Euler de França Belém
Euler de França Belém

Máfia tentou fazer de Cuba a Monte Carlo do Caribe

Meyer Lansky, mafioso judeu, criou o primeiro Estado mafioso do mundo em Cuba. O poderoso chefão acabou expulso do país em 1959

“Noturno de Havana — Como a Máfia Conquistou Cuba e a Perdeu Para a Revolução” (Seoman, 384 páginas, tradução de Santiago Nazarian), de T. J. English, é um dos melhores livros sobre a organização mafiosa com forte atuação na Itália, nos Estados Unidos e, antes da Revolução de 1959, em Cuba. Entre 1952 e 1959, com o objetivo de criar a Monte Carlo do Caribe, a máfia construiu grandes hotéis-cassinos, boates, hotéis turísticos. Lucky Luciano, Meyer Lansky e Santo Trafficante, a realeza da Máfia, planejaram a criação de um Estado criminoso no país mais tarde dominado pelo comunista Fidel Castro. Para tanto contaram com o apoio do presidente Fulgencio Batista. O livro resgata a história de Meyer Lansky, o judeu que funcionou como cérebro da Máfia e foi imortalizado no filme “O Poderoso Chefão 2” como Hyman Roth. Carmen Miranda cantou no Colonial Inn, um cassino-nightclub americano de Lansky. Ela pediu um conjunto de maracas cubanas. O criminoso voou para Havana para buscá-las. O advogado Bernard Frank perguntou por que tinham de ser cubanas. O chefão explicou que “Carmen, a temperamental cantora, atriz e estrela brasileira, então no auge de sua celebridade, estava pedindo um conjunto específico de maracas que ela havia visto numa loja em Havana e não aceitaria outras”. Os cantores Eartha Kitt (namorada de Orson Welles), Nat King Cole, Dorothy Dandridge, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Mario Lanza “trabalharam” para a Máfia em Havana.

Fulgencio Batista e Meyer Lansky: o presidente cubano era uma espécie de sócio da Máfia

Para atrair jogadores de vários países, notadamente dos Estados Unidos, os mafiosos investiram em atrações culturais e sexuais. O nightclub Tropicana ganhou reputação internacional. O arranjador Dámaso Pérez Prado e sua banda criaram, no fim da década de 1940, “uma febre chamada mambo. (…) O mambo foi a dança não oficial da Máfia de Havana”. Cuba tinha tudo aquilo que os estrangeiros, especialmente os americanos, queriam: bebida, jogo e sexo. Mafioso atuante em Nova York, Lansky percebeu o potencial da ilha já em 1928. Em 1933, procurou Lucky Luciano e propôs a “compra” de Cuba. O jovem militar Fulgencio Batista, convocado para ser o agente “oficial” e legal, aceitou fazer parte do rentável negócio.

Para fazer negócios em Cuba, a Máfia organizou a Conferência de Havana, em 1946, no Hotel Nacional. O filme “O Poderoso Chefão 2”, de Francis Ford Coppola, mostra os mafiosos dividindo um bolo — uma metáfora para o fatiamento de Cuba. O filme não muda os fatos no essencial, mas altera, talvez para tornar a história mais atraente, algumas informações. O encontro não se deu em 1959, quando a Revolução assume o controle de Cuba, e Meyer Lansky, Hyman Roth na fita de Coppola, tinha apenas 44 anos, e não mais de 70 anos. Estava no auge e não em decadência. Fulgencio Batista ainda não estava no poder.

Meyer Lansky (à direita, o homem menor) e Moses Polakoff

Michael Corleone diz, no filme: “Ocorreu a mim que os soldados são pagos para lutar. Os rebeldes não”. Hyman Roth pergunta: “O que isso lhe diz?” Mike Corleone acrescenta: “Eles podem vencer”. E venceram. Participaram do célebre encontro: Lucky Luciano, Lansky, Vito Genevose. Albert Anastasia, Moe Dalitz, Frank Costello, Doc Stacher, Carlos Marcello e Santo Trafficante (os dois últimos entraram na lista de suspeitos de terem conspirado para matar o presidente John Kennedy). Meyer Lansky disse aos “sócios” que seu objetivo era “transformar todo” o “Caribe no centro da maior operação de jogo do mundo”, uma espécie de Monte Carlo internacional.

No filme “O Poderoso Chefão”, Vito Corleone, o pai de Mike, não quer o envolvimento da família no tráfico de drogas, o que levou mafiosos a tentar matá-lo, sobretudo depois que perceberam que pelo menos um dos filhos do chefão era suscetível ao negócio. Na conferência de Havana, os mafiosos discutiram a possibilidade de usarem a ilha como porto seguro para o tráfico de heroína, cocaína e maconha. De lá, as drogas seriam enviadas para os Estados Unidos. Os gângsteres, sobretudo Vito Genovese e Frank Costello, ganhavam muito dinheiro com drogas e não queriam abandonar o negócio, mesmo sob pressão de Lucky (Charles) Luciano. Costello pressionou: “Charlie, não bata com a cabeça na parede. Siga com a maré”. O poderoso chefão replicou: “Mas, por favor, me mantenham fora dessa”. Lucky Luciano sabia que o FBI estava de olho nele, pois desconfiava que era o líder do tráfico de narcóticos. Meyer Lansky tinha “aversão ao tráfico de drogas”.

