O jornalismo não é uma atividade masculina. Porém, quando se fala sobre a Guerra Civil Espanhola, ocorrida entre 1936 e 1939, os nomes mais destacados são Ernest Hemingway (autor de “Por Quem os Sinos Dobram”), John do Passos, Arthur Koestler, Herbert Mathews, George Orwell (saiu ferido de uma batalha; escreveu “Homenagem à Catalunha — A Luta Antifascista na Guerra Civil Espanhola”), Stephen Spender, André Malraux, Mikhail Kolstov (“o sinistro enviado do Pravda”) e Robert Capa (o notável repórter-fotográfico). Mas as mulheres estavam lá, em grande quantidade, e cobriram as batalhas e a vida cotidiana muito bem. O livro “Periodistas Extranjeras en la Guerra Civil” (Renascimiento, 856 páginas), de Bernardo Diáz Nosty, mapeia a presença de 183 mulheres de 26 países (inclusive da América do Sul) na cobertura das lutas entre republicanos (democratas, comunistas, anarquistas, trotskistas) e franquistas (fascistas).

Mulheres com exemplares de “Mujeres”. Esther Zilberberg está no centro | Foto: Reprodução

“Jornalistas Estrangeiras na Guerra Civil” ainda não ganhou tradução no Brasil. O livro mereceu duas resenhas no jornal “Abc”, da Espanha, que são a base deste texto. “Mujeres periodistas durante la Guerra Civil, otros relatos”, de Mercedes Monmany, e “Las pioneras que contaram a Guerra… e as que seguem contándola”, de Karina Sainz Borgo, saíram na edição de 27 de janeiro.

A Guerra Civil Espanhola chamou a atenção de quase todo o mundo (pode-se sugerir que, dentro da Espanha, ocorreu uma “pequena” guerra mundial). A causa republicana, na sua luta contra o fascismo de Francisco Franco, mesmerizou pessoas de várias nações. Brigadistas de vários países, inclusive do Brasil — José Gay da Cunha, Alberto Besouchet (apontado como “trotskista”, foi assassinado por stalinistas), e Apolonio de Carvalho participaram da batalha —, lutaram na Espanha. Adolf Hitler, nazista da Alemanha, e Benito Mussolini, fascista da Itália, apoiaram a causa de Franco, e chegaram a bombardear tropas republicanas (bombas alemãs destruíram Guernica). A União Soviética de Stálin posicionou-se ao lado dos republicanos — que estavam no governo—, mas batalhou também contra trotskistas e anarquistas, numa tática insana e suicida. Ao final, em 1939, Franco venceu e procedeu um massacre daqueles que ficaram ao lado dos republicanos.

Thérèse Bonney: jornalista e repórter fotográfica | Foto: Reprodução

A pesquisa exaustiva de Diáz Nosty corrige uma injustiça histórica: a guerra também foi retratada, e muito bem, por várias repórteres (jornalistas profissionais ou escritoras que já escreviam para jornais ou revistas, como Dorothy Parker). Ao mostrar que quase 200 mulheres narraram a batalha, ampliando seu entendimento, o historiador acaba com o silêncio em torno do assunto.

De acordo com o pesquisador, a maioria das jornalistas apoiava a causa republicana e era oriunda do Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia. Entre elas havia comunistas, anarquistas, democratas-liberais. Mas também havia pró-fascistas. A média de idade era de 25 a 29 anos.

Ilsa Kulsack (Ilse Wolff): entrevistando soldados | Foto: Reprodução

As correspondentes americanas (34) e francesas (24) eram em grande número, só perderam para as britânicas (42). A Alemanha e a Áustria tinham 24 repórteres na Espanha. A Rússia enviou 10.  Itália, Canadá, Austrália, Irlanda, países escandinavos, Polônia, Países Baixos, México, Peru (a escritora Rosa Arciniega — 1909-1999) enviaram correspondentes de guerra. Díaz Nosty conta que várias delas, terminada a Guerra Civil Espanhola, se integraram à Resistência Francesa, reportando fatos da Segunda Guerra Mundial e, inclusive, lutando contra o nazismo. Elas denunciaram, em várias publicações, a brutalidade do governo franquista e a internação de milhares “de republicanos em campos de concentração imundos, ao ar livre, em pleno inverno, em praias do Sul da França”.

A repórter Andrée Viollis, após ter sido enfermeira na Primeira Guerra Mundial, estudou em Oxford e escrevia no jornal “Le Petit Parisien”. Era expert em grandes reportagens. Renée Lafont, de “Le Populaire, foi assassinada, em Córdoba, “antes de enviar a primeira matéria”.

