O livro “O Serviço Secreto Chinês”, do jornalista francês Roger Faligot, aponta que, da extrema direita, Georges Rémi pode ter se tornado um instrumento político da esquerda da China

Hergé (ou Georges Rémi): um artista enigmático, com envolvimento com conservadores e esquerdistas
Hergé (ou Georges Rémi): um artista enigmático, com envolvimento com conservadores e esquerdistas

Comenta-se a respeito da suposta ligação do es­cri­tor e desenhista Her­gé (Georges Rémi) com os comunistas chineses. O relacionamento é exposto no livro “O Ser­viço Secreto Chinês” (Larous­se, 543 páginas), do escritor e jornalista francês Roger Faligot.

“O caso de ‘O Lótus Azul’ [de Hergé] é um dos mais estranhos entre os que envolveram agentes do Komintern, os serviços especiais e redes de influência de Zhou Enlai no domínio das artes e da literatura. É impressionante seu segredo não ter sido desvendado até hoje”, relata Faligot. Por que o assunto é pouco investigado? Sugestões do especialista: “Isso se deve à aura desfrutada por Hergé na literatura para crianças e nas histórias em quadrinhos? Ou ao fato de que é difícil imaginar um autor desenhista, situado na extrema direita durante o entre guerras, voltar-se para o outro lado, talvez até ser manipulado ou instrumentalizado pelos comunistas chineses? Por que não aprofundarmos para entender o contexto no qual o simpático Tchang [Tchong-jen] tornou-se amigo de Hergé e passou a influenciá-lo?”

Faligot diz que Tintin e Tchang são clones de Hergé e Tchang Tchong-jen. Um jornalista diz que, até “O Lótus Azul”, Hergé não estudava muito para escrever e de-senhar seus quadrinhos. A informação é confirmada pelo francês: “Hergé leu muito, antes de realizar essa história em quadrinhos, a mais documentada de toda sua obra”. O autor ressalva: “Mas ele ficou famoso graças ‘As Aventuras de Tintin no País dos Sovietes’, no qual não esconde sua aversão ao comunismo, sentimento compartilhado com meios católicos extremamente conservadores, para quem ele publicava sua HQ em folhetim, e com os espíritos livres da época” (Faligot refere-se aos não-stalinistas).

Se a história sobre os soviéticos deu fama inicial a Hergé, “O Lótus Azul” rendeu-lhe “a celebridade”, por ter mais qualidade. “Ele conta a batalha do célebre repórter contra os traficantes de drogas, em comum acordo com o serviço secreto japonês, dirigido pelo pérfido Mit­suhirato, e os imperialistas que reinavam na concessão internacional (entre eles o policial Dawson, calcado em Patrick Givens, o irlandês que chefiou a Special Branch, besta negra dos comunistas de Xangai).”

Na versão de Faligot, “os aliados de Tintin na sociedade secreta ‘Fi­lhos do Céu’ e seu amigo Tchang re­presentam o povo chinês em seu conjunto, diante dos cataclismos da guerra, no papel de imperialistas ocidentais e japoneses”. “Portanto”, afirma Faligot, “o livro” entusiasmou “tanto o Kuomintang quanto o Partido Comunista [Chinês], sobretudo quando eles forjaram uma nova aliança. Os fatos foram tirados do noticiário: o famoso atentado de 18 de setembro de 1931 con­tra um trem, causa da invasão japonesa na Manchúria, é conduzido, na HQ, por Mitsuhirato, mestre espião (“Um verdadeiro japonês sempre sabe de tudo, senhor Tin­tin!”), cópia do verdadeiro coronel Doihara Kenji, chefe da sociedade secreta chamada de Seita do Dragão Negro (o mesmo dragão negro que figurava na capa do livro)…”.

Faligot sustenta que as obras sobre Hergé não elucidam certos enigmas. “Para documentar-se sobre ‘O Lótus Azul’, o artista belga leu várias obras, como ‘Minha Mãe’, do poeta libertário Tcheng Cheng. Assim como Malraux, Hergé pesquisou o testemunho do capitão Pick, ex-espião do GRU [da União Soviética] que passara para o lado inimigo e foi recrutado por Givens-Dawson, sem esquecer ‘China’, o livro-documentário do escritor valenciano Vicente Blasco-Ibanez.”

Nas décadas de 1920 e 1930, os livros publicados na Europa eram, no geral, hostis aos japoneses. Alguns continham propaganda habilmente manipulada pelo comunista Willi Münzenberg, do Komintern. Em 1927, em Bruxelas, Münzenberg criou a Liga Anti-Imperialista, cujo presidente era o físico Albert Einstein, com o apoio de Ho Chi Minh, André Malraux e Soong Ching-ling. Ao perder a mulher, o diplomata chinês Lou Tseng-Tsiang decidiu ser monge, na Bélgica, com o nome de dom Pierre-Célestin Lou. “Foi graças a” dom Célestin, amigo de Ching-ling, “que”, em 1º de agosto de 1934, em Bruxelas, “Georges Rémi, ou Hergé, encontrou Tchang Tchong-jen, jovem estudante na Academia Real de Belas-Artes. Pro­cedente de Xangai três anos antes, ele ajudou Hergé a conceber ‘As A­ven­turas de Tintin no Extremo O­riente’ (título inicial do álbum), lançado em folhetim naquele ano na revista ‘Le Petit Vingtiè-me’. Para en­ri­que­cer a documentação de Hergé, dom Célestin emprestou-lhe o livro que publicara no ano anterior: ‘Invasão e Ocupação da Manchúria’”.

