na Alemanha. Não era, porém, um grande espião — é o que diz.

Graham Greene, outro grande escritor que trabalhou como espião para o MI6 — era amigo de Kim Philby, que espionou para os soviéticos —, aparece de maneira simpática nas memórias parciais e lacunares de John le Carré. Certa vez, conversando com um advogado do MI5, o escritor disse que admirava o autor de “Nosso Homem em Havana”, livro que, por sinal, estava sendo examinado pelo serviço secreto britânico. O advogado sugeriu que o autor desta obra deveria ser processado porque, “usando informação obtida como oficial do MI6 em tempos de guerra, havia retratado corretamente o relacionamento entre o chefe de estação de uma embaixada britânica e um agente de campo. Greene teria de ir para a prisão”. Mas o “censor” não era uma toupeira e admitiu: “O livro é muito bom. Esse é o problema”.

Além de não ter sido preso e do fato de que o romance se tornou best seller — e chegou a ser levado ao cinema —, Graham Gre­ene escreveu, anos depois, “O Fator Humano”, que retratava os “figurões do MI5 não apenas como tolos mas também assassinos”. John le Carré concorda em parte com o companheiro de profissão: “Em alguns livros, retratei o Serviço Secreto britânico como uma organização mais competente do que sei que é na realidade. Ou que um dos seus oficiais mais antigos descreveu ‘O Espião Que Saiu do Frio’ como ‘a única operação com um agente duplo que já deu certo’”.

Escrever romances, misturando fatos reais com histórias ficcionais, é menos danoso, para os serviços secretos, do que fazer revelações como as do americano Ed­war­d Snowden, sugere John le Carré.

Aos 25 anos, em 1956, John le Carré se tornou agente júnior do MI5 (onde atuaram Guy Burgess e Anthony Blunt, que traíram os ingleses para os soviéticos). Ele atuava na contraespionagem. Em 1960, transferiu-se para o MI6.

Os espiões experimentados liam os relatórios de John le Carré e, rigorosos, apontavam até as falhas básicas de gramática, além das informações truncadas. Longe de prejudicá-lo, foram úteis para refinar sua prosa futura.

Percebe-se que, quando menciona os agentes ingleses que espionaram para os soviéticos, nem mesmo o relato distanciado esconde a irritação de John le Carré. A traição de George Blake e Kim Philby (o “brilhante ex-chefe de contrainformação do MI6”), que expôs centenas de agentes britânicos, incomoda-o, mesmo agora. Trata-se, postula, de algo imperdoável (tanto que, quando visitou a União Soviética, não quis se encontrar com Kim Philby). Mesmo assim, é capaz de uma ressalva inteligente: “Espiões não são policiais, nem os realistas morais que acreditam ser. Se sua missão na vida é atrair traidores para sua causa, você não pode se queixar quando um dos seus, ainda que o ame como irmão e colega, é recrutado para o outro lado. Aprendi essa lição na época em que escrevi ‘O Espião Que Saiu do Frio’. E, quando escrevi ‘O Espião Que Sabia Demais’, foi a candeia turva de Kim Philby que iluminou meu caminho”.

“Espionagem e romance foram feitos um para o outro”, assinala John le Carré. “Ambos pedem um olho atento para a transgressão humana e para as muitas rotas que conduzem à traição.”

Operando na Alemanha, como espião disfarçado de diplomata, John le Carré, como David Cornwell, acompanhou o alemão Erwin Schüle, diretor do Centro de Investigação dos Crimes Nacional-Socialistas de Baden-Württemberg, numa inspeção de arquivos nazistas recém-descobertos, em Varsóvia. Para a “surpresa” de Schüle, os soviéticos apresentarem-lhe seu cartão de filiação ao Partido Nazista (o que era verdadeiro) e o acusaram de crimes de guerra (o que era falso). “A lição? Quanto mais se procura por verdades absolutas, menos probabilidade haverá de encontrá-las. Acredito que Schüle, na época em que o conheci, fosse um homem decente. Mas tinha de conviver com seu passado e, fosse qual fosse, era preciso lidar com ele.”

O capítulo 7 trata da “deserção de Ivan Serov”. O diplomata soviético aproximou-se de John le Carré, chegou a visitá-lo e a tocar piano — Mozart e Stravinsky — em sua casa, na cidade de Bonn, na Alemanha. “Regra número um da Guerra Fria: nada, absolutamente nada, é o que parece.” Pois bem: o espião-escritor não esclarece o que aconteceu exatamente, apesar de falar em deserção. Serov era, possivelmente, da KGB e/ou da GRU. Queria recrutar o escritor? Não ficamos sabendo. “Todos os serviços de espionagem mitificam a si mesmos, mas os britânicos são uma categoria à parte. Esqueça nossa triste participação na Guerra Fria, quando a KGB nos superou e se infiltrou em nós praticamente a cada instante.” Mas, frisa o escritor, “nós vencemos e, assim, fomos nós que escrevemos a história”.

Os americanos e os alemães não apreciam contar que recrutaram para seus serviços secretos, a CIA e o BND, nazistas, como o general Reinhard Gehlen e Klaus Barbie (ajudou os americanos a caçarem Che Guevara, na Bolívia).

