Euler de França Belém
Euler de França Belém

Lula, Zé Dirceu e Palocci, protagonistas da esquerda, destruíram o PT e se destruíram

A história vai julgá-los tão-somente pela corrupção? É provável que, com mais nuances e sem histeria, sejam reavaliados pela história

Como o ex-presidente Lula da Silva e os ex-deputados e ex-ministros Anto­nio Palocci e José Dirceu serão avaliados no futuro? Não sei, porque minha bola de cristal é a razão e, como tal, não dá para fazer determinadas previsões. O que sei é que, para pesquisadores conscienciosos — que examinam os fatos para além dos clamores e dores emocionais produzidos pelas circunstâncias —, o que se busca é uma visão ampliada dos personagens históricos. A tendência é que a avaliação ultrapasse tão-somente o veio da corrupção e se investigue a mina completa, tentando explicitar toda a história, e não apenas um aspecto. O historiador costuma avaliar o personagem histórico pela média, não necessariamente pelos extremos. Mesmo monstros políticos, como Hitler e Stálin, estão sendo estudados com menos paixão, com a crítica-ataque sendo substituída por pesquisas meticulosas. O objetivo não é perdoar seus atos, absolutamente lamentáveis, mas compreender porque suas sociedades os produziram, os aceitaram e os seguiram e como tais líderes erigiram uma nova sociedade. Entender determinados equívocos abissais pode contribuir, eventualmente, para não repeti-los. Ressalve-se que o filósofo britânico John Gray pontua que, como a história não é linear e o caos pode, sim, retornar, conhecer erros do passado não significa necessariamente que os indivíduos não vão repeti-los, ainda que com novas especificidades. Mas pode-se produzir uma espécie de “sinal de alerta”.

Pode-se sugerir que os principais criadores do PT, Lula da Silva e José Dirceu, são, ao lado de Antonio Palocci, seus principais destruidores? Sim.

José Dirceu

José Dirceu: o ex-deputado moderou o PT, aproximou-o do Brasil e foi
um dos principais responsáveis pela vitória de Lula da Silva em 2002

Mas José Dirceu, além dos outros, é mesmo a desgraça da humanidade? É provável que não. José Dirceu e Lula da Silva certamente contribuíram para, pós-ditadura — depois de um período de certo radicalismo, entre as décadas de 1980 e 1990 —, moderarem a esquerda patropi. Sem os dois, parte da esquerda, sem expectativa de poder, possivelmente teria continuado a defender a luta armada e caminhos que, se levam à ditadura, não contribuem para o fortalecimento da democracia, nem a “social”. José Dirceu tinha um papel pendular no PT — ora radicalizando-o, ora moderando-o. No geral, era um ponto de equilíbrio. Embora visto como um dos “homens de Cuba” no Brasil — de fato, mantém (ou mantinha) contato estreito com dirigentes do país de Raúl Castro —, José Dirceu, dada certa moderação, contribuiu para aproximar o PT do Brasil real. O empresário José “Coteminas” Alencar, que se tornou vice de Lula da Silva, aproximou-se do petismo graças, em larga medida, ao ex-guerrilheiro (se é que se pode chamá-lo de guerrilheiro ou ex-guerrilheiro). Ao contrário do que muitos pensam, José Dirceu não é radical, mas sabe usar, como poucos, o radicalismo para conquistar aquilo que quer. Ele usou os radicais contra os moderados e os moderados contra os radicais. Os radicais que não se submeteram ao seu controle — como Heloísa Helena — foram expurgados do PT.

José Dirceu sempre foi corrupto? Não. Pelo menos não em termos financeiros. Ele era um quadro ideológico do PT — dos mais refinados politicamente. É provável que tudo começou com o mensalão e o fantasma do impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992. (A queda do presidente eleito pelo PRN tem mais a ver com sua desconexão com os políticos, com as bases parlamentares — deputados federais e senadores —, de seu atrito visceral com a imprensa, que o apoiou na campanha, do que com corrupção de seu governo.) O mensalão, ao menos num primeiro momento, era uma tentativa de formatar base política no Congresso e garantir a governabilidade. Porém, como os meios corrompem os fins, como entendeu o filósofo italiano Norberto Bobbio, acabou se tornando uma indústria da corrupção e o petismo terminou por chafurdar na lama dos reais graúdos. Petistas começaram a “roubar” via mensalão tanto para si quanto para os aliados. Ali começava a “liberação” e “suspensão” do limite ético que desaguou no petrolão. É provável que, por intermédio do mensalão, José Dirceu, que é mais estrategista do que Lula da Silva, ainda que não tenha a sintonia popular deste, avaliou que estava iniciando a montagem de uma base política que o apoiaria na sucessão de Lula, em 2010.

