Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro resgata história da maior seleção brasileira de futebol

As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos

Em 1970, menino, vi a Copa de Pelé numa televisão preto e branco na casa do vizinho João Borges (na época poucas pessoas tinham aparelho de tevê). Chuviscos, a bola e os jogadores se confundiam. Mas as imagens da televisão, mais do que o jogo em si, mesmerizavam adultos e crianças. Todos pareciam ter os olhos vidrados, contemplando a tevê como se fosse um quadro de Van Gogh. Resultado: por conta de Pelé, de suas diabruras, tornei-me torcedor do Santos. A Copa de 70 vai completar 40 anos, mas não há a respeito da grande seleção de Gérson, Jairzinho (imagine: na época, eu avaliava que era melhor do que Pelé), Rivellino, Clodoaldo, Tostão e Pelé um livro equivalente à excelente biografia “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha” (Companhia das Letras, 536 páginas), de Ruy Castro. Há obras episódicas, algumas sobre jogadores, mas não uma obra detalhada. O jornalista Milton Leite, embora não tenha a pretensão de escrever a obra “definitiva” sobre a Copa de 70, produziu um livro que explica razoavelmente bem o sucesso da seleção de João Saldanha e Zagallo. “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos” (Contexto, 223 páginas) apresenta histórias e análises pertinentes. Uma decisão oportuna foi a inclusão da seleção de 1982, a do técnico Telê Santana, como uma das melhores, embora não tenha ganhado a copa.

Com justiça, Leite diz que “a seleção que conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet entrou para a história como o melhor time já montado na história dos mundiais”. Não tinha Garrincha e Vavá, mas tinha Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino.

Ao contrário do que muitos pensam, a seleção de 70, por conta do fracasso do Brasil na Copa de 1966, não tinha a confiança de torcedores e imprensa. O capitão Carlos Alberto Torres sugere que, ao escolher João Saldanha para técnico, substituindo Aymoré Moreira, o presidente da CBD, João Havelange, deu um golpe de mestre. Ao indicar um “monstro sagrado do jornalismo”, apoiado pela influente esquerda (mesmo no governo militar), Havelange conquistou a imprensa e, esperto, Saldanha chegou dizendo que iria montar um time de “feras” (não foi Jorge Kajuru a primeiro usar o termo “feras”).

“Ao ser apresentado como novo técnico”, em fevereiro de 1969, Saldanha enfatizou: “Meu time são 11 feras dispostas a tudo. Irão comigo até o fim. Para a glória ou para o buraco”. Primeiro time de Saldanha: Félix, Carlos Alberto, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza, Gérson e Dirceu Lopes; Jairzinho, Pelé e Tostão. Venceu todos os amistosos antes das eliminatórias. O time também venceu os seis jogos eliminatórios.

Carlos Alberto, que se revela um bom analista, diz que “Saldanha foi muito inteligente. Colocou no time titular seis jogadores do Santos, a melhor equipe do Brasil na época. Toda a defesa era do Santos, mais o Pelé e o Edu. Isso facilitou muito o entrosamento. Piazza e Tostão jogavam no Cruzeiro e o Gérson e o Jairzinho no Botafogo”. “Eram jogadores de três times”, acrescenta Leite.

Em 1970, apesar da classificação para a copa, o inteligente mas instável comunista Saldanha decidiu mexer no time. “Ficou difícil reencontrar o entrosamento, não estávamos jogando bem”, relata Carlos Alberto. O que prova que a seleção não nasceu perfeita.

No final de 1969, depois de observar adversários brasileiros na Europa e no México, Saldanha fez cortes e novas convocações. Pelé inquiriu: “Não será muito cedo para tantas modificações na seleção? Não julgo ser essa a melhor hora para novas convocações”. A “crise Saldanha” é pouco explorada por Leite. Sua queda tem a ver com as críticas frequentes à ditadura, mas também à sua instabilidade emocional. Saldanha chegou a ameaçar, “de arma em punho”, o técnico do Flamengo, Yustrich, porque este criticou a “forma de a seleção atuar”. Comunista com vocação totalitária é natural.

Depois de um empate com a modesta equipe do Bangu, em abril de 1970, Saldanha foi demitido e Mário Jorge Lobo Zagallo, técnico do Botafogo, o substituiu. Dino Sani, a primeira opção, era considerado inexperiente.

