Euler de França Belém
Euler de França Belém

Luís Nassif terá de pagar 50 mil reais a Ali Kamel. Guerra suja entre jornalistas é perda de tempo

Jornalistas brasileiros, dos mais qualificados, estão participando de batalhas que, no lugar de promover, fecham e empobrecem o debate. Resenha de Ruy Fausto na Piauí é modelo de crítica contundente e respeitosa

[Luís Nassif, à esquerda, e Ali Kamel, à direita: uma guerra inútil; foto do site Comunique-se]

Luís Nassif é um dos mais qualificados jornalistas de economia do País — e, quando lhe sobra tempo, escreve muito bem sobre música. Durante anos, escreveu críticas precisas e perspicazes a projetos e ações do governo federal e de empresários arrivistas. Porém, nos últimos anos, se envolveu num conflito com uma rede de jornalistas, tanto da revista “Veja” quanto do Grupo Globo, e, de repente, destemperou-se, em parte. Seus críticos dizem que, ao se tornar petista — porque (seu blog) recebe recursos do governo federal (notadamente nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff), como praticamente todas as principais publicações, como “Veja”, Grupo Globo e “Folha de S. Paulo” —, Luís Nassif decidiu atacar os adversários de seus aliados. Não há dúvida de que o jornalista defende o governo petista e critica o tucanato, mas não há nada que o desabone seriamente. É possível sugerir que apoia as principais ações das gestões petistas, mas é incorreto sublinhar que se tornou petista ou que está a serviço do exército lulista ou dilmista.

Os “debates” entre Luís Nassif e um grupo de jornalistas, notadamente Diogo Mainardi, não são debates verdadeiros. São guerras, nas quais todos, e não só Luís Nassif, usam as armas que julgam mais apropriadas. Porém, como em quase todas as guerras, as dos jornalistas extrapolam e eles começam a dizer coisas inapropriadas e não prováveis. Não me lembro se foi Paulo Francis, ou outro jornalista, que disse que, numa polêmica entre jornalistas e entre intelectuais, vence não quem tem os melhores argumentos, e sim aqueles que xingam mais e melhor. Parece ser o caso. Acossado por um batalhão de jornalistas liberais, alguns deles baseados na “Veja”, Luís Nassif parece, às vezes, perder o prumo. Por trás das pelejas estão, é claro, as ideologias. Esquerdistas e liberais, no lugar de promover e abrir o debate e circunscrever-se à crítica, estão se atacando, com uma linguagem que surpreende, não os contendores, que parecem deliciados, e sim os leitores. O baixo nível é, no geral, evidente.

O resultado dos conflitos que se tornam abusivos, com golpes sempre abaixo da linha de cintura, são ações judiciais, nas quais os acusadores raramente têm condições de apresentar provas do que dizem, exceto que não queriam ofender — o que, claro, não é crível para nenhum juiz. Eles querem, sim, ofender — e muito.

A juíza Larissa Pinheiro Schueler, da 26ª Vara Cível do Rio de Janeiro, na sentença em que condenou Luís Nassif a indenizar o diretor geral de Jornalismo e Esportes da TV Globo, Ali Kamel — um dos poucos, nas guerras dos jornalistas, que debatem a sério, sem usar linguagem chula; pelo contrário, é sofisticado e equilibrado —, em 50 mil reais. A condenação é por danos morais. A magistrada considerou que as provas apresentadas pelo advogado de Ali Kamel “demonstram claramente que o réu [Luís Nassif] extrapolou o direito à informação, utilizando termos que certamente denigrem a imagem da parte autora. As notícias publicadas pelo réu possuem críticas que ultrapassam a simples emissão de juízo de valor sobre a atividade do autor, posto que visam atingir a imagem e credibilidade deste” [Ali Kamel]. A representante do Judiciário acrescentou: “O direito à liberdade de expressão não pode ser usado como pretexto para atos irresponsáveis, como a difamação, porque isso pode implicar mácula de difícil reparação à imagem de outras pessoas. É importante ressaltar que as pessoas públicas e notórias não deixam, só por isso, de ter o resguardo de direitos da personalidade”.

