Euler de França Belém
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Maria Kodama divulga texto inédito de Jorge Luis Borges. Brasileiro descobriu carta

Pedro Corrêa do Lago mostrou documento assinado pelo avô de Borges e levou para o escritor em Buenos Aires

O jornal “Abc”, da Espanha, publicou na sexta-feira, 6, a reportagem “La viuda de Borges encuentra um texto inédito del autor argentino escrito siete meses antes de morir”.

Por causa da pandemia, que a prendeu em Buenos Aires, Maria Kodama Schweizer, a viúva de Jorge Luis Borges (1899-1986), decidiu verificar os papéis deixados pelo poeta e prosador argentino. Acabou por descobrir um texto inédito de sua autoria.

Jorge Luis Borges e Maria Kodama | Foto: Reprodução

No texto, de 1985, Borges conta que seu avô, um militar, mandou fuzilar um desertor. “O interessante é a sensibilidade de sentir-se culpado por algo que não se fez. Mostra uma sensibilidade extrema”, diz Maria Kodama, de 83 anos. “A morte de Silvano Acosta, ordenada pelo coronel Francisco Borges, ocorreu quando Borges não havia nascido”, conta o “Abc”.

Borges assinala que contraiu “uma dívida, assaz misteriosa, com um desconhecido que havia morrido na manhã de tal dia de tal mês de 1871 [28 anos antes do nascimento do escritor]. Essa dívida me foi revelada há pouco tempo, em um papel firmado por meu avô”. O documento foi vendido em um leilão. “Hoje quero saldar essa dívida. Nada me custaria fantasiar traços circunstanciais, porém o que mais me tocou foi o fio que me ata a um homem sem rosto, de que nada sei, exceto o nome, quase anônimo agora, e a notícia da morte”. A história foi ditada pelo escritor a Maria Kodama, sete meses antes de morrer.

O texto de Borges (a letra é de Maria Kodama). Ele era cego | Foto: La Nación

A história de Silvano Acosta era, para Borges, “terrível”. O escritor queria, segundo Maria Kodama, que todos soubessem sobre o homem executado. Ao fazer o relato, Borges queria, de certo modo, livrar-se da culpa (herdada do avô). Ou ao menos tentar.

Borges respeitava os militares e seus antepassados, como o avô. “Uma coisa é que ter empatia por alguém e outra reconhecer os erros que cometeu”, declara Maria Kodama. Borges nada tem a ver com o fuzilamento, e seu avô, por certo, estava cumprindo o regulamento, ou seja, seu dever. Entretanto, para um indivíduo que prezava as ligações históricas e familiares, os seus múltiplos cruzamentos, Borges certamente sentia-se como um prosseguimento de seu avô. Para “libertar” a ambos, era precisa contar o que aconteceu, ou parte do que aconteceu.

A história não foi escrita para consumo próprio. Borges queria vê-la publicada, até, quem sabe, para ressaltar o caráter, digamos, “aventureiro” de sua família, dando-lhe um sentimento de pertencimento à história da Argentina (Borges é argentiníssimo, mas há quem o perceba como um escritor e aristocrata inglês que, por acaso, nasceu na Argentina). “Se Borges queria que se conhecesse o nome do rapaz, me pareceu melhor publicar o texto”, postula Maria Kodama.

Borges e Maria Kodama | Foto: Reprodução

A informação chegou a Borges em 1979 por intermédio do colecionador brasileiro Pedro Corrêa do Lago, que, numa visita ao escritor, em Buenos Aires, revelou o documento.

Pedro Corrêa do Lago “havia encontrado e comprado na Casa Pardo uma carta na qual o coronel Francisco Borges afirma que havia mandado executar o desertor Silvano Acosta”.

“Borges sabia, por meio de sua avó inglesa, Fanny, que seu avô havia mandado fuzilar um desertor, mas não sabia seu nome”, relata o “Abc”.

“Era um desertor e um traidor. O coronel Francisco Borges, meu avô, firmou a sentença de morte com a boa caligrafia da época. Quatro atiradores executaram o homem. Eu nasci 30 anos depois¹. Um vago sentimento de culpa me ata a este morto. Sei que lhe devo uma reparação, que não lhe chegará. Dito esta página inútil no dia 19 de novembro de 1985”, disse Borges.