Saldanha talvez entendesse mais de futebol como analista, “de fora”, mas, “de dentro”, Zagallo era mais técnico, por ser equilibrado e paciente. “O time tinha ido bem nas eliminatórias jogando no 4-2-4, mas para uma Copa do Mundo aquilo era um retrocesso, pois em 1958 e 1962 nós já tínhamos jogado num 4-3-3, porque eu era ponta-esquerda, mas jogava recuado no meio-campo”, conta Zagallo.

O novo técnico cortou Zé Carlos e Dirceu Lopes e convocou duas nulidades: Roberto Miranda (Botafogo) e Dario (Atlético Mineiro). O corte de Dirceu Lopes foi um erro, porque se tratava de um dos melhores jogadores de então, mas, como o time ganhou a copa, ninguém mais falou sobre o assunto. Zagallo, por conta própria mas também inspirado pelo presidente Emilio Garrastazu Médici, avaliava que, no ataque, era preciso um centroavante trombador, como Roberto Miranda e Dario. Paulo César Caju se tornou o ponta-esquerda recuado. “Tostão foi para a reserva de Pelé.” Tostão havia recebido uma bolada num olho e teve descolamento de retina, em setembro de 1969.

Jairzinho relata que Dario, por ser muito ruim, “ficava até constrangido”. Mas o Furacão elogia Zagallo porque “conseguiu colocar cinco ‘camisas 10’ no mesmo time, referindo-se a Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho e Gérson”. “Zagallo foi gênio ao juntar todos eles”, diz, com propriedade, Jairzinho.

Rivellino era reserva de Paulo César Caju, assim como Tostão e Clodoaldo não eram titulares. Aos poucos, nos amistosos, Zagallo foi percebendo que Rivellino não poderia ficar de fora e que Tostão poderia ser o “centroavante referência”. O que prova que a grande seleção não nasceu pronta, teve de ser montada aos poucos, “contando”, mesmo, com o acaso. O volante Piazza foi improvisado na zaga, porque Joel Camargo (reserva) fez uma cirurgia e Fontana (titular) contundiu-se. Piazza acertou como zagueiro e ficou como companheiro do valente Brito. Clodoaldo, hábil e forte, se tornou titular.

Zagallo viajou para o México com o time na cachola: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Marco Antônio; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Tostão e Pelé”. Tostão foi confirmado como titular “15 dias antes do primeiro jogo”. Marco Antônio, contundido, cedeu a vaga para Everaldo. Uma grande equipe não nasce pronta, precisa ser formada e, em seguida, é fundamental harmonizar os múltiplos talentos. O que Zagallo fez com mestria e, por isso, ganhou a copa.

Talento, organização e trabalho científico ganharam copa

A seleção de 1970 ganhou a Copa do México — com seus nomes quase mágicos, como Guadalajara e Jalisco — porque a equipe era composta de gênios que um técnico habilidoso como Zagallo soube tornar competitivos. Poderiam ter sido artistas dos dribles e jogadas maravilhosas, mas poderiam ter perdido, por exemplo para a Itália, se não tivessem composto um time, acima de tudo, competitivo. Mas havia outros fatores.

Mesmo craques incontestes, como Pelé, Gérson (talvez o cérebro da equipe), Tostão, Rivellino e Jairzinho, precisam treinar juntos durante algum tempo, porque time sem conjunto, ainda que conte com jogadores excepcionais, às vezes perde para grupos apenas razoáveis mas coesos. Milton Leite conta que “a seleção brasileira teve praticamente três meses de preparação para aquele Mundial, sendo um deles inteiro já no México. Mais do que isso: a equipe ficou 21 dias treinando em Guanajuato, a mais de 2 mil metros de altitude”. Carlos Alberto Torres acrescenta: “Sabíamos que se estivéssemos iguais a eles [jogadores europeus] na parte física, na técnica éramos superiores”.

A seleção brasileira, aponta Leite, teve, pela primeira vez, “um trabalho científico e bem planejado nessa área [preparação física], comandada por Admildo Chirol e seus auxiliares Carlos Alberto Parreira, Cláudio Coutinho e Raul Carlesso, os dois últimos oriundos da carreira militar”.

Zagallo destaca que “treinar a mais de 2 mil metros nos ajudou para as partidas que disputamos em Guadalajara [1.600 metros], e os jogadores não perderiam totalmente o condicionamento adquirido quando tivéssemos que subir mais, porque a final foi na Cidade do México [2.300 metros]”. Em 1970, portanto, houve a adequação perfeita entre planejamento e talento. Leite diz que “o trabalho foi feito visando a decisão da Copa. E foi tão bem feito que o time conseguia mais gols e sempre jogava melhor que o adversário no segundo tempo”.

