Euler de França Belém
Euler de França Belém

Luva de Pedreiro, Receba: Iran é um gênio do marketing nascido do povão

Publicitário nato, Iran Ferreira mostra que, ao contrário de muitos — que são usados —, sabe usar as redes sociais para se tornar famoso

“No futuro todos serão famosos por 15 minutos.” A frase de Andy Warhol é perfeita para os tempos atuais. Embora tenha falecido em 1987, há 35 anos, o artista plástico e cineasta antecipou o que está acontecendo hoje.

A internet, com suas redes sociais e aplicativos espetaculosos — tudo se tornou “show”, inclusive as notícias —, desterritorializou a fama. Antes, gente do povão não conseguia ser famosa. Seu papel era o de cultuar estrelas do cinema, das telenovelas e do mundo futebolístico. Agora, nos novos tempos midiáticos, tudo mudou. Anônimos se tornam famosos da noite para o dia. Alguns desaparecem e cedem lugar para novos famosos, que, a seguir, se tornam anônimos outra vez. Mas alguns são mais longevos e, de alguma maneira, aprendem a profissionalizar o que, antes, era amadorismo. Nem todo mundo é famoso, mas o número de famosos é muito maior do que quando Warhol disse a sua frase emblemática.

Iran Ferreira: craque dos campos de futebol e das redes sociais | Foto: Reprodução

“Excesso” de famosos é bom ou é ruim? De alguma maneira, é positivo, pois desmitificou a fama e os famosos. Pode-se dizer que, se (quase) todos podem ser famosos, a rigor, ninguém é mais realmente famoso? Não é bem assim. Na verdade, o estrelato de determinadas pessoas dura pouco, mas há muitos que permanecem famosos. Cristiano Ronaldo, Brad Pitt, Angelina Jolie, Madonna, Messi, Anita, Neymar, os famosos-famosos — “construídos” a partir de uma determinada profissão ou função —, são famosos há tempos e certamente continuarão no panteão por mais alguns anos. Talvez algum deles se torne um Flaubert, Clarice Lispector, Pelé, Cartola ou Marlon Brando — em termos de fama duradoura. Outros ganharão um rodapé de algum destaque na história.

No momento, os indivíduos, chamados de usuários, não parecem preocupados com o futuro, ou seja, a permanência. Quase tudo se tornou, sendo entretimento, provisório. Tudo, para usar termos antigos, é “curtição” — o “maior barato”.

Quem está na moda é Iran Ferreira, de 20 anos. Se você não sabe quem é Iran, um garoto carismático, está por fora, vivendo no mundo da lua — é nefelibata —, e deixou de ser terráqueo.

Iran Ferreira faz “malabarismo” (com uma ajudinha da câmera?) com uma bola de futebol, é um craque, digamos assim. Mas seu sucesso advém menos de sua arte futebolística e muito mais do que como divulga o que faz, com palavras — bordões — sintéticas, nas redes sociais.

Nascido em Quijingue, na Bahia, Iran Ferreira exibe sua craquice num campo, sem grama, no distrito de Tabua. A partir de agora, uso, como base de meu texto, uma reportagem do “Estadão”, com o título de “‘Luva de Pedreiro’, Iran Ferreira inspira milhões de fãs e extrapola fronteiras no futebol: ‘Receba’” (terça-feira, 22), assinada por Marcos Antomil.

Iran Ferreira: torcedor do Vasco e uma estrela | Foto: Reprodução

Ao término de suas divulgações nas redes sociais, com suas jogadas espetaculares, Iran, o Luva de Pedreiro, diz: “Receba!” Seus vídeos curtos — símbolo da contenção de um homem do povo — conquistaram o mundo.

Há um ano, em 2021, o wahwoliano Iran Luva de Pedreiro Receba postou seu primeiro vídeo no TikTok. Começava a surgir um craque, talvez menos do campo futebolístico e mais das redes sociais. Um ano depois, aperfeiçoada a divulgação de sua arte — que é corporal e um fenômeno de linguagem, da palavra —, Iran bombou. Consta que até no Irã.

Nos vídeos, ajudando a “ressuscitar” o futebol mundial — seus craques, Messi, Cristiano Ronaldo, Benzema e, até, Neymar estão ficando velhos —, Iran veste camisas de vários times de futebol, como a do Vasco, time de seu coração. Viajou de avião para conhecer a sede do clube, no Rio de Janeiro, e fez mais sucesso do que o Vasco. As pessoas queriam falar mais do Iran Esporte Clube do que do Machão da Gama (criação do narrador esportivo José Carlos Araújo).

A fama de Iran globalizou-se. Recentemente, depois de uma cobrança de pênalti, o atacante Serge Gnabry, ecoou o brasileiro: “Obrigado, Deus. Obrigado, família”. Só faltou citar a famosa Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Iran Ferreira: fraco? Nada disso; o nordestino é, antes de tudo, um forte | Foto: Reprodução

Neymar e Richarlison, da Seleção Brasileira, “elogiaram a técnica” de Iran, conta Marcos Antomil.