Sam Giancana, mafioso, e Frank Sinatra, um artista da Máfia

Sinatra deu 2 milhões de dólares a Lucky Luciano

Meticuloso, Meyer Lansky começou a estruturar os negócios da Máfia em Havana, construindo hotéis e cassinos. Frank Sinatra deu sua colaboração. Em 1947, o cantor entregou 2 milhões de dólares a Lucky Luciano. Ele era um investidor nos negócios da Máfia. Era sócio de uma revenda de carros com os irmãos mafiosos Rocco e Charles Fischetti e possivelmente “sócio oculto num cassino-boate que Willie Moretti planejava abrir em Palisades, Nova Jersey, e estava pensando em investir na construção de um hotel-cassino em Las Vegas”. Lucky Luciano esclareceu a situação do amigo: “Quando chegou a hora de colocar grana para lançar Frank ao público, nós colocamos”. Em “O Poderoso Chefão”, um cantor, supostamente Sinatra, visita Vito Corleone e sugere que precisa fazer um filme para voltar a fazer sucesso. O diretor não quer. Sob pressão, acaba cedendo. O filme seria “A Um Passo da Eternidade” (1953), de Fred Zinnemann. Sinatra brilha como o injustiçado Maggio. O cantor era protegido, então, de Lucky Luciano, que, como Vito Corleone no filme, também condenou o tráfico de drogas, pelo menos num certo período.

O rei de Cuba era Meyer Lansky, tido como “o mais astuto operador do submundo americano”. O mafioso conquistou Fulgencio Batista e trabalharam juntos cerca de 15 anos. FulgêncioBatista era o abre-te sésamo do criminoso. O presidente cubano chegou a nomeá-lo conselheiro do governo para reformular o jogo em Cuba. Meyer Lansky voltou a Havana em 1952, para ficar.

Hotel Nacional, a central da Máfia em Cuba

O Hotel Nacional passara, antes do governo de Fulgencio Batista, para o controle público. Com Fulgencio Batista, Meyer Lansky assumiu sua direção. O criminoso transformou-o no palácio da Máfia, com um cassino que era uma mina de dinheiro. Para arranjar dinheiro público para a Máfia construir hotéis e cassinos, o presidente cubano criou o Banco para o Desenvolvimento Econômico e Social (Bandes). Os negócios da Máfia e do governo de Cuba passaram a ser um só.

Para aprovar uma legislação favorável à Máfia, e para protegê-la, Fulgencio Batista recebia por ano cerca de 10 milhões de dólares. Com dinheiro do governo, Meyer Lansky e seus colegas mafiosos decidiram construir os hotéis-cassinos Havana Hilton, o Hotel Deauville e o Hotel Capri.

Sem Lucky Luciano, deportado para a Itália, Meyer Lansky só não assumiu o comando sozinho porque havia outro mafioso poderoso e perigoso, Santo Trafficante, rei do Sans Souci. Mas, como todos estavam ganhando muito dinheiro com a jogatina, os mafiosos não precisaram se matar. Cuba, a pérola das Antilhas, havia se tornado um Estado mafioso, no qual era difícil distinguir onde começavam e acabavam os negócios da Máfia e os do presidente Fulgencio Batista, uma espécie de rei de Cuba, ou “o Estado sou eu”.

Santo Trafficante: mafioso atuante na Cuba pré-Fidel Castro

Fidel Castro pode ter recebido dinheiro de mafiosos

Em 1956, para acelerar os negócios, Lansky criou a empresa La Compañia Hotelera Riviera de Cuba. O mafioso planejava construir mais um hotel-cassino, o Riviera, com 21 andares e 440 quartos. A Máfia investiu maciçamente em Cuba. No final de 1958, com os rebeldes entrando em Havana, Lansky e outros mafiosos começaram a retirada de dinheiro de Cuba. Mas não deu tempo para retirar a maior parte dos dólares. “Por curiosidade”, Meyer Lansky “esperou até que Castro entrasse na cidade em 8 de janeiro”.

Os mafiosos não conseguiram entender que Fidel Castro não era um mero sucessor de Fulgencio Batista. Sua ideologia, a marxista, não combinava com a dialética mafiosa. Trafficante e Norman Rothman, certamente avaliando que Fidel Castro seria o Fulgencio Batista de amanhã, possivelmente deram dinheiro e armas ao revolucionário. O oficial da CIA Robert D. Weicha também arranjou armas e 50 mil dólares para Raúl Castro. O velho e, no caso, equivocado pragmatismo americano.