Na estreia, a Tchecoslováquia perdeu de 4 a 1 para o Brasil, mas começou ganhando. Rivellino marcou no primeiro tempo, empatando, mas os três últimos gols foram marcados no segundo tempo, quando os tchecos estavam com a língua de fora e os brasileiros em perfeita forma. Jairzinho marcou duas vezes e Pelé uma.

No jogo seguinte, a seleção brasileira ganhou da Inglaterra (1 a 0). “Ganhamos, mas poderíamos ter perdido. Foi um senhor jogo de futebol. A Inglaterra tinha um grande time. Aquele jogo me deu a certeza de que estávamos preparados para conseguir o título”, diz Zagallo.

Tostão, habilidoso e inteligente, conta que, até o jogo com a Inglaterra, Zagallo não tinha certeza de que deveria ser mantido como titular. O relato de Tostão: “Tanto que no segundo tempo, eu vi o Roberto Miranda se aquecendo para entrar no meu lugar. Talvez isso tenha me incentivado a fazer a jogada individual que resultou no gol do Jairzinho. Como o Roberto já havia assinado a súmula, entrou no meu lugar. Mas depois do jogo, nas conversas com Zagallo e com os outros jogadores, tive finalmente a convicção que não sairia mais do time. Depois daquela vitória, tivemos a certeza de que tínhamos grandes chances de ser campeões”.

Edson Arantes do Nascimento, Pelé, tem o hábito, divertido, de falar sobre si na terceira pessoa. Edson não existe mais, só o Pelé, mas o brilhante jogador, o maior de todos os tempos, continua falando de Pelé como se fosse outra pessoa, talvez um duplo. Diz o atacante: “Pelé e Tostão formaram uma dupla que funcionou maravilhosamente bem. Aquela foi considerada a melhor seleção de todos os tempos e o Pelé o melhor jogador”. Milton Leite diz que Pelé admite “que se preparou bem porque sabia que o time era muito bom e não poderia ficar abaixo justamente na sua última Copa”. O país esperava muito de Pelé — o craque era praticamente a seleção. A seleção era ele e mais dez.

Perceptivo, com uma fieira de craques nas mãos, Zagallo mudou o esquema para 1-4-5-1. A Holanda de 1974 pode ter copiado um pouco do estilo canarinho de 70. A versão do técnico: “Era um time em que todo mundo voltava para marcar, só o Tostão ficava um pouco mais à frente. Armei assim porque os times europeus gostavam de ter espaço para contra-atacar. Por isso, a marcação era a partir do meio-campo e não lá na frente, pressionando a saída de bola deles. Marcávamos forte no meio e quando tínhamos a bola saíamos com até sete jogadores em velocidade e todos com uma capacidade individual excepcional. Só Brito, Piazza e Everaldo não avançavam. Clodoaldo, Gérson, Carlos Alberto, Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino iam para o ataque”.

Na primeira fase, o Brasil ainda sapecou 3 a 2 na Romênia, com dois gols de Pelé e um de Jairzinho. A seleção continuou em Guadalajara. O Peru, próximo adversário, tinha craques como Cubillas, Chumpitaz, Mifflin e Gallardo e o técnico brasileiro Didi. O Brasil derrotou o Peru por 4 a 2, com gols de Rivellino, Tostão (dois) e Jairzinho.

O Brasil derrotou o próximo adversário, o Uruguai, por 3 a 1, com gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivellino. Era a semifinal. A Itália venceu a Alemanha Ocidental (na época existiam duas Alemanhas) por 4 a 3 e saiu de campo extenuada. “O cansaço dos italianos também seria um fator decisivo para a vitória brasileira na final, na Cidade do México”, anota Leite.

Zagallo tinha apenas 39 anos quando aceitou dirigir a seleção “de” Pelé. “Os jogadores me respeitavam como técnico, apesar de eu ser muito jovem. Eram atletas tarimbados, mas me ouviam, conversávamos muito”, conta o técnico.

