Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro resgata a história de uma criança que foi criada por macacos nas selvas da Colômbia

Marina Chapman viveu num bordel, virou menina de rua, foi perseguida pela máfia colombiana, morou num convento e finalmente foi adotada por uma família. Ela casou-se, tem duas filhas e mora na Inglaterra

Livro conta história de menina que viveu com macacos dos 4 aos 10 anos

Livro conta história de menina que viveu com macacos dos 4 aos 10 anos

“A Garota Sem Nome — A Incrível História Real de uma Criança criada por Macacos” (Record, 320 páginas, tradução de José Gradel), de Marina Chapman, é o típico livro que vai ser levado ao cinema.

A história de Marina Chapman é tão impressionante, a um só tempo do­lorosa e bela, que às vezes o leitor certamente pensará que se trata de ficção. Seria uma Tarzan do mundo real.

Aos 4 anos de idade, aproximadamente, Marina Chapman — na verdade, não se sabe qual foi o nome dado por seus pais — foi sequestrada por dois homens, que, inexplicavelmente, a deixaram na selva. O início da história se dá entre os anos 1950 e 1960.

Inteiramente perdida, andou de um lado para outro em busca de so­cor­ro, mas não encontrou nenhum ser humano. Aos poucos, aproximou-se de macacos — aparentemente macacos-pregos — e passou a observá-los e a ser observada. A­li­mentava-se daquilo que via os macacos comendo — frutas, formigas.

Certa vez, comeu uma espécie de “tamarindo” e começou a passar mal. Havia se envenenado. Um ma­caco mais velho a observou, aproximou-se e começou a empurrá-la em direção a um riacho. A criança, embora assustada, percebeu que a “expressão do macaco”, que passou a chamar de Vovô, “estava completamente calma. Ele não estava zangado, nem agitado, nem hostil”.

O macaco começou a pressionar sua cabeça e forçou-a a beber muita água. A menina achou que queria afogá-la. Aos poucos, ela começou a vomitar tudo o que havia comido, o que salvou sua vida. “Nunca saberei ao certo o que foi que me envenenou, assim como nunca saberei como o macaco Vovô sabia como me salvar. Mas ele o fez. Estou convencida disso.”

Luz Marina aos 17 anos, já adotada por uma família colombiana, disse ter descoberto o que era felicidade e amor. Depois, mudou-se para a Europa

Luz Marina aos 17 anos, já adotada por uma família colombiana, disse ter descoberto o que era felicidade e amor. Depois, mudou-se para a Europa

O Vovô passou a ser uma espécie de protetor da criança, que, aos poucos, foi assimilada pelos macacos, como se tivesse se tornado um deles. “Agora ele [o Vovô] parecia contente ao dividir a comida comigo e cuidar de mim, e com frequência se banqueteava com os insetos que viviam no cabelo. Pouco a pouco minha sensação de solidão e abandono começou a diminuir.”

À noite, a garotinha “dormia no tronco oco de uma velha árvore” e, durante o dia, começou a subir nas árvores — depois de umas boas quedas —, como se fosse um macaco. Ela se considerava um macaco. “Havia o Vovô, que foi uma constante durante o tempo que passei ali. Mas também havia o enérgico Mancha, o gentil e amoroso Mar­ron­zinho e a tímida Ponta Branca, uma das macacas pequenas, que pa­recia realmente amar-me e que muitas vezes pulava nas minhas costas, colocava seus braços em volta do meu pescoço e se divertia ao ser carregada por onde quer que eu fosse.”

Entrosada com os macacos, dando-se bem com eles, começou a esquecer como era a convivência com os humanos. “Acho que nem pensava mais em linguagem humana. Minha vida havia se transformado em sons e emoções”, além de ter “missões”. O que chama de missões era sua batalha diária para buscar comida e encontrar companhias. Passara a andar “sobre quatro patas”. Era uma macaca branca e maior do que seus companheiros.

