Ascensão da ex-ministra deve forçar a presidente a mudar seu marketing político e partir para o confronto com a candidata a presidente do PSB

O futuro nem a Deus pertence. Há alguns dias, políticos e cientistas políticos consideravam duas hipóteses. Primeira: um segundo turno entre a presidente Dilma Rousseff, do PT, e o senador Aécio Neves, do PSDB. Os dois pertencem a duas grandes estruturas partidárias e alianças políticas nacionais. Ao mesmo tempo, representam a socialdemocracia, com o petismo apontado como mais à esquerda e o tucanato mais ao centro. O pernambucano Eduardo Campos, do PSB, aparecia em terceiro lugar, como uma terceira via tida como fadada ao fracasso, portanto como uma espécie de coadjuvante de Aécio, no segundo turno. Porém, com a morte de Campos, Marina Silva ressurgiu como candidata, quase que como “a” candidata, aquele que está sendo “observada” pelos eleitores.

Segunda: havia a hipótese, dada a suposta fragilidade eleitoral de Campos e à falta de impacto de Aécio (com sua cara de Fernando Collor mineirinho), de Dilma Rousseff ganhar no primeiro turno.

Entretanto, com a morte do jovem líder de Pernambuco, ressurgiu a figura de Marina Silva, com sua poderosa imagem de antipolítica.

Quando a primeira pesquisa foi divulgada (Datafolha), registrando seu estupendo crescimento, cientistas políticos e marqueteiros ligados ao PT sugeriram que poderia ser “fogo de palha”. Sua ascensão “resultava” de um comportamento quase que puramente emocional da sociedade. Agora, a segunda pesquisa mostra que há um crescimento que, além de não ter sido dimensionado antes pelos especialistas — alguns deles participando de campanhas ou racionando ideologicamente —, parece incontrolável.

A pesquisa de intenção de voto divulgada na terça-feira, 26, pelo Ibope mostra, na estimulada, que Marina Silva tem 29% — e Dilma aparece com 34%, ainda liderando. Aécio não despencou, mas Marina descolou-se dele, com uma dianteira de 10%. Os nanicos Luciana Genro e Pastor Everaldo aparecem com 1%.

O que impressiona é a avaliação do segundo turno — que pôs todas as pulgas nas orelhas, cabelos e cérebros dos petistas. O primeiro-ministro do marketing político petista, João Santana, terá de reinventar Dilma, quiçá aproximando-a mais de Lula da Silva, porque agora não está em jogo apenas a gestora, que ia bem nos programas de televisão. Programas de tevê, diga-se logo, que foram feitos para derrotar um candidato convencional como Aécio, e não uma incógnita e anti-tudo (ou quase) como Marina.

Marina, revela o Ibope, que ouviu 2.506 eleitores, entre 23 e 25 de agosto, aparece, na avaliação de segundo turno, com 41% das intenções de voto. Dilma tem 36% — cinco pontos a menos. A líder do PSB cresce e a petista, não.

Na simulação de segundo turno, entre Dilma e Aécio, a primeira tem 41% e o segundo, 35%.

A 40 dias das eleições — um século, na perspectiva de marqueteiros —, o quadro é complicado para Aécio e, sobretudo, para Dilma, que terá de mudar sua campanha. Marina será transformada em alvo, a partir de agora, para que seja colocada como sua segunda pele que não é tão antipolítica assim. Por exemplo, anda na companhia de uma banqueira, Neca Setubal, uma das sócias do Banco Itaú, e de empresários poderosos, como o sócio da Natura. No palanque, por mais que Marina limpe a si unicamente por ser Marina, a socialista terá de conviver com políticos, muitos deles tradicionais. Se vai pegar a tática de “transformá-la” em “política”, mais comum do que incomum, não se sabe. É provável que o eleitorado, se o combate for excessivo, a “transforme” em vítima. Ninguém, entre cristãos, resiste a uma quase imolação.

Na aliança do PSB, acredita-se que, depois da entrevista de Marina ao “Jornal Nacional” na quarta-feira, 27, a candidatura deve “disputar”.