Euler de França Belém
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Livro sobre Gustavo Capanema deveria inspirar o ministro Abraham Weintraub

Países não vivem de quatro anos mágicos, mas da eternidade das gerações. O ministro de Vargas pode ensinar isto ao ministro de Bolsonaro

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, canta na chuva e, diria o célebre dirigente esportivo corintiano Vicente Matheus, pode se “queimar” (pelo menos tem certo humor). Enquanto não se queima, poderia se inspirar num ministro da Educação que, sendo conservador — serviu ao governo de Getúlio Vargas, de 1934 a 1945, inclusive no Estado Novo, uma ditadura cruenta, de 1937-1945 —, era, por assim dizer, um iluminista.

Carlos Drummond de Andrade e Gustavo Capanema

O auxiliar do presidente Jair Bolsonaro, tão nacionalista quanto Vargas mas pilotando um governo que tende ao liberalismo ortodoxo — dada a influência do poderoso chefão da Economia, o chicago-old Paulo Guedes—, certamente aprenderia a dialogar e conviver com aqueles que pensam diferentemente dele. O ministro, ensinou Gustavo Capanema, não pode se comportar como bedel do gestor máximo, mas como um diplomata que serve ao governo, à sociedade e aos setores que, direta e indiretamente, representam a educação.

Recomenda-se a Abraham Weintraub uma leitura atenta do livro “Capanema: Biografia — A História do Ministro da Educação Que Atraiu Intelectuais, Tentou Controlar o Poder e Sobreviveu à Era Vargas” (Record, 499 páginas), de Fábio Silvestre Cardoso.

Trata-se de um lançamento, ou seja, de uma pesquisa atualizada e ampla sobre um homem que dirigiu a educação do país durante vários anos, e não apenas alguns meses. No seu gabinete, além do maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, circularam vários próceres da cultura patropi.

Abraham Weintraub pode aprender com um gestor mais experimentado | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Sinopse do livro divulgada pela editora: “Entre 1927 e 1979, Gustavo Capanema Filho teve atuação política destacada no país. Nome importante para desvendar as motivações, a agenda e a natureza daqueles que buscam ocupar um espaço no poder, é reconhecido pela sua gestão à frente do Ministério da Educação e Saúde entre 1934 e 1945, mas sua participação no debate político não se restringiu às reformas que promoveu na educação: também foi uma das ferramentas do Estado Novo para cooptar intelectuais para a adesão ao regime, por suas conexões com nomes como Carlos Drummond de Andrade e Cândido Portinari. Exemplo raro de figura que se renovou no poder como pôde, ocupando posições diferentes, mas sempre de forma pragmática, Capanema soube agir de modo a preservar o status que possuía”.

Gustavo Capanema (de óculos) e o ditador Getúlio Vargas | Foto: Reprodução

Abraham Weintraub certamente vai aprender que, entre outras coisas, o poder é transitório. Se não puser de pé um projeto que contemple as contradições da educação — um dos setores mais complexos e variados do setor público —, e resultem num consenso, outro governo, de matiz político e ideológico diferente, tende a desmanchar tudo. Radicalismos são, em regra, substituídos por outros radicalismos. Mas quem avalia que o Fundef, criação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e o Fundeb, criação do ex-presidente Lula da Silva, foram ruins para o país? Ninguém, decerto, em sã consciência. Países não vivem de quatro anos mágicos, mas da eternidade das gerações. É o que a história — se ensina alguma coisa.

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