Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livros revelam a história do mestre da tortura que a esquerda criou na Guerra Civil Espanhola

Alfonso Laurencic usou até a arte moderna e um filme de Buñuel para torturar pessoas que eram apontadas como franquistas pela Frente Popular

Alfonso Laurencic, o francês que, durante a Guerra Civil Espanhola, se tornou “o artista da tortura” | Foto: Reprodução

Quem é Alfonso Laurencic, que participou da Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, ao lado dos republicanos e contra os franquistas? Trata-se de um personagem histórico praticamente desconhecido. “A Batalha pela Espanha — A Guerra Civil Espanhola” (Record, tradução de Maria Beatriz de Medina), do historiador britânico Antony Beevor, não o menciona nenhuma vez nas suas 711 páginas. O clássico “A Guerra Civil Espanhola” (Civilização Brasileira, tradução de James Amado e Hélio Pólvora), do historiador inglês Hugh Thomas, não o cita em suas 774 páginas. “Guerra Civil Espanhola” (L&PM, 193 páginas, tradução de Vera Pereira), da historiadora britânica Helen Graham, o ignora solenemente. “Lutando na Espanha” (Civilização Brasileira, 269 páginas, tradução de Affonso Blacheyre), de George Orwell, não registra nenhuma passagem da vida do sujeito.

O mistério sobre o enigmático Laurencic é desvendado por dois livros lançados na Espanha: “El Hombre de las Checas — La Historia de Alfonso Laurencic, el Artista de la Tortura” (Espasa, 272 páginas), de Susana Frouchtmann, e “Las Checas del Terror — A Desmemoria Histórica al Descubierto” ( Libros Libres, 286 páginas), de César Alcalá. O que se lerá a seguir tem como base duas resenhas dos jornais espanhóis “Abc” (“El ‘monstruo’ que diseño las peores torturas de las checas republicanas en la guerra civil”), de Israel Viana, e “El Mundo” (“El ‘monstruo’ [francês y con mucho arte] de las checas de Barcelona”), de Paco Rego.

Laurencic inventou máquinas e estruturas para torturar os inimigos dos republicanos, quer dizer, os adeptos do fascista Francisco Franco (1892-1975). Noutras palavras, estava a serviço dos comunistas espanhóis e soviéticos

Filho de pais austríacos, Laurencic nasceu na França, possivelmente em 1902. Era um homem de múltiplos talentos: foi diretor de orquestra, jazzista, pintor, arquiteto e engenheiro. Foi oficial da Legião Estrangeira e do exército iugoslavo.

Segundo a própria versão, Laurencic chegou à Espanha em 1914, quando sua família austro-húngara foi expulsa da França, no início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em Barcelona, nos anos 20, fundou uma orquestra de jazz, Los 16 Artistas Unidos, que tocou “nos salões de baile mais elegantes da capital catalã”, registra o “Abc”.

Invenção de Alfonso Laurencic para torturar inimigos políticos | Foto: Reprodução

Em 1933, Laurencic é apontado como tendo uma vida “normal”. Ele se torna integrante da CNT e da CGT — as centrais sindicais dominantes. Aí, em 1936, começou a Guerra Civil Espanhola — que opôs esquerda (comunistas, socialistas, trotskistas e anarquistas) e direita (o grupo liderado pelo generalíssimo Francisco Franco, aliado de Benito Mussolini, fascista da Itália, e de Adolf Hitler, nazista da Alemanha). Os dois lados se massacraram de 1936 a 1939, numa guerra brutal que mobilizou a Europa e despertou o interesse do mundo (brasileiros, como Apolonio de Carvalho, lutaram do lado republicano).

No meio do caos que é a guerra, sobretudo uma guerra civil, que envolveu todos — civis e militares —, Laurencic se reinventou como homem, ou, se se quiser, como monstro.

Tortura “modernista” criada pelo francês Alfonso Laurencic | Foto: Reprodução

Há versões de que trabalhou como espião para os republicanos e para os franquistas, ao menos num primeiro momento. Homem de boas maneiras, um bon vivant, começou a operar para o Servicio de Investigación Militar (SIM) republicano. Acusado de vender passaportes e roubar dinheiro da agência, acabou preso. Entretanto, como naquele momento era difícil fazer julgamentos morais rígidos, acabou aproveitado como intérprete (falava sete idiomas) na Consejería de Orden Público. Seu lema de vida era: “Viver o melhor possível, sem se importar com as consequências”.

Na primavera de 1937, comunistas e anarquistas começaram a se enfrentar, na Catalunha, numa espécie de guerra particular no front interno da esquerda. Comunistas e anarquistas não se toleravam, sobretudo porque os segundos não se submetiam, nem militar nem politicamente, aos primeiros. Por vezes, em determinados momentos, os adeptos de Stálin e da União Soviética mataram tanto franquistas quanto anarquistas quanto trotskistas.

