Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro revela que relação de amor e ódio do Clarín com peronismo antecede briga com os Kirchners

Não está em jogo apenas a defesa da liberdade de imprensa, e sim também a batalha por grandes negócios e a velha luta política

Este livro revela que crise entre a cúpula do Grupo Clarín, da Argentina, tem a ver com liberdade de imprensa, mas sobretudo com negócios na área de telefonia e TV por assinatura | Foto: Jornal Opção

Uma história detalhada e crítica do principal jornal portenho chegou às livrarias da Argentina no ano passado. “Clarín — El Gran Diario Argentino: Una Historia” (Espejo de la Argentina-Planeta, 444 páginas), de Martín Sivak, de 38 anos, sociólogo, jornalista e doutor em história pela Universidade de Nova York, é um livro primoroso. Os leitores críticos apreciaram, mas os dirigentes do jornal e a presidente Cristina Fernández Kirchner certamente não aprovaram, porque o livro, longe de ficar em cima do muro, deixa evidentes os problemas e contradições dos dois adversários. O primeiro volume só vai até 1982, mas o autor escreve um epílogo imperdível de 30 páginas — “Lo que vendrá: clarines de guerra com os Kirchner”.

Martín Sivak conta que a crise entre imprensa e peronismo não é nova. Quando o “Clarín” era um bebê — o jornal foi criado em 1945 —, “militantes peronistas atacaram ‘La Prensa’ e ‘El Mundo’”. Nesse ano, durante confronto entre manifestantes e seguranças e policiais na porta do jornal “Crítica”, dois peronistas morreram. Os adeptos de Juan Domingo Perón, nessa quadra, ignoraram “completamente o recém-nascido ‘Clarín’”.

O livro de Martín Sivak quer responder uma pergunta: “Como um diário modesto e frágil se converteu na empresa mais influente da Argentina”? “O primeiro volume (1945-1982) narra as quatro décadas iniciais do diário, tão cruciais quanto inexploradas.” A primeira parte da obra vasculha a história do criador Roberto Nobre, ex-deputado do Partido Socialista Independiente e ex-ministro de Governo do conservador Manuel Fresco.

Martín Sivak escava fundo e desagrada tanto os dirigentes do jornal quanto o governo de Cristina Kirchner | Foto: Reprodução

Roberto Noble lançou “um tabloide de leitura fácil”. Ele acreditava que o jornal o levaria a se tornar presidente da Argentina. “Com fundos empresariais de origem nunca revelada, bobinas de papel de um diário financiado pela Alemanha nazista e um pequeno capital próprio, Noble” teve problemas, dada sua fragilidade empresarial “decorrente da falta de recursos e uma limitada autonomia frente o Estado e à política. ‘Clarín’ dependeu do Estado peronista, que administrava”, com parcimônia e politicamente, “as cotas de papel, os créditos oficiais e a publicidade. Sobreviveu graças às habilidades de Noble para flexibilizar sua linha editorial e receber benefícios econômicos diretos e indiretos, como a expropriação do diário ‘La Prensa’, graças os muitos lucrativos classificados”, registra Martín Sivak.

A pesquisa mostra que, “ao longo de sua trajetória, o ‘Clarín’ refletiu sempre o pragmatismo de seu diretor e fundador. Em 1945 fez campanha contra Perón. A partir do fim de 1946, aderiu com entusiasmo ao peronismo e só durante os dias que precederam à derrocada do presidente se reconverteu ao mais furioso antiperonismo”. Irritado, Perón mandou fechar o “Clarín”, mas o golpe de Estado impediu que suas ordens fossem cumpridas. Mas tarde, Noble e Perón se reconciliaram. O dono do jornal mandava dinheiro para o ex-presidente, no seu exílio em Madri.

Martín Sivak compara Roberto Noble ao personagem central do filme “Cidadão Kane”, inspirado no milionário americano Randolph Hearst. “Noble foi o primeiro tycoon da imprensa argentina.” Era um novo rico e, como tal, gostava de ostentar. Na sede de seu jornal, “recebeu tratamento de chefe de Estado durante um quatro de século”. Ao perceber isto, que havia se tornado um Assis Chateaubriand (Chatô) da Argentina, desistiu de trabalhar para ser presidente. “Descobriu que poderia, em suas palavras, ‘fazer presidentes’”, nota o historiador.

Néstor e Cristina Kirchner: ascensão e queda do peronismo na Argentina | Foto: Reprodução

No governo de Arturo Frondizi (1958-1962), mais uma vez o pragmatismo de Roberto Noble foi posto em prática e o grupo “recebeu fortes auxílios do governo”. Entretanto, hábil e inteligente, o empresário não colocava o jornal inteiramente a serviço do governo — guardando certa autonomia. O presidente Arturo Frondizi e Rogelio Frigerio, seu homem forte, “precisavam de um jornal que defendesse suas políticas, mas sem se tornar um partisan”. O proprietário do “Clarín” se tornou, nessa época, muito próximo dos militares que comandavam as forças armadas argentinas.

