Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro resgata a história de repórteres brasileiros que cobriram a 2ª Guerra Mundial

Carlos Lacerda foi vetado pelo governo. Rubem Braga e Joel Silveira produziram jornalismo de qualidade

Rose Esquenazi escreveu “O Rádio na Segunda Guerra — No Ar, Francis Hallawell, o Chico da BBC” (Insular, 189 páginas). A jornalista e professora da PUC-Rio assinala que Francis Charlton Hallawell, conhecido como Chico da BBC, “realizou um trabalho inédito como correspondente radiofônico durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro resgata, de maneira precisa, seu trabalho. Agora, o jornalista e pós-doutor em História Helton Costa lança “Crônicas de Sangue — Jornalistas Brasileiros na Segunda Guerra Mundial” (Motres, 159 páginas). Era a obra que faltava nas estantes dos aficionados pela história da batalha que ocorreu entre 1939 e 1945.

Numa entrevista a Marta Teixeira, do Portal Imprensa, Helton Costa relata que pesquisou, durante três anos, os arquivos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), da censura de guerra do Exército, esteve na Itália e compulsou a bibliografia, inclusive livros escritos pelos correspondentes — como Rubem Braga e Joel Silveira. O estudioso ouviu filhos e netos dos repórteres enviados à Itália para cobrir uma guerra a respeito da qual tinham lado — a democracia, quer dizer, o Brasil, a Inglaterra, a França, os Estados Unidos e União Soviética (que, se não era democrática, lutava contra o totalitarismo nazista). E eram contrários ao fascismo da Alemanha, Itália e Japão.

Helton Costa batalhou, às vezes com recursos próprios, para pesquisar e escrever o livro sobre correspondentes de guerra na Itália | Foto: Divulgação

A pesquisa, admite Helton Costa, foi mais difícil do que esperava. Vários “drummonds” quase travaram seu trabalho — como “a falta de centralização da memória referente à FEB. O Exército faz um bom trabalho no seu centro de documentação no Rio de Janeiro, mas ainda tem muita coisa espalhada nas mãos de familiares, colecionadores e instituições e museus dispersos. Isso dificulta para o pesquisador. O Arquivo Nacional também foi essencial”. O professor frisa que teve de economizar e se virar para bancar seu estudo. “Mas vejo como uma forma de poder devolver para a sociedade um pouco do que investiu em mim, afinal, sou egresso da escola pública, fui de uma das primeiras turmas do Prouni no país e ainda fiz mestrado e pós-doutorado em universidades públicas.”

Helton Costa conta que, inicialmente, jornalistas patropis foram proibidos de viajar para cobrir a guerra. “Depois” foram “autorizados”, mas “atendidos com uma baita má vontade pelos oficiais na Itália”. Após um jantar com o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, “tudo” melhorou “e eles” ganharam “carta branca para andar pelo front sempre que possível. Daí em diante, o leitor começa a andar junto deles pelos caminhos da guerra. É legal ver o Rubem Braga, o Joel Silveira, o Egydio Squeff [“O Globo”] e os demais correspondentes correndo atrás de notícias e” testemunhando “batalhas importantes, como as de Monte Castello, Montese, Castelnuovo”. O coronel Aguinaldo Caiado, carioca mas filho de goianos, comandou a tomada de Monte Castello. Os brasileiros foram decisivos na rendição de 14 mil alemães.

Da esquerda para direita: de pé, Rubem Braga, do Diário Carioca; Frank Norall, da Coordenação de Assuntos Interamericanos; Thassilo Mitke, da Agência Nacional; Henry Bagley, da Associated Press; Raul Brandão, do Correio da Manhã; e Horácio Gusmão Coelho, fotógrafo da FEB. Ajoelhados: Allan Fisher (autor da foto), fotógrafo da Coordenação de Assuntos Interamericanos; Egydio Squeff, de O Globo; e Fernando Stamato, cinegrafista. Sentado: Joel Silveira, dos Diários Associados

A vida dos correspondentes não era moleza, não. Rubem Braga (“Diário Carioca”) e Raul Brandão (“Correio da Manhã”), o Veterano, foram feridos. Brandão, que era mais velho, foi ferido “de forma tão séria que” que ficou com “sequelas pelo resto da vida”. “Joel Silveira [Diários Associados] amadureceu nessa guerra. Ele escreveu que perdeu o resto da mocidade que lhe restava. Achei fotos inéditas deles por lá e fiz um breve perfil do pós-guerra de cada um. Demos nossos melhores jornalistas para combater o nazifascismo. Vencemos e fomos peças importantes no esforço de guerra brasileiro.”