Ali Kamel diz, no processo, que Luís Nassif “vem promovendo uma campanha difamatória na internet” que dura seis anos. O jornalista da Globo frisa que tem sido apresentado por seu contendor, “insistentemente, como um jornalista que engana seu público, faz armações, deturpa os fatos no interesse de suas próprias ideias e convicções políticas, para perseguir desafetos e até para se autopromover”. As críticas de Luís Nassif, feitas num tom de cruzado e não de intérprete do pensamento alheio, não contribui em nada para ampliar e qualificar o debate. Mas o jornalista disse, no processo, que não quis ofender o colega de profissão, que, no lugar de ser tratado como adversário de ideias, parece que é visto como inimigo a ser destruído, ao menos moralmente.

Já que parecem incontroláveis, o que tem resultado em sucessivas condenações — e não apenas de Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim —, os jornalistas deveriam pelo menos ouvir seus advogados. Os articulistas e blogueiros estão promovendo uma guerra cega, às vezes suja, na qual todos, no fundo, são perdedores.

Na revista “Piauí”, há uma resenha de nove páginas, escrita pelo filósofo Ruy Fausto, na qual se comenta um livro do filósofo Paulo Arantes. É duríssima, chega a ser contundente. Mas a linguagem não é chula nem pesada; pelo contrário, é respeitosa. Os jornalistas-guerreiros deveriam observá-la com o máximo de atenção.

3 Comment threads
1 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
3 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Epaminondas

O primeiro parágrafo é um primor: “Nassif é patrocinado pelo Governo, fala bem do Governo, detrata opositores do Governo, mas é daí?”

Poisé, agora sim podemos dizer que jornalista da Globo recebe dinheiro do Governo. Quando processam as penas alugadas.

Adalberto De Queiroz

No hospício chamado Brasil, alguém com equilíbrio é uma benção: “Não há dúvida de que o jornalista defende o governo petista e critica o tucanato, mas não há nada que o desabone seriamente. É possível sugerir que apoia as principais ações das gestões petistas, mas é incorreto sublinhar que se tornou petista ou que está a serviço do exército lulista ou dilmista”. Ou: “…resenha de nove páginas, escrita pelo filósofo Ruy Fausto, na qual se comenta um livro do filósofo Paulo Arantes. É duríssima, chega a ser contundente. Mas a linguagem não é chula nem pesada; pelo contrário, é respeitosa.… Leia mais

Alberto Nery

Realmente é muito ruim para a imprensa a briga de dois grandes jornalistas. A gente sabe que que a imprensa brasileira na sua maior parte é financiada pelo poder público. Infelizmente os nossos meios de comunicação só anda se tiver apoio governamental,e os bloqueiros não foge a regra. E quem recebe tem que mostrar serviço a favor de quem lhe paga. Ninguém me contou,eu ouvi alguns anos atrás,uma autoridade dizer;se eu não pagar a mídia,eu estou frito. Primeiro,por que vão cair matando em cima de mim e segundo muitos pais de família vão passar fome. Agora essa briga entre esses… Leia mais

Epaminondas

“A gente sabe que que a imprensa brasileira na sua maior parte é financiada pelo poder público”. Abra uma Veja, Época, Folha, Estadão. Tem anúncio estatal? Tem. E tem anúncio privado? Também tem. Abra um blog “progressista”: Cadê os anunciantes privados? Eles não estão lá por uma mera lógica: Não tem audiência que seja pertinente. Mas o Governo está lá, anunciando. Agora o pessoal quer dar uma relativizada: Nassif é um grande jornalista, Kamel também, todos recebem do Governo, a imprensa inteira sofre. Ah, tenham paciência. A juíza deliberou que o que foi dito teve a intenção de denegrir e… Leia mais