Marina Chapman, quando menina de rua, era conhecida por sua gangue como Pony Malta. Tinha a ver com a garrafa de uma bebida colombiana | Fotos: Reprodução

Marina Chapman, quando menina de rua, era conhecida por sua gangue como Pony Malta. Tinha a ver com a garrafa de uma bebida colombiana | Fotos: Reprodução

“Os macacos eram incrivelmente inteligentes. Eram inventivos, sensíveis ao seu ambiente, muito inquisitivos e, sobretudo, aprendiam com rapidez. Além de meus amigos, os macacos agora eram minha turma de escola e meus tutores”, diz Marina Chapman. Os macacos eram “iguais”? Não eram, na visão da garota. “Fiquei cada vez mais consciente da diversidade de sua linguagem, desde seus estridentes guinchos e gritos de alerta até as expressões de aborrecimento ou alegria, até os gentis sons de flauta de suas conversas diárias. (…) Podia distinguir cada um deles. (…) Eles eram seres sociais que viviam dentro de uma hierarquia de relações. Eu sentia que pertencia ao lugar em que estava agora.”

O espelho e os humanos

Ao encontrar um espelho, a menina ficou maravilhada. As­sustou-se com a imagem que via, sem perceber, inicialmente, que se tratava dela. “Descobrir que você tem um rosto”, anota Marina Chapman, “parecia surpreendente”. Mas o espelho, ao mostrar-lhe que era diferente dos macacos, “retirou-lhe” a nova identidade. “Eu havia esquecido que era humana e agora tinha sido lembrada disso.”

Andando pela selva, distanciando-se um pouco dos macacos, a garota descobriu uma mãe e seu bebê. Ficou estupefata e, ao mesmo tempo, encorajada a se aproximar. Observou durante algum tempo e aproximou-se da mulher.

Ao contrário do que previa, a mulher ficou assustada e um dos homens do grupo a expulsou. A ga­ro­ta não conseguiu se manifestar. “Mi­nha voz e minhas ações eram as de um macaco, não de uma criança.” Ela insistiu, mas o homem sugeriu que poderia cortar sua garganta, então voltou para junto dos macacos.

Adulta, Marina Chapman sobe numa árvore, com extrema facilidade, para mostrar como fazia quando convivia com macacos-pregos na selva

Adulta, Marina Chapman sobe numa árvore, com extrema facilidade,
para mostrar como fazia quando convivia com macacos-pregos na selva

Depois da experiência malsucedida, possivelmente numa aldeia de indígenas, a menina assustou-se com a chegada de caçadores à selva. Chegaram atirando e capturaram macacos. “Mais de uma vez vi macacas mães simplesmente se deitarem no chão e morreram de dor.”

Com o sumiço dos caçadores, a garota aproximou-se ainda mais dos macacos. Tinha até os favoritos, como Rudy, Romeu e Mia. “Rudy era afetivo e eu sempre ficava feliz deixando que ele me penteasse, mesmo que, devido à sua inépcia, isso não fosse muito útil — meus cabelos terminavam com mais nós que no início. Romeu era um animal muito gentil e o que mais gostava era de estar ligado fisicamente. Talvez a minha favorita — além do Vovô — fosse Mia. Ela é com certeza a figura de quem mais senti saudades — e ainda sinto. Era tímida. Todos os macacos têm seus modos próprios de cativar. Vários gostavam de enfiar um dedo no meu nariz ou de examinar minuciosamente meus ouvidos”. Procuravam vermes suculentos.

Quando tinha mais ou menos 10 anos, caçadores encontraram a menina. Ou melhor, a garota apresentou-se a eles, com medo. “Eu era um macaco. Eu tinha perdido a postura humana e caminhava desnuda em quatro patas. Havia esquecido a linguagem que uma vez falara e não tinha ideia do meu nome. Não tinha compreensão de como ser ‘humana’. Tinha passado anos como um animal e agora pensava como um animal, o que significava que meu foco eram apenas duas coisas: comida e sobrevivência.”

Os caçadores, mesmo assustados com aquela menina estranha e nua, levaram-na e a venderam — receberam dinheiro e um papagaio — para a dona de um bordel, Ana-Karmen, na aldeia de Loma de Bolívar, na Colômbia.

No início, tornou-se faxineira do bordel — uma escrava — e não entendia a conversa de Ana-Karmen e das prostitutas. Por isso, e por não fazer as coisas direito, não conseguia se movimentar como outros humanos, apanhava com frequência. Teve de aprender a se vestir, a se calçar — preferia ficar descalça —, a tomar banho e a escovar os dentes. Não gostou quando cortaram seu imenso cabelo. Ao chupar um picolé, quando “prendeu” sua língua, jogou-o fora. Achou que estava “vivo”.