Graham Greene: advogado queria levá-lo à prisão porque descreveu muito bem o Serviço Secreto inglês

Partilhar a dor

O autor de livros sobre histórias que se passam em países que não conhece bem pode cometer erros. Ao escrever o romance “O Espião Que Sabia Demais”, John le Carré usou informações desatualizadas de um guia de viagem. Ao visitar Hong Kong, descobriu que havia se enganado e pediu ao seu agente, por fax, que parasse a impressão do livro. Reescreveu cenas e enviou para Londres. Estava desesperado. “Jurei que nunca mais escreveria uma cena em um lugar que não tivesse visitado. Uma frase de Graham Greene ressoava nos meus ouvidos: algo sobre como, ao escrever sobre a dor humana, temos o dever de partilhá-la.”

Ao lado de repórteres, mas não com o objetivo de fazer jornalismo, e sim de colher dados e sobretudo de ver as coisas de perto, sondar as pessoas reais, John le Carré esteve em fronts perigosos, em várias partes do mundo (como Líbano, Ruanda, Congo, Rússia). Chega a confessar que teve medo, ao contrário de jornalistas destemidos, como David Greenway.
Em “O Espião Que Sabia De­mais”, além de George Smiley, há o personagem Jerry Westerby, correspondente esportivo e agente do Serviço Secreto britânico. Depois de escrever o livro, John le Carré conheceu Peter Simms, que era correspondente estrangeiro e agente secreto da Inglaterra. Eram idênticos. A ficção não inspirou a realidade nem a realidade inspirou a ficção. Mas o espião real e o espião ficcional eram, por assim dizer, “gêmeos” em tudo — no físico e no comportamento.

Um dos capítulos mais divertidos (até hilário?) é sobre o encontro entre o líder palestino Yasser Arafat e John le Carré. Não digo nada a respeito, pois vale a pena o leitor saboreá-lo.
Ao visitar Israel, John le Carré encontra-se com Michael Elkins, locutor americano que trabalhou na CBS e na BBC. Elkins contou-lhe sobre “a existência de uma organização judaica chamada DIN, a palavra hebraica para julgamento. Somente entre 1945 1946, a DIN caçou e matou nada menos que mil criminosos de guerra nazistas”.

Em 1987, John le Carré estava almoçando com Joseph Brodsky, na Inglaterra, quando anunciaram que o poeta e ensaísta russo havia sido laureado com o Nobel de Literatura. O escritor da terra de Liev Tolstói, que havia bebido e comido muito, demonstrou menos entusiasmo do que sua anfitriã britânica.

Sucesso no cinema

Richard Burton: o ator britânico praticamente exigiu que o escritor John le Carré se comportasse como “tutor” e foi responsável pela qualidade do filme “O Espião Que Saiu do Frio”, de Martin Ritt

Como escritor, John le Carré é meticuloso, visita países, busca informações objetivas e atualizadas. Escreve à mão e prefere não usar máquina nem computador. “Quando faço uma anotação, minha memória guarda a ideia. Quando tiro uma foto, a câmera rouba meu trabalho.”

O filme “O Espião Que Saiu do Frio”, de Martin Ritt, tem Richard Burton como protagonista. Ele faz Alec Leamas (papel que quase coube a Burt Lancaster).

Richard Burton disse a John le Carré que adorava o livro. “Mas o que eu secretamente perguntava, em meio às torrentes de elogios mútuos, era como aquela bela e estrondosa voz de barítono galês e aquele avassalador talento de triplo macho alfa caberiam no personagem de um espião britânico acabado de meia-idade que não se destacava pelo seu carisma, pela sua articulação clássica ou pela sua aparência de deus grego com cicatrizes de acne?”

De repente, Richard Burton começa a cobrar a presença de John le Carré. Disse que não filmaria mais se o escritor não aparecesse para reescrever cenas. Mas, quando agradava o ator, o escritor desagradava o diretor. Para piorar as coisas, a belíssima Elizabeth Taylor aparecia e implicava com a atriz Claire Bloom, que havia tido um affair com o galã (mais tarde, casou-se com Philip Roth, e, quando se separaram, publicou um livro explosivo sobre o escritor).

Ao final, e depois dos pileques de Richard Burton, o livro “O Espião Que Saiu do Frio” foi transformado num belo filme, graças, em grande parte, admite John le Carré, ao talento do ator.

Certo dia, Fritz Lang, o austríaco que conquistou Hollywood, apareceu e disse que queria filmar “Um Assassinato de Qualidade”, de John le Carré. “Você vai para a Califórnia. Escrevemos o roteiro, fazemos o filme”, sugeriu o cineasta austríaco. Não deu certo. “Fritz Lang já não era mais financiável.”

Stanley Kubrick quis adaptar o romance “Um Espião Perfeito”, de John le Carré. Não deu certo. Depois, Kubrick queria que trabalhassem juntos na adaptação do livro “Breve Romance de Sonho”, do austríaco Arthur Schnitzler. O escritor deu sugestões, mas acabaram não firmando a parceria. Mais tarde, o americano dirigiu o filme “De Olhos Bem Fechados”, com Tom Cruise e Nicole Kidman. Há um texto magnífico e delicado sobre o ator Alex Guinsess, amigo de John le Carré.

Há histórias fantásticas, como a do papagaio que, num Líbano conflagrado, imitava barulhos de tiros e falava sobre batalhas assustando correspondentes estrangeiros num hotel. Quando Coco, o papagaio entrava em “ação”, gritando “Pro chão, seu idiota, arruma cobertura agora!”, os hóspedes não iniciados saíam correndo para se esconderem.

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Frank Wan

Excelente, Euler. Depois faço uns comentários. Abraço