Susana Frouchtmann: autora do livro que revela a história do “monstro” Alfonso Laurencic | Foto: Reprodução

Em 1937, autoridades republicanas de Barcelona, notadamente as comunistas, decidiram “construir um sistema carcerário idêntico ao da União Soviética para acabar com a oposição”. O pesquisador César Alcalá frisa que as 45 checas de Barcelona executaram 8.352 pessoas — 0,28% da população catalã (na década de 1930). Os torturados nas checas da cidade eram acusados de ser “religiosos” (“gente de missa”), “conservadores”, “fascistas” e “quinta-colunistas” (traidores). “Entre as vítimas estavam 2.039 religiosos, 1.199 carlistas e outros tantos a identificar”, anota o “Abc”. De quebra, adversários internos, como anarquistas e trotskistas, também eram torturados e assassinados.

Informado de que Laurencic era “arquiteto” e “engenheiro”, além de hábil desenhista, o SIM o encarregou de organizar as checas. Ele passou a ser então, afirma Susana Frouchtmann, um “artista da tortura”. “A guerra lhe havia arrebatado uma vida ‘normal’ [em termos de decência]. Buscando manter o status, perdeu todo o sentido de limites morais. Se pode perdoar uma traição ante o receio de ser torturado da forma mais cruel, tal como ocorria nas checas. O que não tem justificativa, nem sequer em tempos de guerra, é prestar-se a colaborar com seus carcereiros com o único objetivo de melhorar tua própria condição de preso, piorando a dos outros prisioneiros.” O jovem ganhou a liberdade para retirar a liberdade e, até, a vida de outros seres humanos. Não tinha escrúpulos.

Alfonso Laurencic e sua mulher Meri Preschern Luarencic | Foto: Reprodução

Liberado para ser um monstro, Laurencic não se fez de rogado e criou as checas mais terríveis da Guerra Civil: as das ruas Zaragoza e Vallmajor. César Alcalá diz que, nesses lugares, “a barbaridade se converteu em arte”. “A segunda, uma das mais famosas, se converteu em um autêntico museu dos horrores, em cujo jardim instalaram um ‘pátio de fuzilamentos’. No centro os guardas abriram uma grande cova para proceder aos simulacros. Na margem colocavam a vítima para que acreditasse que seria enterrada ali mesmo — enquanto um pelotão apontava fuzis sem chegar a dispará-los. Uma tortura psicológica insuportável”, pontua o “Abc”.

No mesmo jardim, criaram “‘el pozo’ — um buraco estreito no qual se colocou roldana para suspender os detidos pelos pés e baixá-los até afundá-los por algum tempo [simulando um afogamento]. Em outras ocasiões, as pessoas eram penduradas pelos braços ou pelas axilas para submergi-las até a boca, deixando-as assim por um longo período, que parecia eterno para as vítimas. Muitas vezes, por causa do cansaço e do frio, acabavam bebendo água”, conta o “Abc”.

Dotado de uma maldade tão criativa quanto obscena, Laurencic desenhou também o que chamou de “celas-armário”. “Eram do tamanho de um caixão e nelas o preso só podia permanecer erguido se se colocasse na ponta dos pés. Por um orifício na parede, o torturado podia ver os guardas se movimentando com tranquilidade. E um relógio marcava as horas, mas manipulado de maneira que adiantasse quatro horas ao dia.”

Como se fosse um torturador surrealista — apreciava pintura e música —, Laurencic criou as “masmorras alucinantes” e as “neveras” (geladeiras). “As primeiras foram construídas num pavilhão dividido em celas, que, iluminadas com cores e efeitos de luz para que produzissem figuras estranhas [usava desenhos da Bauhaus e pinturas de Kandinsky e Paul Klee, o torturador era aficionado pela arte abstrata e surrealista], deixavam os presos abalados psicologicamente. São os chamados ‘efeitos pirotécnicos’ [nas celas psicotécnicas]. Cada uma das celas tinha 2,5 metros, com um apoio de cimento, que fazia as vezes de cama”. Mas o emérito torturador mantinha a “cama” inclinada, o que impossibilitava que o detido se deitasse”.

“As ‘neveras’ eram celas quadradas e estreitas, revestidas com cimento poroso que filtrava a água de um depósito situado na parte superior. Isso convertia o cubículo em um autêntico frigorífico, no qual os presos passavam horas no escuro. A isso acrescentou, como bom músico que era, um mecanismo chamado ‘metrónomo’, que consistia num aparato de cordas semelhante a um pêndulo que emitia um penetrante e contínuo assovio que deixava as vítimas desesperadas”, relata o “Abc”.