Maruja acreditou em Marina Chapman, a Luz Marina, e salvou-a da máfia colombiana da família Santos e encontrou um lar para a jovem em Bogotá

Maruja acreditou em Marina Chapman, a Luz Marina, e salvou-a da máfia colombiana da família Santos e encontrou um lar para a jovem em Bogotá

No bordel, ganhou um nome sugestivo e paradoxal, Glória, mas sem sobrenome.

Uma vez, Ana-Karmen tentou ofe­recê-la para um homem, mas, como a criança rejeitou-o bravamente, acabou surrada. Suspeitando que a proprietária do bordel pretendia matá-la, a garota fugiu e se tornou menina de rua. Roubava para comer e chegou a liderar uma gangue de meninos, na cidade de Cúcuta, na Co­lômbia. Dormia num parque. “Tornei-me uma das melhores ladras e fazedoras de dinheiro das ruas de Cúcuta.”

Nas ruas, abandonou o nome Glória e aceitou o nome colocado pelos colegas, Pony Malta. Era o nome de uma bebida doce, de malte. A policiais, que perguntaram sobre seus pais, balbuciou: “Os ma…c…cacos são meus pais. Não tenho casa aqui. Venho dos macacos. As árvores são meu lar”.

De fato, a garota, agora com 14 anos, não tinha pais nem lar. “Sua criança estúpida”, disse um dos policiais. Eles acharam que era “louca” ou “retardada”. “Foi então que jurei que nunca mais falaria dos macacos outra vez.”

Cansada de roubar comida, pe­diu emprego num restaurante. Não durou muito tempo, pois o apelo da liberdade das ruas era-lhe irresistível.

Mas o sonho de Pony Malta era ter uma família e sonhava ter “um amor de mãe”. Sentia muita raiva das pessoas e do mundo. Ao se encontrar com uma ex-menina de rua, que estava bem vestida e bem cuidada, recebeu a sugestão de bater nas portas das casas em busca de emprego. No fundo, queria ser adotada.

Ao bater numa porta, foi atendida por uma jovem, Consuela, que já conhecia do Parque San Antonio. “Eu estou aqui porque quero ajudá-la. Como sua criada. Como empregada doméstica. Mas de graça.”

Os pais de Consuela aceitaram a adolescente e passaram a chamá-la de Rosalba. O que a jovem não sabia era que a família Santos era composta de criminosos e seus integrantes não lhe davam a mínima atenção. “Eu vivia entre humanos que nem mesmo queriam conhecer-me.” Queria uma família e se tornou um ser invisível. Comia restos de comida e praticamente não podia sair de casa.

O sr. Santos tentou estuprá-la, mas ela reagiu. Começou a ser espancada e só pensava em escapar. Subiu numa árvore e começou a manter contato com uma vizinha, Maruja.

Maruja ajudou-a a fugir, levando-a para um convento, onde viviam vários órfãos. Mas a disciplina rígida das freiras não agradou Rosalba, que, mais uma vez, decidiu fugir. “Nunca me senti atraída por Deus. Que tipo de deus dava às crianças pequenas vidas parecidas com aquela que ele tinha dado a mim?”

Sem querer voltar para as ruas, Rosalba voltou a procurar Maruja, mesmo correndo riscos — os Santos queriam matá-la. Achavam que poderia denunciá-los à política, mas, na verdade, ela nada sabia de seus negócios escusos.

Durante alguns dias, Rosalba ficou na casa de Maruja, escondida. Mesmo amedrontada, “ela me aceitou e me alimentou, e eu fiz o melhor que pude para ser a pessoa que, eu sabia, vivia dentro de mim. Uma pessoa boa e, mais do que isso, uma pessoa agradecida. (…) A primeira família da qual eu me sentia parte desde que deixara meu bando de macacos na selva. E eu desesperadamente queria ser boa”. Inclusive, deixou de roubar.

Maria Nelly Forero e Amadeo: o casal deu um lar, uma família e um nome para Luz Marina, mais tarde Marina Chapman. Ela é muito grata aos dois

Maria Nelly Forero e Amadeo: o casal deu um lar, uma família e um nome para Luz Marina, mais tarde Marina Chapman. Ela é muito grata aos dois

Rosalba, com 14 anos, nunca havia recebido um presente. Ao planejar enviá-la para Bogotá, onde morava uma filha, Maruja deu-lhe um vestido de cetim azul-claro e sapatos brancos brilhantes. “Um presente de verdade. O primeiro que eu recebera em toda a minha vida. (…) Ver um vestido tão bonito e saber que era meu foi um sentimento que jamais esquecerei.”