O que faltou a José Dirceu, se era um estrategista? Talvez senso histórico. Vale registrar que se produziu o equívoco, mais típico de ditadores — e aparentemente o presidencialismo patropi, mesmo democrático, parece deixar a impressão nos políticos de que pode tudo —, de que, uma vez no poder, se pode tudo. Quando se pensa assim, perde-se a noção de limite, a capacidade de contenção. Para usar uma palavra mais chã, pode-se dizer que faltou a José Dirceu, político de méritos, a grandeza de um Juscelino Kubitschek. Pensou exclusivamente no momento e esqueceu a história. Desde a “queda” de José Dirceu, que era seu verdadeiro líder, o PT jamais foi o mesmo. Ficou menor, menos partido, e se tornou uma célula de um, digamos, quase-movimento — o lulopetismo. A força excessiva de Lula da Silva é equivalente à fragilidade do PT. José Dirceu era o contrapeso que impedia que o ex-operário se tornasse o quase-Fidel Castro do PT. Quase. Porque, gostemos ou não, Lula da Silva é democrata.

Lula da Silva

Lula da Silva: o ex-presidente, como maior político da esquerda brasileira,
contribuiu para que ela abjurasse a luta armada e se tornasse democrática

Dados os problemas atuais, como a corrupção e os processos judiciais, é muito difícil avaliar Lula da Silva, que merece ser chamado de “grande” político.

Lula da Silva provou que, no poder, a esquerda não cospe fogo e não abomina o mercado. Seu governo, sobretudo o primeiro, foi racional e democrático. Para além dos arroubos autoritários — derivados da esquerda do PT, de “políticos” como Franklin Martins, o formulador do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, na década de 1970 —, Lula da Silva não tem tanto a ver com Raúl Castro e o chavismo. Trata-se de um socialdemocrata de matiz cristão e um nacionalista não-bolivariano. Como presidente, embora entendesse pouco de economia e gestão, aprendeu o básico e percebeu que era preciso seguir mais o receituário ortodoxo de Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, e do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, do que as ideias mirabolantes, socialmente empolgantes, dos esquerdistas radicais. O presidente red entendeu que não podia “derrubar” a estabilidade da economia criada, a duras penas, pela equipe do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Era exatamente Antonio Palocci quem “decodificava” Hen­ri­que Meirelles para Lula da Silva. Ele dizia que, se trocasse as ideias liberais pelas ideias da esquerda, o governo petista naufragaria. Fe­liz­mente, para a sociedade, Lula da Sil­va escutou e acatou as ideias do ministro. O petista-chefe deve muito ao médico de Ribeirão Preto. As­sim como o país vai, um dia, “agradecer” seu pragmatismo benfazejo.

A corrupção se tornou sistêmica no governo de Lula da Silva, mas não governava inteiramente. Por quê? Porque Lula, mesmo sem preparo intelectual, é inteligente e, em especial, é um político e líder nato. Havia corrupção, mas a economia não ia mal — o que mantinha certo equilíbrio, inclusive no Congresso Nacional. A “paz” era porque todos roubavam? Talvez não. A “paz”, ou relativa “paz”, tinha origem na capacidade do petista-chefe de conciliar os grupos contrários, dos radicais aos reacionários. Porém, ao “produzir” uma candidata (que não lhe fazia sombra) — Dilma Rousseff —, que não soube entender o Brasil real, Lula da Silva “cavou” a sepultura política do PT e, quiçá, a sua. A ex-presidente não é do tipo que rouba para si — ao menos é o que parece —, mas se equivocou ao achar que bastava gritar com os “meliantes”, termo forte mas verdadeiro, que deixariam de ser “meliantes”. Eles apenas fingiam que estavam obedecendo e continuavam fazendo aquilo que queriam — roubar de manhã, roubar à tarde e roubar à noite. Na madrugava, depois de beber vinho de alta qualidade e comer nos melhores restaurantes, descansavam para assaltar os cofres públicos no dia seguinte. Não se está dizendo que a ex-guerrilheira é ingênua e que não sabia de nada. Sabia, mas sua corrupção é mais moral do que financeira, sem deixar de ser financeira, porque permitiu a roubalheira.

Dilma Rousseff destruiu, com sua falta de aptidão para o jogo político — quem não tem paciência para ouvir o que não se gosta de ouvir não deve participar da vida política —, a base política e eleitoral pacientemente construída por José Dirceu e Lula da Silva. Ela “deixou” roubar, mas, ao contrário de Lula da Silva, não dava atenção (carinho?) aos homens dos bolsos gigantes (as turmas do PT, do PMDB de Michel Temer e do PP de Ciro Nogueira). Um dos problemas graves do governo de Dilma Rousseff, além da corrupção, era sua inaptidão para perceber os quadros reais da economia brasileira, suas especificidades. A ampla e necessária discussão sobre a corrupção por vezes esconde outro problema grave: a crise atual decorre, em larga medida, da política econômica errática de seu governo. O problema de seu governo não era apenas a corrupção, mas também, talvez sobretudo, a incompetência em termos de gestão.