Sabe o craque português Cristiano Ronaldo, estrela do time britânico Manchester United? Pois bem: quem mais inspira seu filho é Iran. O Barcelona e a Fifa também já se renderam ao brasileiro. De acordo com Marcos Antomil, “‘Receba’ já é bordão no Vaticano”. Faz bem o papa Francisco, um grande homem, ao reconhecer a arte do brasileiro — que, por suas palavras, é religioso, uma espécie de criador de uma “teologia da libertação” sem a ideologia de esquerda.

As jogadas e as palavras (talvez mais estas) de Iran Receba conquistaram, em definitivo, o mundo — via redes sociais e aplicativos. Marcos Antomil informa: “No TikTok, tem 9,5 milhões de seguidores; no Twitter, são mais de 455 mil, enquanto no Instagram, o número chega próximo a 6 milhões. Ele é o único homem brasileiro seguido pelo perfil do Instagram. Sua mais recente criação foi um canal no YouTube, que conta com 631 mil inscritos. Nos últimos dias, o ‘Cara da Luva de Pedreiro’ viu o mar e andou de avião pela primeira vez e pôde comer batata frita, algo que nunca tinha feito na vida”. Não tenho informações suficientes para contestar o redator de “O Estado de S. Paulo”. É certo que o jovem não havia viajado de avião antes. Mas será mesmo que nunca havia comido pizza e batata frita? Bem, isto não tem a mínima importância. O que importa mesmo é que, como Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, o pacífico Iran, com suas energias positivas e não nucleares, conquistou o mundo. Com a arte dos pés e o dom da palavra.

Fã de Cristiano Ronaldo, que brilhou na Espanha, na Itália e, agora, rebrilha na pérfida Albion, Iran, o Receba, relata: “Comecei a jogar bola com 5 anos. Sempre tive aquele sonho de ser jogador profissional, mas as coisas são difíceis”. Por que o influenciador digital, espécie de rei das redes sociais, ficou conhecido como “Luva de Pedreiro”? Marcos Antomil explica: “O filho de Lenilza e Arivaldo começou a vestir as luvas como inspiração pelo uso do acessório por alguns jogadores. Decidiu comprar as suas em um depósito de material de construção. No começo, o apelido ‘Luva de Pedreiro’ foi criado para zombar de Iran, que decidiu reverter a situação e tomou para si o apelido. ‘Fui muito criticado, mas, como sou brasileiro, não ligo para isso’”. O uso da crítica como anti-crítica, e alimento de seu próprio crescimento, prova o quão Iran Luva de Pedreiro é inteligente e perspicaz.

No seu canal do YouTube, Iran Luva de Pedreiro apresenta seus colegas de futebol, sugerindo que têm importância em sua vida e no seu sucesso midiático. “Futebol é vida, é alma. Sem futebol, não sou nada. O maior prazer da vida para mim é jogar futebol”, afirma Iran, um persa dos velhos tempos. Quem sou eu para discordar de um jovem que faz tanto sucesso e tem domínio do que faz e diz? Porém, se me fosse permitido dizer alguma coisa, e aliás, já estou dizendo, diria que Iran está vencendo, fazendo sucesso, por causa do futebol e, sobretudo, pelo uso preciso das palavras. Sua concisão, ao expressar sua religiosidade “envolvida” pelo paganismo do esporte, é de rara inteligência. “Receba” e “Luva de Pedreiro” são criações espontâneas de um publicitário nato. “A Luva de Pedreiro foi um diamante bruto que eu soube lapidar. E é assim que a mágica acontece”, afirma, inteligentíssimo, Iran.

Confesso, por fim, minha ignorância. Quando o médico Mayler Olombrada (que me repassa, toda semana, os principais jornais espanhóis — somos aficionados pelos acontecimentos da Espanha e pela Língua Espanhola), com a colaboração de seu primogênito, Luca, me falou sobre Iran, o Receba, fiquei a ver navios (o esclarecimento ocorreu no domingo, 20). Nada sabia do assunto. Pacientemente, ele me explicou quem era, sendo, até, corrigido pelo filho. Mayler até bronqueou: “Deixa disso, jornalista!”. Rimos, todos, eu, Henrique Pandim, Michelle e o próprio Mayler. Até o pequeno Emanuel (filho do Henrique), de 3 anos, já fala “Receba”.

Agora, é torcer para que Iran, se consolidando como o “persa” do Brasil, se torne não um fenômeno warholiano, e sim pós-warholiano.

Ah, sim, li duas reportagens sobre Iran. Nenhuma diz se Luva de Pedreiro-Receba está ganhando dinheiro. Eu, que já me tornei fã do iranismo, espero que sim.

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