Ao vê-la, Maruja disse: “Você está linda, Rosalba”. “E eu estava. Não podia acreditar. Nunca tinha me sentido tão linda. Não podia parar de olhar no espelho, incapaz de acreditar que aquela menina delicada e feminina que via na minha frente na verdade era eu mesma. Mas não foi apenas o vestido que me maravilhou; foi o amor que tinha sido costurado nele. O sentimento de que eu fazia parte de uma família. Decidi que amava Maruja mais do que amava a mim mesma.”

Para escapar da máfia dos Santos, Rosalba foi enviada para a casa de Maria Nelly Forero e Amadeo, em Bogotá. Como a jovem estava assustada, pois seria uma mudança muito grande, Maruja disse-lhe: “Você pode fazer isso, Rosalba. Você é dura, uma sobrevivente, você é esperta e eu acredito em você”.

Protegida por Maruja, a primeira pessoa a se mostrar carinhosa com ela, e sem qualquer interesse, Rosalba ficou feliz. “Eu podia ter dito ‘obrigada’, e disse, mas pareceu demasiado inadequado. Eu queria dizer tantas coisas, dizer-lhe quão agradecida estava por ela ter me dado uma chance, por confiar em mim, por acreditar que eu poderia fazer algo de mim mesma. Mas não pude. Só pude dizer-lhe com meus olhos e com minhas ações.”

Em Bogotá, Maria apresentou a família para Rosalba. “Senti tanta admiração e respeito por Maria. Ainda sinto. Foi uma coisa incrível o que ela e seu marido Amadeo fizeram: receberam uma estranha, uma menina com um passado menos que recomendável, e a aceitaram em suas vidas tão generosamente.”

Maria ensinou Rosalba a ler e a escrever. Sobretudo, sua família ensinou à menina rebelde e desconfiada que era possível amar de verdade. Não se sabia a idade precisa de Rosalba, então imaginaram que era 13 ou 14 anos.

Perguntada sobre qual nome gostaria de ter, porque seria batizada e registrada, Rosalba disse: “Luz Ma­ri­na”. A adolescente tornou-se, en­tão, integrante da família Forero. Ao deixar a igreja, com um nome e uma família, Luz Marina pensou: “Esta sou eu. Esta é minha identidade. Eu pertenço a uma família, e não sou uma órfã. Com aquele sentimento veio uma sensação de que eu era uma pessoa nova. E, o mais importante, uma pessoa — um ser humano livre. Eu mal podia esperar para começar o resto da minha vida”.

Ghost-writer

A história de Marina Chapman, a Luz Marina, foi anotada por uma de suas duas filhas, Vanessa James. A família vive na Inglaterra.

O texto de Vanessa James foi encaminhado para uma editora de Lon­dres. A editora sugeriu que Lynne Barrett Lee escrevesse o livro. Era “a história de uma mulher que tinha sido criada, em parte, por macacos. Ou era o que diziam. Eu acreditei? Não estava segura”, afirma a ghost-writer.

Lido os originais de Vanessa James, elaborados a partir de entrevistas com Marina Chapman e pesquisas exaustivas, Lynne Barrett Lee entusiasmou-se com o projeto. “Foi questão de alguns segundos para que eu não só confiasse que a incrível história de Marina era verdadeira, mas também sentisse aquela sensação mágica — e não negociável — de ‘encaixe’. Marina é a encarnação viva da pequena garota” descrita por si mesma no livro. “Agora uma dona de casa de Bradford e incansável superavó, ela ainda retém tal aura de travessura e selvageria que não é necessário nenhum ato de fé para casar essas duas qualidades.”

Procede, como diz Lynne Barrett Lee, que “A Garota Sem Nome” é um “livro forte e comovente”.

2 respostas para “Livro resgata a história de uma criança que foi criada por macacos nas selvas da Colômbia”

  1. Felisberto Jácomo Filho disse:

    Eu percebo, pelo que a vida me ofereceu e oferece, que realidade supera totalmente a ficção, pois copia aquela com muita e singeleza, se considerarmos o que realidade é.

  2. Julia salomao disse:

    Maravilhosa a história dela! Que venha o filme!

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