Macron quer uma França eurófila e Le Pen um país nacionalista

São dois engenheiros sociais, que buscam moldar os indivíduos de seu país conforme a “sua visão”

Jales Naves Júnior

Especial para o Jornal Opção

Ocorreu no domingo, 10, a primeira etapa das eleições presidenciais francesas. Avançaram para o segundo turno o candidato à reeleição Emmanuel Macron e Marine Le Pen.

A França povoa o imaginário público como um país chic, com a capital Paris sendo conhecida pelos seus sofisticados cafés onde “grandes pensadores” se encontrariam para travar “grandes debates”. Estes eruditos definiriam o cliché do que viria a ser o “intelectual público” no mundo, principalmente em sua dimensão estética. Não há quem não veja um retrato de Jean-Paul Sartre e, mesmo que não o reconheça imediatamente, não diga “sei quem é, mas me foge o nome”. E não há quem não conheça um jovem universitário das humanidades que não suspire com a sua imagem ou com a de algum de seus pares, ansiando por copiar seus trejeitos e as suas golas rolês. Essas personas eram possuidoras de um egocentrismo inabalável, um ar pretensioso de quem desvendou os mistérios do planeta e agora traz à plebe ignorante o evangelho de um novo mundo a ser criado à sua imagem e forma.

Politicamente eram todos revolucionários. Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Simone de Beauvoir et caterva se puseram imediatamente a serviço dos projetos políticos utópicos, patinando entre stalinismo e maoísmo conforme os sabores do momento, sempre ignorando as notícias do fracasso socialista que chegavam ao Ocidente e nunca oferecendo o mea-culpa de quem teria uma gota de integridade intelectual. Foucault, em sua juventude apoiador de Stálin e, depois, de Mao Tsé-tung, segue como autor mais lido dentro das universidades ao redor do globo e, para o espanto de ninguém, das brasileiras.

Marine Le Pen e Emmanuel Macron: visões diferentes a respeito da França e do mundo | Foto: Reprodução

Mas, enfim, qual a relevância dessa digressão para as atuais eleições francesas? É que a onipresença de tais figuras no debate público por quase um século legou ao inconsciente coletivo francês a sua ideologia política de esquerda. E por isso na França a esquerda é esquerda e a “direita” também. Le Pen é apresentada na mídia internacional, por unanimidade, como a candidata de “extrema-direita”, mesmo que suas propostas coincidam com as de Macron e pouco divirjam daquelas dos outros pleiteantes, que em tese variariam ao longo da ampla gama do espectro político. Se todos concordam em praticamente tudo, os qualificadores “esquerda” e “direita” se tornam levianos, pois perdem seu poder descritivo e analítico. Quando as semelhanças são tantas, só resta debater no que consistem as divergências. E estas afinidades, muito mais numerosas e consequentes, são quem nos dão a verdadeira tônica da filosofia política que subjaz a candidatura de ambos. Só remanesce, então, escrutinar a essência das propostas dos candidatos e somente a partir daí aplicar qualquer rótulo.

Marine Le Pen afirma que gostaria de ver seu país alinhado aos ideais nacionalistas, este construto arbitrário cunhado durante o Bonapartismo e seus regimes subsequentes. Emmanuel Macron quer uma França eurófila, participante ativa da “comunidade europeia” e sua distante burocracia em Bruxelas. São dois engenheiros sociais, que buscam moldar os indivíduos de seu país conforme a “sua visão”. E ter um “projeto de país” é justamente sobre o que Edmund Burke, pai do conservadorismo político, nos alertava ao observar as catástrofes da Revolução Francesa.

Burke acreditava que a identidade se construía de baixo para cima. A sociedade depende de laços estreitados por afeição e lealdade, de interações cara a cara. Na família, nos clubes, locais de trabalho, colégio, comunidades religiosas, praças, é onde as pessoas verdadeiramente interagem. Quando as sociedades são organizadas por cima, seja por uma ditadura revolucionária ou pelos éditos de um bureau despersonalizado, e quando a sociedade civil é confiscada pelo Estado, o indivíduo se recusa a agir e a se definir por si próprio e se torna presa fácil de projetos autoritários como os de Le Pen e Macron, embora cada um venha com seu sabor diferente. Burke advogava por uma sociedade constituída por instituições nascidas do nosso ímpeto natural de associação. E estas formas de organização social não são costumes arbitrários, definidos em um departamento estatal. Elas são formas dispersas de conhecimento, construídas através dos tempos, contendo os resíduos e os filtros de séculos de tentativa e erro, enquanto as pessoas tentam calibrar suas condutas àquelas dos outros. E, assim, segundo Burke, um povo constrói sua própria identidade, independentemente de sua composição religiosa ou étnica e sem a imposição de um mandatário qualquer.

Já no campo econômico Marine Le Pen prega o velho mercantilismo de Jean Baptiste Colbert (1619-1683) e seu protecionismo tarifário, buscando taxar empresas que terceirizem a produção para território estrangeiro, entre outras medidas. Macron segue logo atrás, embora com retórica um pouco mais aberta. Desta forma, as concordâncias existentes entre os dois, amplamente ignoradas, são de essencial relevância para verdadeiramente defini-los: ambos, entre minúsculas concessões em contrário, acreditam piamente na absoluta presença do Estado nacional em todos os detalhes da vida do cidadão francês. Divergem, somente, nas minúcias, como se a solução estivesse não em um sistema político diferente, mas fosse surgir de ajustes finos a serem determinados por quem ocupar o Palácio do Eliseu.

Declarar Marine Le Pen “de direita” é, então, não somente uma falácia, mas uma estratégia perniciosa. Ela cria a ilusão de que o espectro político inteiro já está devidamente ocupado e sufoca verdadeiras iniciativas liberais/conservadoras de emergirem e ocuparem um espaço relevante no debate público francês. Mas tal confusão está presente no mundo desde o fim da Primeira Guerra. Forjou-se um “consenso acadêmico” de que o poder estatal deveria sempre crescer, restando discutir apenas sobre quais bases filosóficas este poder totalitário encontraria legitimidade. De um lado aqueles que imaginavam que o paraíso na Terra seria atingido por meio de uma revolução do proletariado comandada pelos consagrados intelectuais. Do outro lado aqueles de mesmíssimo projeto utópico, mas com equivocados fundamentos nacionalistas e étnicos, não menos autoproclamados ungidos.

E a França segue em busca de um novo salvador da pátria. Mas, infelizmente, o reino de Deus não é deste mundo.

Jales Naves Júnior é advogado e colaborador do Jornal Opção.

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