Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro revela festança do “roubista” Sérgio Cabral em Paris

Como sabiam Gertrude Stein e Hemingway, Paris sempre é uma festa, e não apenas quando se usa dinheiro do Roubismo

Foto: Divulgação

O poder é afrodisíaco, teria dito o presidente americano John Kennedy. O poder às vezes anestesia o cérebro e produz a sensação de que, quando se o tem, pode-se tudo, não há limite. No Rio de Janeiro, paralela às instituições Judiciário, Executivo e Legislativo, criou-se outra — o Roubismo, espécie de socialismo entre pares que, de plebeus, se tornaram nobres. O ex-governador Sérgio Cabral, que tinha certa qualidade como gestor, tornou-se o principal líder do Roubismo. No CorruptoRio, embolsar dinheiro público — criando uma nobreza do dinheiro, o que chamaria a atenção de um Tomasi di Lampedusa e de um Luchino Visconti, por sinal, nobres — passou a ser regra, e não exceção.

De arrivista político a alpinista social, enquanto o Rio de Janeiro assumia a vanguarda do atraso, em termos éticos e financeiros, o geométrico Sérgio Cabral progredia de maneira extraordinária. Mas o Roubismo não podia mais ser comemorado apenas no Brasil. Era preciso levar os novos Corleones, não para a Sicília, que é pobre, e sim para Paris, que é sempre uma festa, postulou Ernest Hemingway. Paris, a cidade luz, tem os melhores vinhos, restaurantes e museus. Sobretudo tem glamour, com seus cafés, que, em tempos idos, foram frequentados por Picasso, Gertrude Stein, James Baldwin, Hemingway, Scott Fitzgerald, Sartre, Simone de Beauvoir e tantos outros igualmente famosos e celebrados.

Em Paris, os criadores do Roubismo — o único “socialismo” que parece ter dado certo nos trópicos — se divertiram à farta, debochando dos brasileiros que, na falta de grana, são obrigados a frequentar o Pará. Na cidade de Balzac, Flaubert e Proust, que criaram nobres e plebeus à perfeição — exibindo, com finura e perspicácia, conexões e desconexões entre as classes sociais, Sérgio Cabral e os roubistas descobriram que, sim, dinheiro traz felicidade, até muita felicidade. A infelicidade só ocorre quando se é preso e aí, dado o moralismo dos não-roubistas, não se pode comer nem uma quentinha de qualidade.

A festança de Paris, o baile da Ilha Fiscal do Cabral que não quis ir à Índia — não é chique, e sim programa de bicho-grilo —, ganhou sua, por assim dizer, biografia. Trata-se do livro, imperdível, “A Farra dos Guardanapos: O Último Baile da Era Cabral — A História Que Não Foi Contada” (Máquina dos Livros, 176 páginas), do jornalista Silvio Barsetti. Não é, a rigor, a história completa do Roubismo. É a história de como os líderes roubistas curtiam a boa vida, em Paris, sem pensar, sequer um minuto, nos plebeus do CorruptoRio.

Apesar da gravidade do caso, que revela que batedores de carteiras se tornaram, num ritmo frenético, assaltantes de caixas fortes, a história, contada de maneira ágil por Silvio Barsetti, é uma delícia. Opa, delícia?! Será que estamos consumindo, de maneira imaginária, o que os paxás de guardanapos na cabeça consumiram em Paris? De uma coisa não se pode acusar os adeptos do Roubismo: não são afeiçoados ao mau gosto. Ah, vá lá: guardanapo na cachola nada tem de fino. Sim, é fato: mas Paris, e nem é preciso citar Hemingway e Gertrude Stein — mimetizando-a, diria “Paris é Paris é Paris é Paris” —, é sempre uma festa. No caso, virou lambança. Mas, diria Billy Wilder para Jack Lemmon — a frase é do filme “Quanto Mais Quente Melhor”, tão “apetitoso” quanto Paris —, “ninguém é perfeito”.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.