Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro sugere que Stálin pode ter sido assassinado por seus aliados

A bibliografia sobre o ditador soviético é extensa. Chega o livro de Michael Kerrigan. Já temos os de Oleg Khlevniuk e Simon Montefiore

Entre 1924 e 1953, um período de 29 anos, pode-se falar em dois “países” conectados: “Stalinlândia” e a União Soviética. Ióssif Stálin não era presidente, primeiro-ministro ou secretário-geral do Partido Comunista. Era praticamente o dono da URSS — um conglomerado de nações obrigadas a ficarem juntas, ainda que com identidades diferentes — e de “Stalinlândia”. O Homem de Aço era o mandachuva, o que ninguém discute, mas governava com aliados fidelíssimos. O poderoso chefão mandava “esfolar”, os príncipes vermelhos matavam.

O “país” (ou até continente) Stálin tornou-se mais conhecido depois da abertura dos arquivos soviéticos, nos tempos de Boris Ieltsin, a partir de 1991. Saíram livros primorosos sobre o ditador, que era tão cruel quanto perspicaz. O general e historiador Dmitri Volkogonov escreveu, em dois volumes, a primeira grande biografia, “Stálin” (Nova Fronteira), que, além de não apologética, é crítica, até dura (se é que se pode falar que alguém é duro o suficiente a respeito de Stálin), mas com certo distanciamento. Volkogonov é menos crítico em relação a Lênin, que, como morreu cedo, aos 53 anos, permaneceu como uma espécie de “Stálin engatilhado” — assim como Stálin pode ser definido como “Lênin atirando”.

Devemos ao historiador britânico Robert Service uma das mais qualificadas biografias do político que mandou matar de 25 milhões a 30 milhões de pessoas (Moshe Lewin menciona um número menor — cerca de 20 milhões). Trata-se de “Estaline” (Europa-América, 704 páginas, tradução de Fernanda Oliveira ). Há o registro preciso das crueldades do político mas também sua apresentação como um dos grandes estadistas do século 20 — tão astuto quanto Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt. O grande personagem é “estabelecido”, mas Service mostra que o fato de ter sido ditador apequenou-o.

O historiador inglês Simon Sebag Montefiore conseguiu um feito, como Service: exibe um estadista astucioso, frio e competente (com falhas, é claro, como quando não percebeu, de maneira precisa, o jogo de Adolf Hitler, que, na busca do que chamava de espaço vital, pensava, desde o início, em conquistar a União Soviética). De maneira mais ampla do que Service, Montefiore mostra que, obviamente, o aparato gigantesco do governo comunista não era manipulado tão-somente por Stálin. Havia uma equipe leal e sua história está registrada no livro “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras, 912 páginas, tradução de Pedro Maia Soares).

Ribbentrop, Stálin e Molotov: a aliança entre o ditador soviético e o ditador Adolf Hitler foi decisiva para a invasão da Polônia, em 1939

Há também o livro de Oleg V. Khlevniuk, “Stálin — Nova Biografia de um Ditador” (Amarilys, 576 páginas, tradução de Márcia Men).

Com tantos livros de qualidade — Montefiore publicou também “O Jovem Stálin” (Companhia das Letras, 568 páginas, tradução de Pedro Maia Soares) —, pressupõe-se que há um certo fastio do leitor em relação ao ditador sanguinário (que escrevia poesia). Certo? Nem tanto.

Está chegando às livrarias patropis “Stálin” (M. Books, 224 páginas), de Michael Kerrigan. A obra discute, entre outras coisas, a possibilidade de Stálin ter sido assassinado por seus companheiros — que queriam “mudanças” (sobretudo, talvez, menos violência). Beria e Kruchev, cúmplices nos assassinatos de milhões, podem ter articulado a morte do ditador. Depois, aliado com outros líderes, Kruchev livrou-se de Beria (assassino e estuprador), fuzilando-o. Stálin morreu só — absolutamente só. Os “aliados” demoraram a chamar ajuda médica. Por medo ou intencionalmente? Talvez as duas coisas.

A rigor, há mais a dizer sobre o ditador? Certamente, porque há arquivos ainda não consultados de modo amplo na Rússia de Vladimir Putin. Mas, no geral, os livros estão se repetindo. Há pesquisas bibliográficas que tão-somente repetem os estudos pioneiros de Volkogonov, Service, Orlando Figes e Montefiore. Talvez seja o momento de as editoras descobrirem os estadistas democratas, como F. D. Roosevelt, do qual não há nenhuma biografia ampla e decente em português. Churchill é mais prestigiado do que o americano (há pelo menos três biografias de qualidade, inclusive o cartapácio de Roy Jenkins. Este também biografou Roosevelt, mas, como morreu antes de concluir seu estudo, o livro é pequeno e fraco).

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