Lembro-me como se fosse hoje o último jogo da seleção. Todos nós, meninos e adultos, tínhamos uma certeza: aquela seleção, com Pelé e Jairzinho, os dos jogadores que mais respeitávamos, era imbatível. Havia uma magia, uma sintonia fina entre jogadores. De longe, parecia que tudo dava certo, nada daria errado com aqueles craques. O jogo da decisão contra a Itália aconteceu no Estádio Azteca, com 108 mil pessoas gritando e aplaudindo, “sob um calor infernal”. Recordo-me que, como tinha o hábito de ouvir jogos pelo rádio (Globo), relutei, durante alguns minutos, ver as partidas pela televisão. O rádio era meu cinema mudo. Algo assim.

Leite conta à perfeição como se deu o jogo. “O primeiro tempo foi equilibrado e o Brasil abriu o placar aos 18 minutos, gol de cabeça de Pelé. Mas aos 37, numa falha de Clodoaldo, Bonisegna empatou. No segundo tempo, mais uma vez, o Brasil dominou amplamente o adversário, que mesmo assim ainda resistiu até os 21 minutos, quando Gérson marcou 2 a 1. Logo depois, aos 26, 3 a 1, com Jairzinho — momento em que as lágrimas brotaram nos olhos de Tostão. O jogo prosseguiu, mas a disputa estava encerrada, até porque o adversário sentia o esforço despendido na semifinal contra a Alemanha. A três minutos do final, Carlos Alberto ainda marcou um quarto gol, numa jogada que, ele lembra, foi antecipada por Zagallo em muitos treinos”. Um dos méritos de Leite é sua rara capacidade de síntese: num parágrafo de poucas linhas deu conta do “clima” do jogo Brasil versus Itália.

Leite transcreve a narrativa impressionante de Carlos Alberto, que retrata uma jogada que parece ter se dado em câmera lenta: “Naquela Copa, o Carlos Alberto Parreira e o Rogério [ponta-direita que acabou cortado por contusão] funcionavam como olheiros dos adversários. Eles traziam slides com a posição dos zagueiros italianos, que faziam marcação homem a homem. Zagallo usava botões de futebol de mesa e nos mostrou que em algum momento, quando o Jairzinho entrasse em diagonal da direita para o centro, com o Pelé mais centralizado e Rivellino e Tostão mais para o lado esquerdo, se abriria um espaço para eu chegar pela direita. (…) Eu olhei para frente e vi que não tinha ninguém lá no lado direito de nosso ataque, os zagueiros tinham acompanhado os nossos atacantes. Aí eu comecei a correr, muito mais um trote, com o resto de energia que ainda tinha. Quando o Rivellino rolou para o Pelé, pelo meio, eu sabia que ele ia lançar pra mim sem olhar, nós jogávamos juntos no Santos, nos entendíamos, sabíamos onde o outro estaria”. A jogada começou com Clodoaldo, que driblou vários adversários. Os italianos estavam meios mortos em campo e o próprio Carlos Alberto estava muito cansado.

Carlos Alberto fez o gol e, como capitão, recebeu a Taça Jules Rimet. “Quando o jogo acabou, eu perdi o fôlego, gritei todos os palavrões que se possa imaginar, agradeci, lembrava da família, da torcida, ficava pensando no que minha família estaria sentindo naquele momento. (…) Naquela época, não tínhamos a mesma repercussão imediata de hoje, não havia tanta mídia em cima. Aquela foi a primeira Copa transmitida para o Brasil pela televisão.”

Encantados com a seleção que jogava o fino, os mexicanos invadiram o campo e arrancaram peças do uniforme dos craques brasileiros. Conta Tostão: “Eu fiquei com medo de ficar completamente nu”.

Numa visão retrospectiva, a vitória da seleção brasileira em 70 parece ter sido muito fácil, mas, como mostra Leite, não foi tão fácil assim.

A inteligência do mestre-craque Pelé

Jairzinho conta a Milton Leite que o convívio dos jogadores na seleção de 70 não era um mar de rosas, mas aponta o descortino e a inteligência de Pelé: “Fontana e Pelé traziam algumas diferenças entre si, por causa dos jogos nos clubes (Cruzeiro e Santos, respectivamente). Um dia, depois de um treino em que andaram se estranhando, durante o jantar, o Pelé fez o que ninguém esperava. Chamou o Fontana, na frente de todo mundo e disse que a inimizade dos clubes deveria ficar longe da Copa do Mundo e que o mal-estar entre eles deveria terminar ali, naquele momento. Os dois se abraçaram, todo mundo aplaudiu e saímos fortalecidos”.