Antonio Palocci

Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, pode ser o elemento crucial
para concluir a demolição da imagem do ex-presidente Lula da Silva

Lula da Silva e Antonio Palocci estão se atacando e o que um diz do outro é um retrato quase perfeito dos dois. Ambos são frios, dissimulados, competentes e inteligentes. Adeptos da realpolitik e sem uma gota de romancismo (Dilma Rous­seff acha que ler Philip Roth ajuda a en­tender política, quando, na verdade, ajuda a entender literatura; o político, como sabem Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, sem abdicar dos livros, precisa ler os livros da vida, saber o que pensam os políticos e os cidadãos reais de seu tempo). Chegam a criticar o cumprimento frouxo de Antonio Palocci, como se isto tivesse alguma importância — certas firmezas são estudadas e, portanto, enganadoras —, mas é praticamente impossível, apesar da imperdoável corrupção, deixar de percebê-lo como um quadro qualificado do PT. Ex-quadro, por certo. No governo de Lula, com sua parceria com Henrique Meirelles, um chicago-old, contribuiu, de maneira decisiva, para o equilíbrio das contas públicas, para manter certo ajuste fiscal. É um realista em tempo integral — daí sua proximidade com Lula da Silva. Dado seu realismo absoluto, o ex-presidente e Antonio Palocci são políticos amorais. Eles fazem o que tem de ser feito para governar. Não hesitam, não tem limites e, por isso, se amavam e, agora, se odeiam. São muitos parecidos. Lula da Silva submetia-se, nos bastidores, às melhores ideias de Antonio Palocci. O ex-ministro submetia-se, à luz do dia, à liderança de Lula da Silva. Era um pacto mais do que faustiano. Um pacto, na verdade, de quase iguais, de seres que foram feitos para caminharem juntos. Antonio Palocci era o homem de Lula da Silva, sua alma e corpo, no governo de Dilma Rous­seff. Era o realista adequado para mo­derar a, digamos, idealista-Urtigão. Sua queda talvez tenha alimentado o retumbante fracasso da presidente, que passou a ouvir o nefelibata (não quanto a dinheiro, afirma o príncipe Mar­celo Odebrecht) Guido Mantega.

Como Lula da Silva, Antonio Palocci, a partir de certo momento, entendeu que era possível ficar rico e começou a “roubar”, não só para o partido, para manter o poder, mas também para si. O homem de Estado, que de fato é ou era, perdeu-se no meio do caminho.

O PT perdeu José Dirceu, Antonio Palocci e está perdendo Lula da Silva. Portanto, não terá como sobreviver, exceto como um partido pequeno e até um nanopartido. Mas o país também perde políticos que, no poder, desradicalizaram a esquerda, apesar de eventuais discursos radicais, que, porém, não foram levados à prática.

Mais uma coisa: José Dirceu, Antonio Palocci e Lula Silva “mataram” o PT e, no percurso, “se mataram” politicamente. O PT permanece apostando em Lula Silva para 2018 não porque acredite que será candidato, e sim porque não tem alternativa. Sem Lula da Silva, que certamente não terão para a próxima eleição, resta aos petistas convocarem o espírito de John Donne, que pode ser acessado por meio de sua poesia, e perguntar: “Por quem os sinos dobram?” Dobram, com certa má vontade e com certo prazer, pelo PT e por Lula.

A esquerda petista só ressurgirá se entender que Lula da Silva “morreu”… em termos políticos. Ao enfrentá-lo, sobretudo ao entregá-lo, Antonio Palocci percebeu, com sua aguçada intuição permeada pela razão fria e dilacerante, o que está acontecendo. Ele sabe que o ex-presidente não “morde” mais — nem agora nem a partir de 2019. Lula da Silva tornou-se um problema judicial, embora continue posando, nas audiências, de candidato a presidente da República e de político que é capaz de enganar todos…

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Arthur de Lucca.

Caro Euler de França,

Falou e disse.
‘Apenasmente’ como diria o Odorico da novela, faltou incluir o episódio de que – no meio do caminho tinha o “petrolão”.
Não só…”Porém, ao “produzir” uma candidata (que não lhe fazia sombra) – Dilma Rousseff -, que não soube entender o Brasil real, Lula da Silva “cavou” a sepultura política do PT e, quiçá, a sua.” Teve os percalços do “mensalão” e “petrolão” que afundou o Titanic PT.
Se a história mostrar “o bem” e “o mal” que essa tchurma aprontou, acredito que ficarão devendo.
Um amplexo do
Arthur de Lucca.
Goiânia. Go. 21/09/17.