Bioy Casares , Victoria Ocampo (criadora da revista “Sur”) e Jorge Luis Borges | Foto: Reprodução

O texto foi encontrado casualmente por Maria Kodama há duas semanas. “Minha casa é um caos, cheia de papeis, e isso estava no meio deles. Minha vida é viajar, venho e vou. Trabalho 24 horas. Graças à pandemia, decidi que ia pôr os papeis em ordem”, afirma a viúva.

“Me senti culpadíssima. Porque estava destinado ao conhecimento de todo mundo e havia ficado guardado [o texto, que Borges queria ver divulgado, como uma catarse, quiçá um pedido de desculpas]. Estou muito contente. Cumpri meu dever”, anota Maria Kodama.

O texto de Borges e anotado por Maria Kodama foi publicado no domingo, 1º, pelo jornal argentino “La Nación”. O escritor era colaborador do diário. Num vídeo, a viúva faz a leitura do texto.

Maria Kodama diz que todo mundo gostou da história e que recebeu “muitas felicitações” pela publicação do texto de Borges.

Pedro Corrêa do Lago: o colecionador brasileiro que revelou documento para Borges | Foto: Reprodução

“O texto vai ficar guardado na Fundación Internacional Jorge Borges.” “É uma página ditada e nada mais. É uma página literária. É muito bela porque [Borges] sabia escrever. Forma parte da obra dele”, afirma Maria Kodama. Traduzi a reportagem do “Abc”, que me foi útil para escrever este texto, mas o texto de Borges deixo em espanhol mesmo, para a fruição dos leitores.

Nota

¹ Jorge Luis Borges nasceu em 1899. Se Silvano Acosta morreu em 1871, a matemática sugere outro número: o escritor nasceu 28 anos depois. Mas, diria Borges, 28 e 30 anos, uma diferença de dois anos, são a mesma coisa.

“Silvano Acosta”, el texto inédito de Borges

“Mi padre fue engendrado en la guarnición de Junín, a una o dos leguas del desierto, en el año de 1874. Yo fui engendrado en la estancia de San Francisco, en el departamento de Río Negro, en el Uruguay, en 1899. Desde el momento de nacer contraje una deuda, asaz misteriosa, con un desconocido que había muerto en la mañana de tal día de tal mes de 1871. Esa deuda me fue revelada hace poco, en un papel firmado por mi abuelo, que se vendió en subasta pública. Hoy quiero saldar esa deuda. Nada me costaría fantasear rasgos circunstanciales, pero lo que me ha tocado es lo tenue del hilo que me ata a un hombre sin cara, de quien nada sé salvo el nombre, casi anónimo ahora, y la perdida muerte.

“Asesinado Urquiza, la montonera jordanista asedió a Paraná. Una mañana entraron a caballo en la plaza y dieron la vuelta golpeándose la boca y gritando algún sapucai para hacer burla de la tropa. No se les ocurrió apoderarse de la ciudad.

“Para levantar el sitio, el gobierno envió al regimiento número dos de infantería de línea. Faltaban plazas y una leva recogió algunos vagos en las tabernas y en las casas malas del Bajo. Acosta fue apresado en esa redada, entonces común. Nada me costaría atribuirle una parroquia de Buenos Aires o un oficio determinado -peón de albañil o cuarteador- pero esa atribución haría de él un personaje literario y no el hombre que fue lo que fue. A la semana desertó del cuartel y se pasó a los montoneros. Tal vez pensó que la disciplina entre gauchos sería menos severa que en las filas de un ejército regular. Tal vez quería desquitarse de haber sido arrastrado a la guerra. Prosiguió la campaña y un Destacamento del Dos trajo prisioneros. Alguien reconoció al pobre Acosta. Era un desertor y un traidor. El coronel Francisco Borges, mi abuelo, firmó la sentencia de muerte con la buena caligrafía de la época. Cuatro tiradores la ejecutaron.

Yo nací treinta años después. Un vago sentimiento de culpa me ata a ese muerto. Sé que le debo una reparación, que no le llegará. Dicto esta inútil página el diecinueve de noviembre de 1985.”

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