O subestimado Jairzinho, o Furacão da copa

Jairzinho talvez tenha sido o craque mais subestimado da Seleção Brasileira de 1970. Fez gols em todas as partidas, driblava e atacava com eficiência, mas a figura gigantesca de Pelé tornou-se a sombra que ofuscou seu talento e, posteriormente, sua história. Ao pensar em Jairzinho, lembre-se de Messi, o craque do Barcelona. O Furacão era tão eficiente quanto Messi. Eles jogavam para frente, não driblavam voltando para o próprio campo, para enfeitar.

Como seria a seleção sem Jairzinho? Teria ganhado a copa? Não há uma resposta adequada, é claro. Mas é possível dizer que a equipe, sem o Furacão, teria perdido muito de seu poderio ofensivo e de sua alegria.

Jairzinho tinha uma energia incrível, uma explosão rara.

Dirceu Lopes foi o maior injustiçado da seleção de 70

Dirceu Lopes O mineiro-goiano Eduardo Rodrigues, que entende de futebol como poucos, sustenta que a não convocação de Dirceu Lopes foi uma das maiores injustiças futebolísticas de 1970. Lopes mora em Belo Horizonte e é dono de lavanderia (de roupas, e não de dólares).

Em 1970, Lopes, apontado como craque, fazia gols e era favas contadas de que deveria ir para a seleção. João Saldanha e, depois, Zagallo cortaram o notável jogador. “Foi a maior decepção da minha vida. Um golpe muito forte que eu demorei muito para aceitar. Posso dizer que sou frustrado por não ter disputado a Copa de 1970”, lamenta o ex-craque do Cruzeiro.

O mineiro Lopes faz 64 anos em 3 de setembro. Aos 17 anos, brilhava no Cruzeiro. Milton Leite relata que “formou com Tostão uma das mais importantes duplas ofensivas do futebol brasileiro, numa equipe capaz de rivalizar com o Santos de Pelé”.

Na final da Taça Brasil de 1966, o Cruzeiro goleou o Santos por 6 a 2 — com três gols de Lopes. No jogo seguinte, no Pacaembu, o Cruzeiro ganhou por 3 a 2 e sagrou-se campeão. Lopes fez um gol.

Aos 21 anos, em 1967, Lopes foi chamado para a seleção pelo técnico Aymoré Moreira. Num hotel, em São Paulo, Mané Garrincha visitou-o e disse: “Vim aqui lhe dar um abraço, porque você é o melhor jogador do mundo”.

Saldanha, depois de cortá-lo, em 1969, decidiu reconvocá-lo em 1970. Lopes participou de todos os amistosos preparatórios. Zagallo enterrou o sonho do craque mineiro. “O novo técnico [Zagallo] afastou alguns jogadores que vinham sendo chamados por João, entre eles Dirceu Lopes. A alegação: muitos bons jogadores para a mesma posição e a necessidade de ter ‘atacantes de referências’, com presença de área. Ironicamente, Dirceu Lopes seria, naquele ano e no seguinte, o melhor meia-atacante dos torneios nacionais”, diz Leite.

Paradoxalmente, em 1972, Zagallo convocou Lopes para a equipe que estava preparando para o Mundial de 1974. Lopes fez quatro gols nas 19 partidas que disputou pela seleção.

Aos 31 anos, em 1977, trocou o Cruzeiro pelo Fluminense. Ficou na reserva de Rivellino. O Flu era chamado de a “Máquina Tricolor”. Pôs fim à carreira em 1980, aos 34 anos. Jogou no Uberlândia, Democrata de Sete Lagos (Milton Leite escreve “Lagos”; não seria Sete Lagoas?) e Democrata de Governador Valadares.

Ditabranda esportiva permitiu comunista no comando

Que a ditadura brasileira tenha aceitado, pelo menos num primeiro momento, que um comunista, João Saldanha, dirigisse a seleção de futebol de 1970 prova que, de algum modo, os militares construíram, aqui e ali, uma ditamole, uma ditabranda. O russo-georgiano Stálin e o cubano Fidel Castro jamais aceitariam, um minuto se quer, que um não-comunista dirigisse uma seleção de seu país.

O subestimado Jairzinho

Jairzinho talvez seja o craque mais subestimado da Seleção Brasileira de 1970. Fez gols em todas as partidas, driblava e atacava com eficiência, mas a figura gigantesca de Pelé tornou-se a sombra que ofuscou seu talento.

Como seria a seleção sem Jairzinho? Teria ganhado a copa? Não há uma resposta possível, é claro. Mas é possível dizer que a equipe, sem o Furacão, teria perdido muito de seu poderio ofensivo.

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