Tchang, o amigo de Hergé, era de direita ou comunista? Faligot conta que seu melhor amigo em Bruxelas, Tong Dizhou, mais tarde se tornou membro do Partido Comunista Chinês. O jornalista diz não ter certeza se, na Bélgica, Tong já era filiado ao PCC. “Ele poderia muito bem ser um alto dignitário do regime no plano científico, assim como Tchang [o amigo de Hergé] poderia ser um forte associado ao comunismo, contrariamente ao que se tentou fazer crer depois. Em 1934, antes mesmo de estabelecer uma sólida amizade com Hergé, o jovem artista chinês indicou-lhe os lemas dos muros de Xangai que deveriam figurar em chinês em seu livro, e até os escreveu na caligrafia chinesa. Benoit Peeters, em sua biografia ‘Hergé, Filho de Tintin’, tem razão ao afirmar: ‘O Lótus Azul’ ‘está salpicado de inscrições traçadas pelo próprio Tchang, que acentuam o tom político da narrativa’.”

As traduções das inscrições que “aparecem com frequência no livro” – “Abolição dos tratados desiguais!”, “Abaixo o imperialismo!” e “Boicote às mercadorias japonesas” – eram slogans comunistas. O que significam? Refletem “o contexto geral no qual o álbum foi concebido”.

Com seu espírito detetivesco, Faligot se propõe a examinar o que chama de outro enigma: “Quando Tintin deixa Xangai, vai para o ‘pleno território chinês’ [segundo o livro]. ‘Enquanto estiver lá, não podemos fazer nada contra ele!’, declara o general japonês Haranoshi, que tenta capturá-lo. Esse território estava efetivamente liberado de restrições hostis. Mas de quem? Dos japoneses, dos imperialistas franco-ingleses e… do Kuomintang! De fato, a aldeia inundada onde Tintin salvou o jovem Tchang das águas chamava-se Hou Kou. Ora, em 1931, tempo da narrativa de Hergé, esse lugar de Jiangxi era o centro dos primeiros sovietes rurais de Mao Zedong [Mao Tsé-tung], onde o embrião do Exér­cito Vermelho era dirigido por (…) Chen Yi, (…) que fez parte do círculo clandestino de Zhou Enlai [Chu En-Lai]. Simples coincidência ou conhecimento de campo extremamente refinado da parte de Tchang? Isso nunca foi evocado”.

Um dos pontos citados por um amigo jornalista é discutido com cuidado por Faligot: “Teria sido Hergé manipulado? Certamente não, mas talvez instrumentalizado pela propaganda do PCC e sua política de ‘frente unida’ [ampla]. O livro antijaponês, que provocou a ira dos pró-nipônicos em Bruxelas, era conveniente também ao Kuomintang. Mais tarde, em 1939, Soong May-ling, ou Madame Chiang Kai-shek, convi-daria Hergé para visitar a China, pagando suas despesas. O convite ficou sem resposta, por causa da guerra na Europa. O pai de Tintin perdeu o rastro de Tchang, que viveu os tormentos da ocupação das tropas de Hirohito em Xangai. A realidade ultrapassou a ficção”.

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Em 1949, quando os comunistas tomaram o poder, o marechal Chen Yi invade Xangai e manda executar 100 mil pessoas, “incluindo vários membros das sociedades secretas evocadas em ‘O Lótus Azul’”. Segundo Faligot, “Tchang era tido em boa conta pelas autoridades comunistas. Nos anos 50, Chen Yi, prefeito de Xangai, organizou um comitê para escolher alguns artistas para atender o governo. Ele se associou (…) a Pan Hannian (…) e (…) Madame Soong Ching-ling, vice-presidente da República Popular. Como reconheceria o próprio Tchang, ele foi selecionado como artista oficial. Encomendavam-lhe obras, esculturas e pinturas”.

Tchang dizia que os burocratas afirmavam que sua obra não continha reflexão política, ou seja, não era engajada o suficiente. Mesmo assim, registra Faligot, “o PCC o confirmou no trabalho a favor do ‘realismo socialista’”. Em 1966, durante a Revolução Cultural (que nada tinha de cultural, sobretudo no sentido humanista), com seu protetor Chen Yi em desgraça junto à Gangue dos Quatro, Tchang submergiu. Voltou à tona, em 1981, “com a grande mudança realizada por Deng Xiaoping. Foi nessa época que Hergé tentou reencontrar o amigo Tchang, transformado por ele em herói de um novo livro, ‘Tintin no Tibete’”.

A romancista Han Suyin, amiga de Zhou Enlai, localizou Tchang e, com o apoio de Deng Xiaoping, conseguiu permissão para que viajasse à Bélgica. O encontro de Tchang e Hergé “foi emocionante”, segundo Faligot. “Os fãs de Tintin ficaram perplexos. Ao final dessa aventura, poderíamos escrever a palavra ‘Fim’. O Partido Co-munista Chinês também estava perplexo, pois, enquanto os livros de ‘Ding Ding’ eram publicados na China, suas aventuras coincidiam com as palavras de ordem sempre preconizadas pelo partido: ‘Utilizar os estrangeiros para que sirvam à China’ e ‘Utilizar a força estrangeira para efetuar propaganda em favor da China’.”
Quem quiser conhecer mais a história de Georges Rémi deve ler a bi­ografia “Hergé” (1966), de Pierre As­souline. Não há tradução brasileira.