Euler de França Belém
Euler de França Belém

Marcelo Rezende foi derrotado pelo câncer de pâncreas, um poderoso “adversário” da ciência

Quando se apegou à fé, o jornalista da TV Record por certo sabia que era um caso perdido. Mas nós queremos viver, não queremos morrer

É provável que, com câncer de pâncreas que se estendeu ao fígado, o jornalista Marcelo Rezende, apresentador do telejornal “Cidade Alerta”, da TV Record, sabia que ia morrer. Por isso, no lugar de continuar fazendo o tratamento convencional — que são tão importantes quanto eventualmente brutais —, apegou-se a terapias alternativas e à fé. Não havia outra saída, e, quando é assim, o indivíduo apega-se ao miraculoso e ao místico. Não é assim com todo mundo, mas é assim com muitos. Não sei como seria comigo, um cético.

Meu pai, Raul de França Belém, foi diagnosticado com câncer em 2010. Câncer de pâncreas, de tratamento complicado. Na cirurgia, o médico Pedreira, do Hospital Amparo, retirou parte do pâncreas, sua cauda, e o baço. O tempo de vida era de três a seis meses. Com sua saúde de ferro, aos 73 anos, viveu quase um ano e quatro meses. Sofreu muito, mas nunca se entregou. Fez opção, até não dar mais, pelo tratamento quimioterápico, que o debilitava muito. Ele foi muito bem acompanhando pela médica Geórgia. Por fim, sentindo que o tratamento era praticamente ineficaz, em termos de “cura”, pediu-me para levá-lo a um centro espírita, no Setor Negrão de Lima. Nós dois, incréus a vida toda, fomos lá. Recebeu passes e tomou uma água “especial”. No dia 4 de dezembro de 2011, morreu num hospital da Rua 9, no Setor Marista. Queria muito viver. Dizia que queria conviver com os cinco filhos e ler vários livros. Era um leitor compulsivo de livros, jornais e revistas (leu a “Veja” toda semana de 1968 até 2011; era assinante).

Nos últimos dias, debilitado, Marcelo Rezende gravou vídeos, informando que acreditava em Deus, e que sua “cura” estava em suas mãos. Era, por certo, um homem de fé. Mesmo assim, por ser um jornalista bem informado, sabia que, em determinados casos, embora conforte — portanto, costuma ser necessária —, não basta a fé, nem mesmo medicamentos, para garantir a vida. Há cânceres que costumam derrotar as terapias científicas mais modernas e, claro, a fé. Não há escapatória. É o caso do câncer quando atinge o pâncreas.

Até por causa da história de meu pai, acompanhei a odisseia de Marcelo Rezende com atenção, e sem condená-lo por relatar as fases de seu tratamento e o próprio sofrimento. Queria viver — era o que estava dizendo — e, como a ciência não funcionava mais, mais baqueava do que tratava o corpo, buscava na fé, além de terapias alternativas, uma saída, que, no fundo, sabia não existir. Mas nós queremos viver, não queremos morrer; por isso, tentamos tudo para continuar.

Marcelo Rezende tinha apenas 65 anos e era um profissional bem situado na televisão brasileira. Estava no auge.

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