Livro fascinante de Martin Buber interessa a todos os povos, não apenas aos judeus

O livro “O Caminho do Homem”, que não traz uma visão pessimista e sombria, é uma busca da humanidade perdida em cada um

Arnaldo Bastos Santos Neto 

“O Caminho do Homem Segundo o Pensamento Chassídico” (É Realizações, 64 páginas, tradução de Claudia Abeling), de Martin Buber, contém, por meio de histórias, um pensamento fascinante.

Conta-se que o rabino Schneur Zalman estava numa prisão russa, denunciado por conta de seus princípios. Um policial, então, entrou na cela e, buscando mostrar uma contradição presente no texto bíblico, questionou: “como é que Deus, o onisciente, perguntou a Adão: ‘Onde está você’”? A lógica do policial era: se Deus é onisciente, porque não sabia onde estava Adão?

Mas o rabino não se deu por vencido e retrucou: “Deus diz a todos os homens, em todos os tempos: ‘Onde você está em seu mundo?’ Passaram-se tantos anos e tantos dias dos que lhe cabem e onde você chegou em seu mundo?’ Deus fala dessa maneira: ‘Você viveu 46 anos, onde você está?’”

O policial ficou surpreso ao ouvir do rabino a sua própria idade, o cumprimentou e se colocou a pensar na pergunta.

Assim começa um pequeno livro de Martin Buber, um livro precioso e inesquecível. Das seis lições, para mim, a mais poderosa é a do rabino que sonha com um tesouro enterrado embaixo de uma ponte, mas esta não contarei aqui, deixarei que o leitor procure no livro.

Martin Buber ouviu relatos assim desde a infância, pois seu avô era um mestre em tradição judaica. Quando resolveu recolhê-las neste livro, que compila seis preciosas lições, a Europa havia saído da tremenda provação da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No entanto, não vemos aqui uma visão pessimista e sombria. “O Caminho do Homem”, o título do livro, é uma busca da humanidade perdida em cada um, um convite para um novo despertar.

Antes de publicar a obra pela primeira vez, em 1948, Martin Buber leu o texto para os participantes de um colóquio na Holanda. Albrecht Goes relembra este momento: “Era uma voz tranquila, nada insinuante, que não transmitia receita nem orientação, mas, sim, com uma simplicidade sublime, experiência e sabedoria”.

Não são histórias para judeus, tão-somente. São histórias que falam a todos os seres humanos. Há no judaísmo, por certo, coisas muitos particulares de um povo antigo e singular, mas há também elementos de uma grande universalidade. São perguntas e ensinamentos fundamentais, como a importância do questionamento: “Onde está você neste mundo?” “Onde você chegou em sua trajetória humana?” Estas são perguntas que crescem no decorrer das nossas vidas.

Nós passamos a vida nos ocultando, colocando máscaras, construindo esconderijos para escaparmos das perguntas que nos colocam contra a parede, que nos desafiam, que nos põem em xeque. Cada um tem uma resposta, uma verdade, uma vida que viveu, onde errou e acertou. Quando encontraremos o caminho certo? Precisamos nos perguntar porque estamos aqui e qual o nosso papel no mundo.

Na bela edição brasileira, com posfácio de Albrecht Goes, tem uma foto de Martin Buber, no final da vida. Ela me lembra uma passagem de um livro de outro escritor judeu, Isaac Bashevis Singer, que fala de um membro desgarrado de sua comunidade, que, no entanto, resolveu retornar para os ensinamentos do judaísmo após ver nos olhos de um rabino uma imensa bondade. Vendo uma foto de Martin Buber, já velhinho, com barbas e cabelos muito brancos, eu vejo esta bondade, vejo toda a bondade do mundo.

Arnaldo Bastos Santos Neto é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

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