Simone Téry: jornalista e fotógrafa, em Madri | Foto: jornal “Abc”

Baseada na pesquisa de Diáz Nosty, Karina Sainz Borgo assinala que as repórteres deram uma nova dimensão à guerra: “Em suas crônicas, a violência não se circunscrevia ao campo de batalha”. Se mostravam o sofrimento e mortes dos soldados — a chamada luta central —, as jornalistas também reportavam o padecimento da população civil, sempre acossada por bombardeios. Era uma outra guerra, nem sempre do interesse dos homens que cobriam os choques entre republicanos e franquistas. As repórteres mostraram mais sensibilidade na denúncia da violência e na defesa dos direitos humanos. Elas denunciaram a irracionalidade da guerra, a barbárie coletiva. Atos brutais aconteceram dos dois lados, de acordo com os historiadores britânicos Stanley Paine e Antony Beevor.

Martha Gellhorn: jornalista e escritora | Foto: Reprodução

A jornalista americana Martha Gellhorn (foi mulher de Hemingway e, claro, era muito mais jornalista do que o escritor) detalhou a transformação do Hotel Palace de Madri em ambulatório e centro de cirurgia, em 1937. “Agora é o primeiro hospital militar de Madri. Os cirurgiões estão na sala de leitura. Macas ensanguentadas estão empilhadas no vestíbulo. As prateleiras estilo império, onde antes havia livros aborrecidos para hóspedes, são usadas para guardar ataduras, agulhas hipodérmicas e os instrumentos cirúrgicos. E há lâmpadas potentes para facilitar as operações”, escreveu a autora do excelente livro “A Face da Guerra” (Objetiva, 416 páginas, tradução de Paulo Andrade Lemos).

Anna Seghers: escritora alemã | Foto: Reprodução

A repórter Irene Hodson anotou: “Há um odor indescritível no ar, uma mescla de decomposição e enxofre”. Madri fedia por causa dos mortos abandonados nas ruas.

Convidada pelos brigadistas mexicanos, a escritora Elena Garro (futura mulher de Octavio Paz) dirigiu-se à Espanha e, certa noite, “se viu surpreendida por um feroz ataque aéreo”. No escuro, ouviu os gritos assustadores de um homem. Ferido gravemente, tiveram de cortar uma de suas pernas, e sem anestesia.

Gerda Taro: fotógrafa alemã | Foto: Reprodução

A mexicana Hanna Brener, credenciada por “The Nation”, publicou “análises pormenorizadas da polarização política que desembocaria na guerra”.

Estiveram na Espanha, entre outras, Emma Goldman (anarquista), Jessica Mitford (“a ovelha vermelha das Mitford), Kate O’Brien (irlandesa), Anna Seghers, Thérèse Bonney, Esther Zilberberg, Elsa Triolet (“a primeira mulher a ganhar um Goncourt”; era casada com o poeta comunista Louis Aragon), Nancy Cunard (inglesa), Erika Mann (alemã, filha de Thomas Mann), Simone Weil (escritora e filósofa francesa), Ada Grossi (locutora italiana que trabalhou em Barcelona), Simone Téry, Jean Ross (“a Sally Bowles de ‘Cabaret’”), Jennie Lee (futura ministra da Cultura da Inglaterra), Henriette Nizan, Muriel Rukeyser (poeta), Clara Malraux (a intelectual “não se submetia à fama do marido, André Malraux”), Gina Medem (que falava iídiche) e Sylvia Townsend Warner. Estas e outras mulheres, tão talentosas quanto corajosas, “deixaram excelentes crônicas, foram pioneiras do ‘novo jornalismo’, publicaram livros, colunas em jornais internacionais e, mais tarde, memórias sobre aqueles anos que, como disseram muitas delas, como a célebre anarquista Emma Goldman, as marcaram para sempre”. A brigada feminina continha jornalistas, cronistas, escritoras, filósofas, fotógrafas (algumas se tornaram figuras míticas, como Gerda Taro) e roteiristas de Hollywood.

