MacBeth não é um Galã de Hollywood (nem branco nem preto)

Os que esperam grandes embates cênicos entre Washington e McDormand se sentirão frustrados. A lady MacBeth de Joel Coen é quase um personagem secundário

Halley Margon

De Barcelona

Não faz muito tempo, me referi aqui à apresentação da opera “Lady MacBeth do Distrito de Mitzensk”, de Dmítri Chostakóvich no Teatro Bolshoi de Moscou, na noite de 26 de janeiro de 1936. “Composta em 1932, estreada dois anos depois no Teatro Mikhaylovsky, em Leningrado, com enorme sucesso, repetido em seguida nos principais centros culturais da Europa, a peça foi inspirada numa novela de Nikolai Leskov, de 1865, e como escreve Alex Ross em “O Resto é Ruído” (Companhia das Letras, 688 páginas, tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz Kuck), conta ‘a história de uma dona de casa que deixa uma fileira de cadáveres em sua trajetória’” — informava o artigo.

Por que chamar a atenção para aquela noite específica?

Porque foi exatamente naquela noite que “o secretário-geral decidiu deixar seu gabinete de trabalho para ir ao teatro assistir à peça (…) Porque o secretário-geral apreciava a boa música, o que fazia parte da cultura do seu povo. O secretário-geral era um homem do povo, com uma arraigada crença na mítica que formatava (para eles próprios) o mundo eslavo e o russo em particular, tanto quanto os czares, aliás. O secretário-geral era um homem genuinamente ligado às tradições da sua pátria — fosse por temperamento, hábito, conveniência, estreiteza de espírito e/ou horizontes, tudo isso ao mesmo tempo, ou fosse lá pelo que fosse. Assim, permaneceu absorto e impassível durante os três primeiros atos (…) Mas antes que se iniciasse a quarta e derradeira parte, abandonou o camarote de volta para Kremlin, ou rumo a dacha de Kuntsevo, a 15 quilômetros dali (…)” — dizia ainda o artigo.

“Sete meses depois, no começo do outono daquele mesmo ano, o secretário-geral trocou o funcionário Guerinck Iagoda pelo funcionário Nikolai Iejov no comando da Secretaria de Assuntos Internos. Desde a chefia da NKVD, a partir de abril de 1938, o funcionário Iejov dirigiu aquele que ficou conhecido como o Grande Expurgo. A NKVD recebeu, então, um orçamento extraordinário de 75 milhões de rublos e a partir dali ‘foram atribuídas cotas de prisões e execuções para cada região e república’. Como resultado, ‘entre o verão de 1937 e novembro de 1938 foram detidas cerca de 1,6 milhão de pessoas e executadas umas 700 mil’ (escreve Alexandra Popoff em “Vasili Grossman y el Siglo Soviético”)” — informava o texto, antes de concluir:

“A dona de casa do distrito de Mitzensk havia entrado em plena atividade, praticando com minúcia e destreza de mestre inigualável sua economia doméstica.”

Muitos(as) MacBeth

Denzel Washington e Frances McDormand em MacBeth | Foto: Divulgação

 A face do verdadeiro MacBeth, o de Shakespeare, em nada deveria se aproximar dos fascinantes rostos dessas figuras que nos encantam por sua beleza, pelo carisma ou pelo poder dramático de suas expressões

 Joel, o mais velho dos Coen, acaba de dirigir e lançar uma nova versão da talvez mais extremada e atual das tragédias do bardo, com Denzel Whashington e Francis McDormand nos papéis principais e uma deslumbrante fotografia expressionista em preto e branco. Polanski, no meu humilde ponto de vista, segue sendo de longe o realizador da melhor versão — é batata, não há filme que o marido da sra. Emmanuelle Seigner faça a partir de alguma obra de teatro que não resulte num grande filme. Em 2015 foi a vez de Michael Fassbender encarnar o general escocês e Marion Cotillard sua devotada esposa. No ano seguinte, apareceu uma versão para cinema do romance de Leskov dirigida pelo britânico William Oldroyd e com Florence Pugh no papel título, chamada simplesmente “Lady MacBeth”.

Bem-vistas as coisas, esse é que deveria ser o título da tragédia original — assim como Otelo, o Mouro de Veneza deveria titular-se muito mais apropriadamente Iago. Ou não é ela a verdadeira protagonista, a chama que alimenta o drama? Curiosamente, no seu MacBeth, Joel Coen opta por criar uma leitura inversa. E os que esperam grandes embates cênicos entre Washington e McDormand se sentirão frustrados. A lady MacBeth de Coen é quase um personagem secundário. Para os apaixonados da diabólica (e poderosa) figura é como se faltasse algo. O que de nenhum modo deve ser visto como um problema, é apenas uma opção de leitura.

Mas se alguma coisa não “cuadra” (para usar uma expressão comum na Espanha), e bem ao contrário do que poderíamos imaginar a princípio, é justamente a escolha desses dois grandíssimos atores para representarem esses tão tremendos seres do mal. O que há na nossa memória fílmica que não seja positivo e bom quando ela nos conduz às figuras de Denzel Washington e Frances McDormand? Dentro de nós, nas nossas recordações, eles são duas entidades permanentemente queridas, seres do bem e da equidade. Não há técnica de encenação dramática capaz de superar esse choque de experiências. E, não, não há ou pelo menos não parece haver por parte do diretor qualquer intenção de gerar alguma simpatia subliminar por aqueles dois personagens desmedidamente ambiciosos, capazes de levar a cabo os mais vis dos atos para abocanhar e manter o poder.

Fantasmas do passado (recente)

Além de Washington/McDormand e Fassbender/Cotillard o casal de regicidas e incontroláveis assassinos já foi representado, no cinema, por Orson Welles/Jeanette Nolan na versão do diretor de Cidadão Kane de 1948, Jon Finch/Francesca Annis na de Polanski, ou Sean Connery numa produção para a TV de 1961.

Mas na realidade a face do verdadeiro MacBeth, tanto a daquele que inspirou o gênio na composição da tragédia quanto a do MacBeth real (sic), o de Shakespeare, é claro, em nada deveria se aproximar dos fascinantes rostos dessas figuras que nos encantam por sua beleza, pelo carisma ou pelo poder dramático de suas expressões. MacBeth muito provavelmente era feio e repulsivo assim como o são suas replicações na atualidade. É possível vê-lo, por exemplo, com nitidez cristalina na imagem sempiterna, ainda agora, do 45 presidente americano, com seu formidável exército de genuínos compatriotas prontos para de novo assaltar o Capitólio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.