Quando sofreu um acidente vascular cerebral, dezoito meses antes de morrer, Roberto Noble casou-se com uma de suas namoradas, Ernestina. Ernestina Herrera de Noble assumiu a direção da empresa e convocou para auxiliá-la Rogelio Frigerio, que era o braço-direito do presidente Frondizi. Auxiliaram Rogelio Frigerio e Ernestina Noble, na nova empreitada, Oscar Camilión, na articulação de ideias, e Héctor Magnetto, no comando das finanças.

Em 1973, quando Perón foi eleito presidente, Rogelio Frigerio queria ser o ministro da Economia, mas José Ber Gelbard foi indicado para o cargo. O “Clarín”, dirigido mais por Rogelio Frigerio do que por Ernestina Noble, passou a atacar o governo peronista. Perón passou a boicotar ao diário.

“Clarín” é o jornal mais importante e poderoso da Argentina | Foto: Reprodução

Na ditadura militar, o “Clarín” se tornou “sócio do Estado” e do diário “La Nación” numa fábrica de papel — a Papel Prensa (a história é detalhada no livro). “De mendigar papel, durante o primeiro período peronista, o diário passou a controlar sua fabricação e comercialização. (…) ‘Clarín’ defendeu, de maneira arrebatada, o regime militar e criticou a política econômica liberal de José Martínez de Hoz. (…) Nesse período, o diário duplicou suas vendas graças ao impulso que deu à seção de esportes e à sua capacidade para se ajustar” à época. Defendeu a ordem, ignorou os crimes da ditadura e se permitiu vibrar e acompanhar os jogos esportivos argentinos”.

Em 1982, com a chegada de novos tempos, a diretora Ernestina Noble desligou-se de Rogelio Frigerio e seu grupo. A empresa foi profissionalizada e o jornal passou a guardar mais autonomia em relação à política e, aos poucos, foi ampliando os negócios — até se tornar um dos grupos mais poderosos da Argentina, não apenas no que diz respeito a jornal e televisão. O que Magnetto e Ernestina queriam era um jornal mais flexível ideologicamente — não aferrado a uma ideia ou a um grupo — e com a imagem de “independente” ante as forças políticas em jogo. O grupo estava se tornando uma corporação.

Guerra dos Kirchners

Antes da declaração de guerra, Néstor e Cristina Kirchner eram aliados dos dirigentes do “Clarín”. “Os Kirchner descobriram no Grupo Clarín um pilar para o governo de Néstor”, mas depois passaram avaliar que o jornal trabalhava para desestabilizar o governo de Cristina. Os Kirchner adotaram a tese de que o jornal estava “dirigindo” a oposição, como se fosse, por assim dizer, um partido político. As críticas feitas por ruralistas, classes médias antigovernistas, peronistas dissidentes e radicais “indecisos” seriam “criadas” ou potencializadas pelo “Clarín”. Este seria uma espécie de porta-voz (ou a própria encarnação) do neoliberalismo. Mais ou menos como parte da esquerda percebe a revista “Veja”.

Porém, “durante a presidência de Néstor Kirchner, o governo”, ao menos no início, e o Grupo Clarín — jornal, televisão — “alcançaram um bom nível de entendimento”. A empresa “recebeu favores importantes, como a fusão de Cablevisión e Multicanal, a ampliação das licenças de televisão, uma generosa verba publicitária estatal, o bloqueio do negócio do cabo para que a concorrência não crescesse e um privilegiado acesso jornalístico à Casa Rosada. A cobertura do diário e de outros meios do grupo destacava acertos, minimizava erros e dava pouca importância a temas incômodos”.

Ernestina Noble: dirigiu o jornal “Clarín” | Foto: Reprodução

Conflitos pontuais entre o “Clarín” e Néstor Kirchner contribuíam para manter a imagem de um jornal “independente” e “equilibrado”.

Inicialmente fragilizado, Néstor Kirchner buscou o apoio da imprensa, notadamente do “Clarín”, para se fortalecer politicamente e não ficar com a imagem pública arranhada. Sivak conta que há outro motivo para a aproximação: o peronista acreditava que os leitores do jornal eram seus eleitores. Ao mesmo tempo que cultivava a cúpula do “Clarín”, Néstor aproximava-se do mexicano Carlos Slim, homem mais rico do mundo, e do espanhol Jesús Polanco, do Grupo Prisa. “Tentou Slim com o ‘triple play’ (o serviço simultâneo de TV por cabo, internet e telefonia) e Polanco com a ideia de lançar em Buenos Aires um diário semelhante ao jornal ‘El País’, de Madri.” Empresários locais receberam apoio do governo, como publicidade abundante, com o objetivo de não deixar que o “Clarín” se tornasse mais forte do que já era.

“Em um jogo pendular, Kirchner trabalhou para que o Grupo Clarín pudesse obter a fusão dos cabos [TV por assinatura] e para que ingressasse na Telecom como sócio, os dois projetos prioritários de expansão da empresa” dirigida por Héctor Horacio Magnetto. “Quando a relação se azedou, Kirchner tentou convencer empresários para que comprassem a Telecom e até o Grupo Clarín”, escreve Martín Sivak.