Elena Garro: escritora mexicana | Foto: Reprodução

Diáz Nosty relata que várias jornalistas foram cobrir a Guerra Civil Espanhola e levaram câmeras fotográficas. Gerda Taro é a mais célebre delas, pois morreu na Espanha, aos 26 anos, em 1937. O pesquisador aponta que oito repórteres-fotográficas trabalharam na Espanha. As mais conhecidas são Kati Hoa, Margarethe Robinson, Tina Modoti e Marie Claude Vailant-Couturier. A escritora e dramaturga Lillian Hellman (1905-1984) fez transmissões radiofônicas, de maneira ocasional — assim como Dora Lennard, Dorothy Parker, Ilse Kulsack (conhecida como Ilsa ou Ilse Wolff) e Florence Farmborough.

Clara Malraux: escritora francesa | Foto: Reprodução

Das 183 jornalistas (e escritoras) que trabalharam na Espanha, durante a Guerra Civil, 163 (91%) operaram na zona republicana, “mais permeável à atividade dos jornalistas que a ocupada pelos sublevados [franquistas]. Das 20 restantes, 13 estiveram na zona rebelde”.

Algumas jornalistas, poucas, aderiram à causa franquista, não raro porque os rebeldes eram ligados (e, até, subordinados) aos comunistas. E elas eram anticomunistas.

Virginia Cowles foi enviada à Espanha pelo Grupo Hearst, que apoiava os franquistas. Depois de escapar de bombardeios aéreos em Barcelona, a repórter foi para Salamanca, onde entrevistou Franco.

Virginia Cowles: jornalista e escritora | Foto: Reprodução

A portuguesa Hilda de Toledano (pseudônimo de María de Sajonia-Coburgo Gotha y Bragança, “filha bastarda do rei Carlos I de Portugal”) era simpática à causa de Franco, Cabanellas, Queipo de Llano e Mola. Esmerou-se em contar, de maneira positiva, as ações dos fascistas.

Acompanhando os fascistas em Sevilha, Florence Farborough escreveu: “Em 18 de julho de 1936, o general Franco, líder nato de homens, desembainhou a espada”. Adiante, passou a trabalhar como jornalista para a nascente Rádio Nacional de Salamanca (pró-Franco).

Jane Anderson: jornalista que aderiu ao nazismo | Foto: Reprodução

Jornalista americana, Jane Anderson, “partidária de Franco na zona republicana, se converteu em denodada propagandista dos sublevados. Contratada por [Joseph] Goebells [ministro da Propaganda de Hitler] para o serviço de propaganda nazista, foi acusada de traição em seu país, mas exilou-se na Espanha”.

Uma história de Dorothy Parker a respeito da Guerra Civil

Dorothy Parker: escritora norte-americana | Foto: Reprodução

O livro de Bernardo Díaz Nosty conta uma história curiosa sobre Dorothy Parker (1893-1967), da “New Yorker” e célebre integrante das reuniões de escritores no Hotel Algonquin.

Destacada para cobrir a Guerra Civil Espanhola, Dorothy Parker dirigiu-se à embaixada dos Estados Unidos em Paris. Um funcionário perguntou: “Você quer ficar de qual lado nesta confusão espanhola?” Sem vacilar, a escritora respondeu: “Do lado leal”.

O servidor da embaixada disse, sorrindo: “Bem, vale. Mas se divertiria muito mais do lado de Franco”.

O diplomata por certo não conhecia Dorothy Parker, uma rebelde. Do lado de Francisco Franco, o condestável, correria risco até de ser fuzilada.

Livros de Paul Preston e Hochschild citam mulheres-repórteres

O livro do jornalista, historiador e professor Bernardo Díaz Nosty é o mais completo sobre mulheres-repórteres que cobriram a Guerra Civil Espanhola. Em termos mais gerais, incluindo os jornalistas-homens, há o excelente “Idealistas Bajo las Balas — Corresponsales Extranjeros en la Guerra de España” (Debate, 539 páginas, tradução de Beatriz Anson e Ricardo García Pérez), do historiador britânico Paul Preston.

Paul Preston menciona Milly Bennett, Virginia Cowles, Martha Gellhorn, Josephine Herbert, Kate Mangan, Dorothy Parker, Gerda Grepp.

“España en el Corazón — La Historia de los Brigadistas Americanos em la Guerra Civil Española” (Malpaso, 516 páginas, tradução de Mariano López), de Adam Hoschschild, não é sobre mulheres-repórteres, e sim sobre brigadistas americanos (por sinal, vários brasileiros lutaram na Espanha), mas menciona várias delas, como Virginia Cowles (“uma das jornalistas mais perspicazes de sua época”; seu texto era “leve e sutil”), Milly Bennett (“podia ‘cobrir qualquer assunto’”), Martha Gellhorn e Dorothy Parker.