Quando Barcelona foi conquistada pelos franquistas, Laurencic foi detido em El Collell e, em 12 de junho de 1939, foi julgado por um conselho de guerra. Testemunhas disseram que estava “sereno” e que chegou a saudar o Tribunal Militar “com uma ligeira inclinação de cabeça”.

O advogado de defesa perguntou a Laurencic se, ao criar as celas de tortura, havia procurado adotar alguma medida para “humanizá-las”, como serviços de higiene — o que poderia ter gerado “reprimendas” de seus superiores. Ele respondeu que uma das prisões, a da Rua Zaragoza, “era uma das melhores, porque disponha de alguns serviços higiênicos” e, frisou, “graças a mim”.

A defesa de nada adiantou, pois, tendo sido considerado um mestre da tortura do lado republicano, com métodos que levavam os presos à loucura, Laurencic foi condenado à morte. Ao ser informado da sentença, pediu para falar. Sublinhou que, “vítima das circunstâncias”, morreria com a “consciência tranquila”. E acrescentou: “Sei que vou morrer, mas viva o Generalíssimo Franco!”

Às 4 horas da madrugada de 19 de julho de 1939, Laurencic, ao ser conduzido para ser fuzilado, “levantou o braço e fez a saudação franquista”. Ele morreu aos 37 anos, em Barcelona. Morria um monstro e se consolidava outro, o franquismo, o fascismo espanhol.

Cena de “Um Cão Andaluz”: até a arte de Luis Buñuel serviu para Alfonso Laurencic torturar | Foto: Reprodução

Mestre da maldade usou até filme de Luis Buñuel para torturar

Ao pesquisar sobre Alfonso Laurencic, a jornalista e escritora Susana Frouchtmann ficou surpresa. Nos jornais da Biblioteca Nacional da Espanha, não encontrou nenhuma menção ao “mestre da tortura”, “nem durante nem depois da Guerra Civil Espanhola”, mesmo tendo sido ele o criador das checas mais terríveis e cruéis do período. “As checas eram os cárceres da Frente Popular (coalizão dos partidos de esquerda.” Sim, não apenas Francisco Franco cometeu barbaridades na Espanha. A esquerda fez o mesmo. A selvageria imperou dos dois lados.

Susana Frouchtmann, ao investigar a história, ficou espantada com o fato de que o homem que, no seu tempo, teve certa importância, como “artista da tortura”, por certo admirado por seus chefes, era um “zero” na história da Espanha. A pesquisadora observa que Laurencic obrigava presos a assistirem a uma cena de “Um Cão Andaluz”, filme de Luis Buñuel, na qual se corta o olho de uma mulher com uma navalha de barbear.

Laurencic era visto como um homem “culto” e “sedutor”. Casou-se com uma bela mulher, Meri Laurencic, mas não teve filhos. Havia sido boxeador, salva-vidas e músico de jazz. No fim, um refinado torturador, “uma espécie de perverso Frankenstein”.

A pesquisadora conta que Meri Laurencic trabalhou na casa de sua família, durante 30 anos, e havia cuidado das meninas Mita, Ana, Susana e Herminia. Sim, havia sido preceptora de Susana Frouchtmann e de suas três irmãs. Ao pesquisar num blog sobre “memória histórica”, para compor uma história das mulheres durante a Guerra Civil, em Barcelona, a jornalista viu o nome de Meri Laurencic. Na verdade, aparecia como “Frau Preschern” — sobrenome de solteira de Meri. Mas era assim que era conhecida na casa dos Frouchtmann, uma família burguesa e judia.

Ao examinar as informações sobre a sra. Preschern, Susana Frouchtmann surpreendeu-se com o fato de que estava arrolada como “personagem do terror em Barcelona”.

Certa vez, há muitos anos, a mãe de Susana Frouchtmann havia contado que o marido de Meri havia sido fuzilado ao fim da Guerra Civil Espanhola, em 1939. A partir de 2015, a jornalista começou a apurar a história, como se procurasse uma agulha no palheiro. Aos poucos, pôde compor um quadro amplo sobre Laurencic, um homem alto, loiro, refinado, cosmopolita, cínico, músico e fundador de um grupo de jazz. Era filho dos austríacos Julio e Melitta Laurencic.

Laurencic e Meri viveram em Weimar, mas saíram da Alemanha quando os nazistas chegaram ao poder, em 1933. Adoravam viajar e beber vinho. Na Espanha, aliando-se à esquerda, por conveniência, tornou-se uma estrela da tortura. Segundo Susana Frouchtmann, “não tinha ideologia nem escrúpulos. Seu credo era ele mesmo”.

Susan Frouchmann é jornalista, formada em Arte, especialista em gestão cultural, tradutora e escritora. Em Barcelona, é colaboradora do jornal “El Periódico” e integra o conselho editorial da revista “Barcelona Divina”.

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