O historiador afirma que se não se sabe o momento preciso em que Kirchner e os dirigentes do “Clarín” se desentenderam. Pode ter sido a cobertura intensiva do Grupo Clarín “durante o conflito com” os produtores rurais devido à Resolução 15, que prejudicava os exportadores de commodities. Néstor cobrou o que havia sido pactuado — favores em troca de jornalismo menos rigoroso — “e denunciou que Magnetto pretendia derrubar a presidente” Cristina Kirchner.

A partir do conflito, com o “Clarín” avaliando que o governo de Cristina Kirchner queria reduzir sua força — o que é um fato, desde Néstor Kirchner — e a presidente supondo que o jornal queria prejudicar seu governo, os dois lados partiram para o ataque. O “Clarín” adotou a bandeira de que estava defendendo a democracia e a liberdade de imprensa. “A holding começou a trabalhar para desacreditar as ações do governo. Em 2008 apadrinhou os potenciais adversários” de Kirchner, apostando no que avaliava como pós-kirchnerismo.

O “Clarín” ataca de um lado, apontando o autoritarismo do governo, que age para cercear a liberdade de imprensa, e o governo ataca do outro. Num golpe baixo, criando um sistema de divulgação nebuloso, o governo espalhou a “informação” de que a proprietária do Grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble havia adotado duas crianças (Marcela e Felipe) que seriam filhas de desaparecidos políticos — o que nunca se provou. O objetivo era sugerir que a empresa havia apoiado a ditadura militar e, por isso, além dos favores econômicos de praxe, como polpudas verbas publicitárias, Ernestina Noble teria conseguido adotar duas crianças filhas de vítimas da ditadura. O governo também atacou no “bolso” do grupo ao denunciar a forma como o “Clarín” havia conseguiu comprar ações da Papel Prensa. O jornal teria comprado a fábrica de papel para jornal, em sociedade com o jornal “La Nación”, com o apoio da cruenta ditadura argentina. Os proprietários do Grupo Clarín reagiram e negaram que os militares tenham intermediado a aquisição da fábrica.

Permanecendo no ataque, o governo de Cristina Kirchner vulgarizou a informação de que, além de ter obtido favores das Juntas de Comandantes — o regime militar, o mais cruento da América do Sul —, o Grupo Clarín foi beneficiado pelas privatizações, desregulamentações e redução do Estado na década de 1990. Os dirigentes do “Clarín” contestam e dizem que nada fizeram de irregular e sustentam que o governo quer calar uma voz crítica e independente.

“Con Clarín, no”

Em 2006, o ministro do Interior do governo de Carlos Menem, Carlos Corach, disse: “Nós governamos dez anos, mas o ‘Clarín’ governa há muito mais anos e governará por muitos mais”. Em 2005, Martín Sivak procurou uma editora e informou que pretendia escrever uma história do jornal. O editor disse, gentil mas firme: “Con Clarín, no”. Noutras palavras, na Argentina, não se mexe com a história do jornal mais poderoso. Sua história deve ser contada por seus integrantes. É quase o caso do jornal brasileiro “Folha de S. Paulo”, cujos donos apoiaram a ditadura civil-militar, mas a história, embora já seja ventilada na redação, é quase um tabu.

Em 2007, com uma ideia fixa na cabeça, a de relatar a história do “Clarín”, Martín Sivak ingressou na Universidade de Nova York com o objetivo de escrever uma tese de doutorado. Recebeu uma recomendação dos historiadores norte-americanos: “Vá aos arquivos”. O livro comentado pelo Jornal Opção, parte de uma história que terá registro mais amplo, “nasceu de uma versão modificada da tese”, que ganhou o título de “O Diário Que Governou a Argentina”.

Quando procurava conversar com as pessoas na Argentina, em busca de informações para seu livro, Martín Sivak recebia indagações do tipo: “Você está a serviço do “Clarín”, de Magnetto, ou do governo de Cristina Kirchner?” Teve gente que quis saber se a Universidade de Nova York era kirchnerista ou antikirchnerista. “Um colunista do ‘Clarín’ me disse que eu estava fazendo o jogo do governo. (….) No fim de 2012, um importante editor do ‘Clarín’ me disse que já não tinha margem para ascetismo. Ou se está com os defensores da liberdade de expressão ou com o governo.”

Na verdade, o livro de Sivak é uma grande história do excelente jornal “Clarín”, com suas virtudes e vicissitudes, apresentadas com isenção e equilíbrio. Mas as partes, é claro, não querem equilíbrio — querem adesão. Lida a obra, o que resulta? O que está no título: o “Clarín”, com erros e acertos, é um grande jornal — o que está muito bem demonstrado pelo rigoroso doutor em história.

Se o “Clarín” é um jornal de qualidade, o que dizer do governo de Cristina Kirchner? A palavra desgoverno talvez o defina com precisão. Nas conversas que mantive com argentinos, ao visitar o país em 2013, notei que, apesar do desconforto com a presidente, também desconfiam dos políticos liberais, que, na visão deles, não se preocupam com o povo.

[Resenha publicada pelo Jornal Opção em janeiro de 2014]

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