Onze jornalistas

Em 1944, vinte e cinco mil soldados brasileiros foram enviados para lutar contra o nazifascismo na Itália — 451 morreram e quase 2 mil ficaram feridos (um parente meu, o tenente Benvindo Belém de Lima, voltou ferido e morreu ainda jovem. Era de Pindorama do Tocantins e recebeu treinamento inicial em Ipameri). Onze combatentes da caneta, máquinas de escrever e câmeras fotográficas somaram-se aos combatentes dos fuzis, metralhadoras, granadas e tanques.

O autor vai doar 50% da venda dos exemplares à Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (Anvfeb)-Seção Mato Grosso do Sul (o jornalista nasceu no Estado). “Todos os ex-combatentes vivos já passaram dos 90 anos de idade. Dos 25 mil soldados que foram para aquela guerra, restam poucos, talvez algumas centenas, espalhados pelo país.” Em Anápolis, cidade de Goiás, mora o pracinha Waldyr O’Dwyer, de 100 anos.

Na entrevista, Helton Costa não menciona Silvia Bettencourt, a Majoy, que cobriu a guerra para a United Press (UP). A jornalista é citada no livro de Rose Esquenazi. Não arrola também Thassilo Mitke, José Barros Leite (Diários Associados), Horácio Gusmão Sobrinho e Carlos Alberto Dunshee de Abranches (“Jornal do Brasil”) e os cinegrafistas Fernando Stamato Sílvio da Fonseca e Adalberto Cunha. Carlos Lacerda foi vetado pelo governo.

Os cabos Naldo Caparica e José Borba eram os principais redatores do “Cruzeiro do Sul” e de “Zé Carioca”. As publicações davam informações do meio militar. Havia também pequenos jornais escritos por militares — como “E a Cobra Fumou”, “Sampaio” e “Vem Rolando”.

Dez livros sobre pracinhas que lutaram na Itália

Uma breve lista de livros sobre a participação de brasileiros na Segunda Guerra Mundial, no cenário da Itália.

1 — “Barbudos, Sujos e Fatigados — Soldados Brasileiros na Segunda Guerra Mundial” (Grua, 448 páginas), de Cesar Campiani Maximiano. Um dos melhores, senão o melhor, a respeito da participação do Brasil na batalha.

2 — “A Nossa Guerra — Os Brasileiros em Combate, 1942-1945” (Expressão e Cultura, 224 páginas), de Ricardo Bonalume Neto. É uma pesquisa de qualidade feita por um jornalista que conhecia bem o assunto (morreu ainda jovem).

3 — “A Estrada Para Fornovo — A FEB, Outros Exércitos & Outras Guerras na Itália” (Nova Fronteira, 372 páginas), de Fernando Lourenço Fernandes.

4 — “‘Bom Dia, Meus Camaradas’ — Marechal Aguinaldo Caiado de Castro”, de Magaly Caiado de Castro Aquino Coelho. O livro mostra que o militar, filho de goianos, lutou bravamente na Itália. Comandou a tomada de Monte Castello e ganhou elogio, por escrito, do general americano Eisenhower, comandante das tropas aliadas na Europa.

5 — “O Expedicionário — Memórias da 2ª Guerra Mundial”, de Joaquim Pinto Magalhães. O goiano-tocantinense lutou contra o nazismo e perdeu uma perna em combate.

6 — “A Luta dos Pracinhas — A Força Expedicionária na II Guerra Mundial” (Record, 216 páginas), de Joel Silveira e Thassilo Mitke.

7 — “Crônicas da Guerra na Itália” (Record, 406 páginas), de Rubem Braga.

8 — “A Guerra Que Não Acabou — A Reintegração Social dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira: 1945-2000” (Eduel, 376 páginas), de Francisco César Alves Ferraz. O livro, de um doutor em história, mostra que os pracinhas foram abandonados pelo governo federal.

9 — “Amor Entre Guerras — O Romance Entre uma Carioca e um Japonês Que Lutou Pelo Brasil na 2ª Guerra Mundial” (Planeta, 319 páginas), de Marianne Nishihata. Uma história, como se diz, de cinema.

10 — “A FEB Por um Soldado” (Nova Fronteira, 353 páginas), de Joaquim Xavier da Silveira.

Leia sobre um goiano-tocantinense que lutou na Itália

O militar goiano que ajudou os Aliados a derrotarem as tropas de Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial

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