“Nós não estamos dispostos apenas a deportar os gângsteres, mas a atirar neles”, vociferou Fidel Castro. O revolucionário chegou a prender Santo Trafficante. Este foi liberado porque teria subornado Raúl Castro com 100 mil dólares. Meyer Lansky caiu fora. Fulgencio Batista teria tirado 300 milhões de dólares de Cuba. Os mafiosos, como Meyer Lansky e Trafficante, os que mais investiram no país, tiveram grandes perdas. “Cuba foi a derrota mais custosa para a Máfia.”

Marlon Brando (caracterizado como poderoso chefão) era o “rei” da conga em Cuba

Sinatra, Elizabeth Taylor e Marlon Brando na pérola das Antilhas

Frank Sinatra mantinha negócios estreitos com a máfia. Em 1939, quando Tommy Dorsey não queria liberá-lo de um contrato draconiano, o mafioso Willie Moretti, o primeiro capo do cantor, fez-lhe uma visita. Pôs “uma pistola em sua boca e exigiu que o líder da banda reconsiderasse os termos do contrato”. Tommy Dorsey cedeu. O cantor teria dito: “Prefiro ser um queridinho da Máfia do que presidente dos Estados Unidos”.

Em 1951, Sinatra e Ava Gardner passaram a lua de mel em Havana. Sinatra chegou a ser acionista do Hotel Monte Carlo.

Marlon Brando, apaixonado por música latina, esteve em Havana, em 1950. “Brando fez questão de conhecer a banda” do “Tropicana. Liderada por Armando Romeu, a orquestra” do “Tropicana era a maior e mais completa da ilha. Brando estava hipnotizado. ‘Descobrir música afro-cubana quase me enlouqueceu’”, relata T. J. English.

“Brando era um congueiro (tocador de conga) amador. Enquanto estava em Havana, ele foi numa louca caça noturna pela tumbadora perfeita. Ele ofereceu comprar uma de Romeu, mas foi recusado. Brando deixou o clube com duas das mais lindas modelos do Tropicana e seguiu pela noite. Sungo Carreras [ex-jogador de baseball] levou Brando para o Club Choricera, onde o ator pôde tocar conga ao lado do grande timbaleiro Silvano ‘El Chori’ Echevarría. Brando comprou um par de congas.”

O ator George Raft atuou como anfitrião do cassino e da boate do Hotel Capri. Elizabeth Taylor, Eddie Fisher, Edith Piaf, Tyrone Power, Ava Gardner e Cesar Romero era habitués de Havana. “A ilha era o lugar onde estar.”

Tropicana faz parte da história cultural de Cuba

A boate Tropicana era onde quase tudo acontecia. “As meninas” do “Tropicana eram conhecidas no mundo todo por sua voluptuosidade e o cabaré trazia um tipo de musical de plumas que seria copiado em Paris e Las Vegas. (…) Todo mundo que era alguém queria ser visto no Tropicana”.

Ofelia Fox, mulher do dono do Tropicana, Martín Fox, teria dito: “A natureza definidora de um cubano é uma pessoa que faz de tudo por um minuto de prazer”. Martín Fox tinha ligações com os mafiosos.

Um dos segredos do sucesso do Tropicana era o coreógrafo Roderico Neyra, conhecido como Rodney. Beny Moré era “conhecido como o maior artista cubano de todos os tempos”. “Um compositor completo e líder de banda que atingiu aclamação pública com a orquestra Pérez Prado, Moré era tão hábil tocando um mambo tórrido como era com um bolero suave. Sua música mais conhecida” era “o bolero sedutor ‘Como fue’.” Ele era “El Bárbaro del Ritmo”.

As histórias de sexo são incríveis. Os turistas, especialmente os norte-americanos, adoravam as sessões de sexo explícito.

Frank Sinatra, amigo do mafioso Sam Giancana, e o presidente John Kennedy

Santo Trafficante teria organizado orgia para Kennedy

Como Cuba era o paraíso dos americanos, o jovem senador John Kennedy também esteve por lá, em 1957, acompanhado do senador George Smathers, da Flórida. Santo Trafficante e Evaristo García organizaram uma orgia para Jack Kennedy. O futuro presidente dos Estados Unidos passou a noite com “três lindas prostitutas”. “Sem que Kennedy soubesse, a suíte” tinha “um espelho de dois lados que permitia que Trafficante e García observassem o encontro de Kennedy do outro quarto”, relata T. J. English.

O pianista Bebo Valdés, autor de um magnífico CD (e DVS) com o cantor espanhol Dieguito Cigala, diz que a prostituição era forte. “Os americanos do Sul queriam apenas negras”, revela.

Juan Manuel Fangio, piloto de Fórmula 1 (sim, Cuba fazia parte do circuito internacional), foi sequestrado pelos revolucionários cubanos. E, depois, saiu falando bem dos fidelistas.

[Resenha publicada pelo Jornal Opção em 2011]

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.